O trabalho mudou, e o voto da classe C acompanhou a mudança

 

A mudança de voto nem sempre começa no palanque. Muitas vezes começa no trabalho, na conta do mês e na maneira de ganhar a vida.

 

A virada de 4 de outubro tem essa marca. Foi tomando forma ao longo de dezesseis anos e tem endereço certo: a classe C.

 

É a faixa de dois a cinco salários mínimos considerada nesta análise. Nem pobre, nem rica. É o Brasil médio, que acorda cedo e trabalha.

 

Em 2010, essa faixa estava com o PT. Era a “nova classe média”, cerca de 30 milhões de pessoas que haviam subido de degrau desde 2003. Dilma tinha ali entre 43% e 45% das intenções de voto no primeiro turno.

 

Em 2014 veio o primeiro aviso. Às vésperas do segundo turno, o Datafolha mostrava Aécio à frente de Dilma nesse grupo, por 46% a 43%. Uma fresta.

 

Em 2022, a fresta virou porta. Bolsonaro vencia Lula na classe C por 52% a 43%, mesmo perdendo a eleição.

 

Em 2026, a porta virou portão. O levantamento do Canal Meio, feito urna por urna em 86 mil locais de votação, aponta Flávio com 53%, contra 37% de Lula na classe C. Foi ali sua maior vantagem.

 

Três pontos, nove pontos, dezesseis pontos. Os números sugerem uma mudança que vem de longe.

 

Em votos, a conta é aproximada, mas dá a medida. Considerando a classe C como cerca de um terço do eleitorado, três pontos em 2014 valiam perto de 1,2 milhão de votos. Nove pontos em 2022, perto de 3,9 milhões.

 

Em 2026, dezesseis pontos representariam cerca de 6,5 milhões: algo como 21,5 milhões de votos para Flávio, contra 15 milhões para Lula.

 

A diferença nacional no primeiro turno foi de 2,2 milhões. Por essa estimativa, só a classe C deu a Flávio quase três vezes isso. Na soma das demais faixas, Lula teria ficado à frente por cerca de 4,3 milhões.

 

O que mudou nesse eleitor? Mudou o trabalho.

 

Em 2010, o país tinha 776 mil microempreendedores individuais. Em 2014, eram 4,6 milhões. Em 2018, 7,7 milhões. Em 2022, 14,8 milhões. Hoje são 17 milhões, número equivalente a perto de 11% do eleitorado.

 

A curva do MEI sobe enquanto a classe C se afasta do PT.

 

E não é gente vinda apenas da informalidade. Segundo o Sebrae, seis em cada dez novos MEIs saíram de um emprego com carteira assinada. Em 2013, eram quatro em dez.

 

É como o passageiro que desce do ônibus e compra a própria moto. No ônibus, reclamava do motorista. Na moto, passa a reclamar do preço da gasolina, do buraco na pista e do pedágio.

 

Quem vivia de salário olhava o governo como protetor. Quem vive do próprio negócio passa a cobrar como contribuinte. Paga a guia todo mês e confere o que recebe de volta. Quando o retorno não aparece, vê o governo como sócio que não trabalha.

 

O Instituto Locomotiva estima que quase metade dos trabalhadores da classe C atua por conta própria. A renda familiar média do MEI, segundo o Sebrae, fica pouco acima de quatro salários mínimos. A escolaridade predominante é o ensino médio. É um retrato próximo da faixa que mudou de lado.

 

Nos últimos quatro anos, o governo falou com esse eleitor na língua errada. Taxou a blusinha importada que a sacoleira revende. Tentou levar para a CLT o motorista de aplicativo que não a queria. Corrigiu o rumo em setembro. Era tarde. O anacronismo do PT faz Lula confundir interesse de riqueza com solução de redução  da fome.

 

O resultado aparece no mapa. Setecentos e catorze municípios que deram vitória a Lula em 2022 passaram para Flávio. Nenhum fez o caminho inverso.

 

Vale a ressalva honesta: os levantamentos citados não medem o voto do MEI isoladamente. O que se observa são dois movimentos: o crescimento do trabalho por conta própria e a mudança de voto da classe C. Essa relação merece atenção, embora não prove, sozinha, a causa do voto.

 

A leitura é que houve mais do que protesto. Houve o voto de quem mudou de condição: deixou o emprego e passou a cuidar do próprio negócio.

 

O segundo turno dirá se o movimento se completa. Mas quem quiser entender o Brasil que saiu das urnas deve olhar menos para os palanques e mais para o CNPJ do vizinho.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos