Quando o vazio da explicação vira espaço de poder

 

Ao leitor: esta reflexão trata da fé e da política, e de como a falta de explicação pode abrir caminho para o domínio sobre as pessoas.

 

Há quem atravesse boa parte da vida como agnóstico e, já na maturidade, perceba que algo superior, ainda sem explicação, conduz o processo inteiro: do universo aos minerais, das plantas aos animais. Não por medo nem por tradição, mas por observação.

 

Os cristais se organizam por leis exatas. As células vivas seguem instruções escritas em código. Tudo parece obedecer a uma ordem que nenhuma mão humana desenhou.

 

O curioso é que essa percepção demorou séculos para poder ser discutida com liberdade. Uma das razões desse atraso tem nome: intermediação.

 

No passado, o desconhecido era imenso. O raio, a peste, a seca e a morte de uma criança não tinham explicação.

 

Nesse vazio, pessoas inteligentes e espertas perceberam uma oportunidade: atribuir a uma entidade superior tudo o que o leigo não entendia e apresentar-se como seus únicos intérpretes.

 

Misturou-se, assim, a busca de explicações para a natureza com a espiritualidade. Dessa mistura nasceram instituições religiosas que, como tantos empreendimentos humanos, passaram a se preocupar mais com adeptos, arrecadação e comando do que com o espírito.

 

A história oferece um contraste claro. Jesus Cristo enfrentou o poder de seu tempo sem exército e sem tesouro, armado apenas de bondade, humildade e solidariedade. Foi crucificado pelo Império Romano.

 

Cerca de três séculos e meio depois, o mesmo Império adotou o cristianismo como religião oficial.

 

Na Idade Média, a Igreja já excomungava e coroava reis. Em Canossa, um soberano germânico chegou a esperar três dias pelo perdão do papa. A mensagem do perseguido tornara-se instrumento do perseguidor.

 

Esse processo dificultou o encontro de muitas pessoas com o sagrado. Quem duvidava da instituição era levado a duvidar de Deus, porque a instituição se apresentava como dona dele.

 

Seria injusto, porém, contar só metade da história.

 

Os mosteiros copiaram e preservaram textos antigos durante a Idade Média. A Igreja também teve papel importante na formação das universidades.

 

Um cônego, Copérnico, tirou a Terra do centro do universo. Um monge, Mendel, descobriu as leis da hereditariedade cultivando ervilhas. Um padre, Lemaître, propôs uma explicação para a origem do universo que ajudou a formar a teoria do Big Bang.

 

Mas a mesma instituição que abrigou esses homens condenou Galileu por defender o movimento da Terra.

 

A contradição revela o problema: a ciência encontrou abrigo nas igrejas, mas também enfrentou resistência quando suas descobertas ameaçaram a autoridade da instituição.

 

Na política, outro vazio abre espaço para o poder. Não o da explicação da natureza, mas o da urgência humana: fome, moradia, emprego e segurança.

 

Quem tem carências concretas tem pressa. E a pressa abre espaço para quem promete solução fácil.

 

Toda competência precisa de uma lógica que a explique. O engenheiro responde pela estrutura que calcula. O médico, pelo diagnóstico que dá.

 

Quando a autoridade dispensa essa lógica e passa a se sustentar apenas na fé de quem a segue, deixa de ser competência e vira domínio.

 

Foi nesse espaço que surgiram, em graus e contextos muito diferentes, figuras como os Bórgia, que transformaram o papado em negócio de família; Hitler e Stálin, responsáveis por milhões de mortos; Fidel Castro e Hugo Chávez, que prometeram redenção e deixaram um legado de escassez e prisões políticas.

 

No Brasil, minha crítica a Lula aponta um mecanismo parecido, ainda que dentro da democracia: a promessa de atender à urgência de hoje com um endividamento que empobrece o amanhã.

 

A aproximação está no método: ocupar o lugar da explicação com a devoção.

 

A ciência, ao ampliar a compreensão da natureza, não precisa afastar o homem do sagrado. Pode ajudá-lo a encontrá-lo sem depender de intermediários.

 

No dia em que o eleitor exigir do político a mesma lógica que exige de um engenheiro, a política também se libertará dos seus feiticeiros.

 

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