Pressionado pelo esgotamento de suas reservas estratégicas, o pragmatismo americano avança sobre o Sul e o Norte. Resta saber como o Brasil vai proteger sua maior riqueza em um mundo dominado pela lei do vencedor.
Ao vencedor, o espólio, afirma Trump. O desenvolvimento científico e econômico transformou quase tudo no planeta. Só não mudou a regra das conquistas bárbaras, que domina o mundo desde que o mundo é mundo.
Na Assembleia Geral da ONU, Donald Trump dispensou os eufemismos. Descreveu a operação de janeiro em Caracas como uma guerra e comparou a apropriação do petróleo venezuelano à velha máxima: ao vencedor pertencem os despojos. A frase desmonta o discurso de janeiro. Na época, a captura de Nicolás Maduro foi apresentada como ação policial contra o narcotráfico.
Oito meses depois, o troféu exibido na tribuna não foi um chefe de cartel, e sim um acordo que entrega a Washington o controle de cerca de 65 bilhões de barris de reservas venezuelanas. Somadas às americanas, disse Trump, em claro e bom inglês, passam de 60% do petróleo do mundo. O tráfico era o pretexto. O subsolo era o motivo.
A mesma lógica ilumina o Oriente Médio. A guerra com o Irã completa seis meses, o bloqueio de Ormuz interrompeu um quinto do suprimento mundial e as reservas de emergência americanas desceram ao nível mais baixo desde o início dos anos 1980. Quem perde uma torneira corre para abrir outra.
No Norte, a Groenlândia. O acordo assinado com a Dinamarca dá aos Estados Unidos controle permanente sobre a segurança e “todas as demais necessidades” da ilha, com novas bases militares. Copenhague insiste que a soberania continua dinamarquesa. Mas quem controla a segurança e as rotas do Ártico controla, na prática, o acesso aos recursos que o degelo vai expondo.
Venezuela ao sul, Groenlândia ao norte, o Canadá pressionado entre tarifas e a ameaça de virar o “51º estado”. O mapa do hemisfério desenhado por Trump tem cada vez menos espaços em branco. Resta perguntar onde fica o Brasil nesse mapa.
Trump não citou o país na ONU. Mas o silêncio não é garantia. O pré-sal está entre as maiores descobertas de petróleo deste século, e Trump foi explícito: os Estados Unidos usarão seu poderio militar para garantir seus interesses vitais em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental.
O Brasil não é a Venezuela. Tem instituições, peso diplomático e parceiros que Caracas perdeu. Mas a lição da semana é outra: quando a potência dominante declara abertamente que o vencedor leva o espólio, a proteção de um país deixa de ser o direito internacional e passa a ser a sua própria capacidade de não parecer vencível.
A ciência mudou o mundo. O apetite, não. Quando o multilateralismo é escanteado pelo pragmatismo bruto das superpotências, o poder de dissuasão real e a estabilidade institucional tornam-se as únicas barreiras verdadeiras de uma nação. Para o Brasil, o Pré-sal é Margem Equatorial continuam sendo nossa maior riqueza, mas, sob as novas regras do jogo global, consolida-se definitivamente como o nosso maior ponto de atenção estratégica.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
