Os debates mudam de formato, mas continuam sendo o que sempre foram: um confronto de inteligências. Por isso, as estratégias das equipes quase não mudam.
A primeira regra é estudar o roteiro da produção. Sabendo quanto tempo há em cada bloco, a equipe decide como seu candidato vai gastá-lo.
Pouco adianta adivinhar o que o adversário fará. O que importa é o que o próprio candidato precisa dizer, seja qual for a pergunta.
A segunda é o ataque. Quem ataca obriga o outro a se explicar, e quem se explica perde o tempo de propor.
A terceira é a dosagem. A artilharia deve ser disparada em séries, com hora marcada, nunca de uma só vez. Munição gasta no bloco de abertura faz falta no bloco final. E fez.
A quarta é o relógio. Administrar o tempo de cada bloco para ficar sempre com a última palavra, aquela que o eleitor leva para casa.
A quinta é o tom. A audiência sabe que o candidato não é especialista em tudo que não deve fingir que é. Mas precisa ser contundente nas afirmações e intolerante com os erros do adversário.
A sexta resume as demais: o mais inteligente, na soma de emoção, disciplina e bagagem, dificilmente sai derrotado.
O cenário eleitoral
Os dois candidatos chegaram à Band em equilíbrio com leve superioridade de Flávio. Na votação de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro ficou à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
O Datafolha divulgado na quinta-feira anterior ao debate registrava 51% a 49%, empate técnico. A decisão final será no dia 25.
O que se viu no estúdio
O debate ocorreu no domingo, 18, em São Paulo, com duas horas de duração, divididas em blocos.
Flávio começou acuando. Nos blocos iniciais, deixou Lula desorientado, respondendo em vez de propor. Foi a aplicação fiel da regra do ataque.
Mas descuidou da regra da dosagem. Gastou artilharia demais, cedo demais, e não sustentou a pressão.
Lula saiu das cordas. E Flávio, diante de um adversário visivelmente frágil, não encontrou o golpe que o devolveria a elas.
Esse é o ponto. No boxe como no debate, deixar o oponente respirar é entregar-lhe o assalto seguinte.
O veredito das torcidas
O resultado estava escrito antes do bloco final. O clã apaixonado de Lula dirá que ele venceu. O séquito mais contido de Flávio dirá que ele poderia ter se saído melhor.
Nenhum dos dois mudará de lado por isso. Os extremos não assistem ao debate para decidir; assistem para torcer.
Quem decide a eleição é o resíduo: o eleitor que não pertence a nenhuma das torcidas e procura, nos debates, um motivo para escolher. Esse motivo não apareceu.
As consequências
No fato, o debate foi morno. Sem emoção capaz de comover, sem proposta capaz de convencer. Ninguém foi nocauteado, e ninguém venceu por pontos com clareza.
Um debate assim não move votos. Confirma o eleitor que já escolheu e deixa o indeciso onde estava.
Numa disputa tão apertada, a consequência é uma só: a eleição continua entregue ao que já vinha decidindo, a fidelidade dos campos e o comportamento do resíduo, até a votação de 25 de outubro.
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