As urnas do próximo dia 25 trarão a manifestação soberana que deve levar Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O resultado do primeiro turno e o domínio do resíduo pelo campo da direita demonstram que a democracia brasileira está funcionando: o eleitor escolheu, os números registraram, e a escolha se repete nas pesquisas.
As sondagens de segundo turno indicam que Flávio recebe cerca de 70% dos votos dados aos candidatos eliminados. Nesse ritmo de transferência, o processo eleitoral tende apenas a confirmar o que o primeiro turno anunciou.
Mas a eleição não termina na contagem. Ali começa outra tarefa, tão importante quanto vencer: saber conviver com quem perdeu.
A evolução civilizatória ensina uma lição repetida em todas as épocas. Sem oposição, qualquer grupo dominante tende a radicalizar atitudes, confundir governo com propriedade e produzir retrocesso democrático.
Foi assim nas monarquias absolutas, nos regimes de partido único e nas repúblicas que trocaram o voto pela aclamação.
A oposição não é um acidente da democracia. É uma de suas engrenagens. É ela que fiscaliza o gasto, questiona a decisão apressada, denuncia o abuso e obriga o governo a explicar o que pretendia esconder.
Um governo sem crítica é como uma obra sem fiscal: pode até ficar de pé por um tempo, mas ninguém sabe o que foi medido e está enterrado na fundação.
Cabe à oposição, fiel às suas convicções programáticas, ser crítica e fiscal do partido de plantão. E cabe a ela resistir à tentação que costuma dominar os derrotados: transformar a frustração em ódio, a crítica em baixaria e a derrota em arma política.
Quando os extremos tomam conta, a saudável vigilância se inverte em sabotagem, e quem perde é o país, não o governo.
O Brasil conhece esse roteiro. Nos últimos anos, cada lado tratou o adversário como inimigo a ser eliminado, e não como concorrente a ser enfrentado na eleição seguinte.
O resultado foi uma nação dividida em trincheiras, onde o debate de ideias cedeu lugar à guerra de rótulos.
Ao novo governo cabe compreender que a oposição é parte da sustentação de um mandato sem excessos. Ela funciona como o freio de um caminhão carregado: ninguém compra o veículo pelo freio, mas sem ele nenhuma descida termina bem.
Por isso, o vencedor jamais deve usar o poder para destruir a oposição. Perseguir adversários, asfixiar partidos ou calar críticos é atingir, antes de tudo, a própria nação, porque elimina o único instrumento capaz de corrigir os erros do governo antes que eles se transformem em prejuízo coletivo.
A vitória que se desenha é do eleitor. A grandeza do mandato será medida pela maneira como o vencedor tratar quem não votou nele. Governar para todos começa por respeitar o direito de discordar.
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A arquitetura dos fatos
