A frase que serve de manual
Atribuída a Lenin, uma frase resume um método: “Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é”. Uma cartilha comunista em pleno século XXI. O método atravessou um século e segue em intensa atividade, apesar de sucessivos fracassos.
O debate entre os coordenadores de campanha, exibido pela GloboNews, ofereceu uma aula. De um lado, o honrado Rogério Marinho, pela campanha de Flávio Bolsonaro. De outro, Edinho Silva, presidente do PT, pela campanha de Lula.
Edinho, desfaçadamente, acusou Flávio de desvios morais e de agressão à economia nacional. O curioso é que cada acusação parecia descrever, com precisão, o histórico do próprio partido.
Desvio moral?
O PT viu sua cúpula condenada pelo STF no Mensalão, com José Dirceu e José Genoino entre os sentenciados. Viu depois a Lava Jato expor um dos maiores esquemas de corrupção já documentados no país, com ex-diretores da Petrobras confessando e devolvendo dinheiro.
As condenações de Lula foram anuladas pelo STF, o que não equivale a uma absolvição pelo exame das provas.
No atual mandato, as denúncias envolvendo descontos indevidos nos benefícios de aposentados acrescentam um capítulo cruel. São recursos retirados de quem depende deles para viver. As responsabilidades de dirigentes, sindicatos e familiares de Lula precisam ser definitivamente apuradas. A cobrança ao governo, porém, é inevitável: como permitiu que isso acontecesse?
A agressão econômica?
Foi sob um governo petista que o Brasil mergulhou na recessão de 2015 e 2016, uma das mais profundas de sua história. Foi também quando uma presidente, Dilma Rousseff, perdeu o mandato por manobras fiscais.
Hoje, as contas federais voltam a registrar gastos muito acima da arrecadação, e a dívida cresce, empurrada pelos próprios juros.
O método do espelho invertido
Quem acusa primeiro ocupa o lugar de acusador e empurra o adversário para a defesa. O eleitor desatento passa a ver no acusado a culpa e, no acusador, a honra.
Há, porém, uma regra que nenhuma retórica revoga: só tem autoridade para condenar quem pode oferecer o próprio exemplo. O engenheiro não critica a fundação alheia diante do prédio que ele mesmo deixou rachar. O médico não condena o fumo com o cigarro aceso entre os dedos.
Edinho não ofereceu exemplo. Não apontou, na trajetória do partido, nenhuma conduta que servisse de régua para medir o adversário. Condenou sem lastro. E acusação sem lastro é apenas ruído alto.
Daí a dificuldade de enfrentar esse tipo de contendor. Não se debate com quem não reconhece os próprios fatos. Responde-se a um argumento; não se responde a um reflexo.
Só a desfaçatez, quando passa a ser aceita no ambiente de convivência e a conduzir o raciocínio, pode explicar tamanha naturalidade na defesa do indefensável.
E desfaçatez não é falta de informação. É a decisão consciente de ignorá-la.
O eleitor do resíduo, aquele que decide eleições, costuma perceber o truque. Não pelo que ouve, mas pelo que lembra.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
