A pesquisa e a memória do erro
Na véspera da eleição, não basta perguntar quem está na frente. É preciso perguntar quanto confiar nos números e o que os erros anteriores podem ensinar.
Esta avaliação segue dois caminhos: a média ponderada das pesquisas e a mesma média corrigida pelo erro histórico dos institutos. Os dois colocam Flávio à frente. A diferença está no tamanho da vantagem projetada.
O que dizem as pesquisas
Foram reunidos cinco levantamentos: Datafolha, Quaest, AtlasIntel, PoderData/Aya e BTG/Nexus. Entrou apenas a pesquisa mais recente de cada instituto, com campo a partir de 13 de outubro.
Os pesos consideram a recência e a raiz quadrada do tamanho da amostra. A parcela do peso ligada à recência cai pela metade a cada 14 dias.
Na base apresentada, os resultados de Flávio variam de 50,5% a 51,0%. A média ponderada fica assim:
Flávio: 50,9%. Lula: 49,1%.
A diferença corresponde a cerca de 2,1 milhões de votos, considerando 119,3 milhões de votos válidos.
Incluindo o Gerp, a média informada sobe para 51,0%. Quase nada muda. As pesquisas estão próximas entre si, embora essa proximidade não impeça um erro comum.
O “DNA do Erro”
O levantamento histórico apresentado reúne 19 observações dos dois turnos de 2018 e de 2022 e do primeiro turno de 2026. Todas registram subestimação do candidato da direita.
Essa repetição é chamada aqui de “DNA do Erro”. Não é uma acusação de desonestidade. É uma hipótese sobre uma falha persistente de medição.
Para calcular a correção, os segundos turnos recebem peso dobrado. As eleições recentes também pesam mais: o peso histórico cai pela metade a cada oito anos.
Com todas as observações, o ajuste médio informado chega a 2,7 pontos. Aplicado à média atual, leva Flávio a 53,6%.
Usando apenas os segundos turnos, o ajuste cai para 1,4 ponto, e Flávio chega a 52,3%.
A segunda hipótese fica, portanto, assim:
Flávio: 52,3% a 53,6%.
Lula: 47,7% a 46,4%.
A diferença seria de 5,5 a 8,6 milhões de votos.
O erro passado pode orientar uma correção. Não garante que ela esteja certa nesta eleição.
A conferência por outro caminho
O Modelo A parte do resultado do primeiro turno informado no estudo e distribui os votos dos candidatos eliminados.
Se metade desses votos for para Flávio, ele chega a 50,9%. Com a taxa de 63,5%, adotada como referência histórica, alcança 52,0%. Com 68%, chega a 52,3%.
Esse cálculo pressupõe a manutenção dos votos dos finalistas e do total de votos válidos. Não é uma regra do TSE.
O topo da correção, de 53,6%, exigiria aproximadamente 84% dos votos restantes para Flávio. Supera o teto histórico de 79% informado no estudo. Por isso, merece maior cautela.
A aposta registrada
A aposta do autor é Flávio perto de 52%, com vantagem aproximada de 4,8 milhões de votos.
A escolha tem duas referências: a correção restrita aos segundos turnos aponta 52,3%; o Modelo A, com a transferência histórica adotada, chega a 52,0%.
São caminhos diferentes que se aproximam. Essa convergência sustenta a aposta, mas não comprova a vitória.
O comparecimento pode mudar a composição dos votos. O eleitor pode mudar de escolha. E as pesquisas podem ter corrigido falhas anteriores.
Se Flávio ficar perto de 51%, prevalecerá o cenário da média. Perto de 52%, o resultado será compatível com a aposta central. Uma vitória de Lula contrariará a projeção e exigirá examinar onde o método falhou.
A aposta está feita. Amanhã, as urnas mostrarão o que os números conseguiram antecipar.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
Fontes:
Pesquisas da rodada: Datafolha, Quaest, AtlasIntel, PoderData/Aya, BTG/Nexus e Gerp.
Comparações históricas: resultados eleitorais do TSE e levantamentos citados no estudo completo, publicados por Poder360, InfoMoney, O Povo e Jornal Razão.
