A poucas semanas do veredito das urnas, a revista VEJA publicou um relato que atinge a campanha de Lula onde mais dói: o dinheiro, os antigos aliados e a memória do eleitor.
Segundo a reportagem, Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, afirma ter liberado R$ 30 milhões em dinheiro vivo para um documentário sobre Lula. A contrapartida seria abrir caminho aos recursos dos fundos de pensão.
A campanha já chegava ferida. O caso Master havia alcançado o governo. Agora, o relato envolve o documentário do presidente e o Instituto Lula.
O primeiro dano é a perda de uma arma de campanha.
Lula vinha usando o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro para atacar Flávio. Agora, segundo Vorcaro, existe um filme de Lula na mesma contabilidade. Com um agravante: o banqueiro afirma que esse dinheiro foi pago “por fora”.
A arma virou empate. E, em empate no terreno da ética, perde mais quem carrega o passivo mais antigo.
O segundo dano é de memória.
João Vaccari Neto e Paulo Okamotto. Os mesmos nomes, velhos garçons, que apareceram nos processos da Lava Jato voltam ao cenário nas denúncias publicadas pela VEJA.
Segundo o relato, Vaccari teria exigido o dinheiro do documentário como retribuição e pedágio para abrir os negócios. Okamotto teria recebido os recursos, além de outra parcela destinada à manutenção do Instituto Lula, o mesmo que recebera das empreiteiras os valores das palestras, no exterior, que Lula nunca proferiu.
A cobrança, conforme Vorcaro, não terminaria ali. Haveria uma exigência permanente e futura de 10% sobre o que o Master captasse, como de fato captou dos institutos de previdências. Entre os alvos estavam a Previ, dos funcionários do Banco do Brasil; a Petros, da Petrobras; e o Postalis, dos Correios. A Caixa Asset também aparece nas negociações descritas pela revista.
O eleitor reconhece os nomes. Reconhece a proximidade com o poder. E volta a ouvir uma denúncia em que o patrimônio destinado à aposentadoria dos trabalhadores aparece como caminho para negócios e cobranças de propina.
Não é uma lembrança distante. São personagens conhecidos em um novo relato.
O terceiro dano é de calendário.
Na política prática, a percepção chega antes do rito processual. O eleitor não espera uma sentença para formar juízo. E uma denúncia desse porte exige tempo para ser respondida.
A campanha não o tem.
Cada dia gasto explicando o documentário e o Instituto Lula é um dia a menos para cobrar o adversário. Numa disputa apertada, o governo passa a responder justamente quando precisa avançar.
O eleitor que ainda compara os dois candidatos recebe uma nova razão para desconfiar. É nessa faixa que uma eleição de margem estreita pode mudar de rumo.
Sem a mesma força para atacar o filme de Bolsonaro, com o discurso da retidão atingido e o calendário encurtado, é difícil ver de onde a campanha de Lula tiraria fôlego para reagir.
Os R$ 30 milhões mencionados no relato podem não ter mudado ainda nenhum número. Mas mudaram o terreno da disputa. E, nele, o governo precisa explicar os novos fatos e o retorno dos velhos nomes.
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A arquitetura dos fatos
