Saquear R$ 41 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos já configuraria o maior assalto bancário da era digital. Ainda assim, talvez não seja o maior crime de Daniel Vorcaro.
Dinheiro, por mais que se perca, se mede, se recompõe e se cobra. Confiança institucional, não. Uma vez rompida, não há fundo garantidor que a reponha. Só o longo tempo e sucessivos exemplos serão capazes de superar.
O BRB foi o corolário dessa sanha. Segundo a Polícia Federal e elevou o golpe para estratosféricos R$ 53,2 bilhões. O Master fabricou carteiras de crédito sem lastro e as vendeu ao banco estatal, numa fraude estimada em R$ 12,2 bilhões, por meio de uma empresa de fachada criada pelo próprio banqueiro. Vorcaro compreendeu o que a experiência brasileira já ensinou a tantos espertos: o tesouro público é indefeso, não fala nem tem iniciativa própria. Não entende nem reage às espertezas de seus operadores e interlocutores. Os esperto já descobriu que basta domar a boca que o cavalo obedecerá.
Bem refletido, onde um banco privado, sob fiscalização severa, aceitaria o negócio, que o estatal aceitou? Operadores privados jamais carregarão a cultura que a gestão pública exige. E nos erros quem paga, como sempre pelos prejuízos, espertamente pulverizado, é o contribuinte, que não sente, nunca foi consultado e raramente é lembrado.
Há ainda a teia política.
A PF registra que Vorcaro, ao ser perguntado sobre quem no governo apoiava a venda do Master ao BRB, citou Rui Costa, Jaques Wagner e Alexandre Silveira. As relações que sustentaram o banco, sobretudo no crédito condomínio/consignado, nasceram na Bahia. Wagner ousa negar qualquer vínculo, e a denúncia ainda passará pelo crivo de um próprio Supremo flechado. Mas a coincidência entre decisões de governo e enriquecimento do banqueiro exige explicações que até agora não vieram.
Nada disso, contudo, se compara ao avanço sobre o Supremo Tribunal Federal. A Corte é sustentáculo da justiça e da democracia; é ela quem diz, em última instância, o que é lícito.
O escritório da esposa de um ministro firmou com o Master contrato de cerca de R$ 131 milhões em três anos, e o plenário passou a examinar mensagens trocadas entre o ministro e o banqueiro. A banca sustenta que prestou consultoria legítima, sem atuar no Supremo. Se, porém, ficar comprovado que a Corte foi alcançada, como parece, o dano será de outra natureza: a dúvida sobre a isenção de quem julga contamina o juízo e compromete cada decisão futura. Isso sim é imperdoável, é extremo.
Um banqueiro que corrompe o árbitro não rouba apenas dinheiro; rouba a certeza de que existe árbitro.
Por isso, o caso pede condenação exemplar, sem acordos cômodos nem delação que se converta em anistia disfarçada. O rigor da lei precisa ser utilizado. Se a lei permitisse, até prisão perpétua e, por hipérbole, até algo pior, como exemplar em praça pública. Por maior que seja a punição, ela nunca representaria o custo desse ousado delito contra a justiça do Brasil. Seus parceiros e cúmplices o defenderão, e muitos atravessarão a história ricos e impunes, retratos da parte podre da sociedade, que nunca deixará de existir.
O que a nação precisa é impedir que essa parte dite as regras. Cabe às instituições, a quem escreve e a quem vota, interromper esse padrão de comportamento antes que ele se eternize. O futuro de um país se mede pelo que ele tolera. O Brasil já tolerou demais.
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