A provável vitória de Flávio e o caminho de volta de Jair Bolsonaro
Há votos que carregam mais de um pedido. Escolhem quem vai governar e dizem o que esperam do eleito. Para parte do eleitorado conservador, o voto em Flávio Bolsonaro tem esse endereço duplo: eleger o filho e resgatar o pai.
O primeiro turno deixou um recado claro. Flávio saiu na frente, com cerca de 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula.
Para esse eleitor, Jair Bolsonaro é o homem que devolveu a honra ao país. Foi quem reacendeu o sentimento dos brasileiros para interromper um caminho e redirecionar o Brasil para o desenvolvimento.
Condenado pelo Supremo a 27 anos e três meses, ele cumpre uma pena que seus apoiadores consideram injusta. Para eles, a urna de domingo funcionou como um recurso popular contra a sentença.
Flávio nunca escondeu o propósito. Disse, ainda na pré-campanha, que derrotar Lula seria o caminho para salvar o Brasil e seu pai.
Por isso, não será surpresa se a reabilitação de Jair Bolsonaro estiver entre as prioridades de um eventual governo. Quem recebe um mandato com esse pedido dificilmente o guarda na gaveta.
Os caminhos são três. Mas cada um tem seus limites.
O primeiro é o indulto. É uma atribuição do presidente e pode ser tentado logo no início do mandato. Sua validade, porém, pode ser questionada. O Supremo já anulou, em 2023, o perdão concedido a Daniel Silveira. Além disso, extinguir a pena não significa devolver o direito de ser candidato.
O segundo é a anistia. Depende de lei aprovada pelo Congresso. Com Flávio no Planalto, seus defensores teriam o apoio do Executivo. O alcance dependeria do texto aprovado e de sua validade constitucional. Não se pode afirmar que ela eliminaria, por si só, todos os impedimentos eleitorais de Bolsonaro.
O terceiro é a revisão pela própria Justiça. É o caminho esperado por quem considera a condenação viciada. Mas depende de fundamentos jurídicos e de uma decisão favorável do tribunal.
Nesse cenário, o Senado tem peso político. Aprova os nomes indicados ao Supremo e julga ministros por crimes de responsabilidade. Não pode, porém, rever uma condenação criminal.
A distinção é simples. Sair da prisão, afastar os efeitos de uma condenação e recuperar o direito de disputar eleições são resultados diferentes. Uma medida não garante todos eles.
Nada disso será fácil. Um governo que começa em confronto com a Corte gasta, logo na largada, a energia que a economia cobra.
Mas a pressão política será forte. Parte do campo conservador não votou apenas em um programa. Votou em uma reparação.
Se a vitória se confirmar em 25 de outubro, Flávio encontrará a cobrança de transformar a promessa em ação. Seus apoiadores esperarão o resgate do líder cuja condenação nunca aceitaram.
Resta saber se esse resgate virá pela caneta, pela lei ou pela toga. A ordem dos fatores, neste caso, altera o produto.
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