A greve nacional por tempo indeterminado dos Correios, iniciada pelos sindicatos ligados à FINDECT, coloca em evidência um velho problema brasileiro.

 

De um lado, está a situação financeira crítica da empresa. Do outro, a pressão sindical para manter vantagens que a estatal já não consegue pagar com seus próprios recursos.

 

A paralisação acontece no pior momento possível.

 

Os Correios acumulam 16 trimestres seguidos de prejuízo. Somente no primeiro semestre de 2026, segundo o balanço divulgado pela própria empresa, o rombo chegou a R$ 5,6 bilhões.

 

Para colocar em prática seu plano de recuperação, a estatal recorreu a um empréstimo de R$ 12 bilhões no fim de 2025. Agora, tenta obter o aval do Tesouro Nacional para tomar mais R$ 7 bilhões junto a um grupo de bancos privados e estrangeiros.

 

Ao mesmo tempo, medidas necessárias, como o fechamento de mais de mil agências deficitárias e a criação de novos Planos de Demissão Voluntária, enfrentam forte resistência política e sindical.

 

A empresa precisa reduzir despesas. Mas quase todas as tentativas encontram uma barreira.

 

A greve, portanto, ultrapassa a legítima discussão trabalhista.

 

Ela expõe uma fratura antiga do debate econômico brasileiro: a separação entre aumento de renda e crescimento da produtividade.

 

Em qualquer empresa saudável, pública ou privada, a valorização dos trabalhadores depende da eficiência, da inovação e da capacidade de pagar seus compromissos.

 

Nos Correios, porém, parece prevalecer a ideia de que reajustes e benefícios podem existir mesmo quando o negócio acumula bilhões em prejuízos.

 

Essa conta não fecha.

 

A empresa depende de empréstimos e do aval do governo para continuar funcionando. Mesmo assim, a resposta sindical é interromper os serviços.

 

A paralisação pune o cidadão. Prejudica também o pequeno comerciante e o empreendedor que dependem das entregas para sobreviver.

 

O problema se torna ainda mais grave com a proximidade das eleições.

 

Sindicatos historicamente ligados aos governos de esquerda sabem que uma greve nacional provoca desgaste político. Apostam que o governo poderá ceder por medo de perder votos.

 

A gestão técnica é, então, substituída pela pressão eleitoral.

 

O Palácio do Planalto deixa de ser o responsável por exigir uma administração eficiente. Passa a ser visto como o garantidor de última hora, pronto para transferir ao contribuinte o custo da baixa produtividade.

 

Esse mecanismo ajuda a explicar o fracasso de uma visão econômica que confunde distribuição de renda com criação de riqueza.

 

O Estado não produz dinheiro. Ele retira recursos da sociedade por meio dos impostos.

 

Quando o Tesouro sustenta uma empresa ineficiente, a conta acaba chegando ao cidadão. Muitas vezes, é justamente a população mais pobre que paga para manter benefícios de grupos organizados e protegidos.

 

A recusa em relacionar renda com produtividade também condena a estatal à perda de espaço.

 

Enquanto os Correios acumulam dificuldades, empresas privadas ampliam suas operações, investem em tecnologia e ocupam o mercado de entregas.

 

A experiência internacional ajuda a entender o problema.

 

A Alemanha abriu o capital da Deutsche Post, depois transformada no grupo DHL. O Reino Unido privatizou o Royal Mail. Nos dois casos, o serviço postal foi afastado da dependência direta e contínua do orçamento público.

 

Os Estados Unidos mantiveram o USPS estatal. Porém, a empresa deve sustentar suas atividades principalmente com a venda de selos e serviços. Isso não impediu prejuízos, mas criou maior cobrança por disciplina financeira.

 

Os Correios brasileiros ficaram no pior dos mundos.

 

Não possuem a eficiência exigida da iniciativa privada nem a disciplina de um verdadeiro sistema de autofinanciamento.

 

A greve atual pode acelerar a perda de apoio da empresa perante a população.

 

As lideranças sindicais parecem acreditar que a proximidade das eleições aumentará seu poder de pressão. Talvez aconteça o contrário.

 

Uma greve que prejudica milhões de brasileiros, no momento em que a empresa pede novos bilhões, pode se transformar em argumento eleitoral contra o próprio governo que protege esse modelo.

 

Se houver mudança de poder, o novo governo encontrará uma empresa endividada, enfraquecida e com sua imagem ainda mais desgastada.

 

Nesse cenário, a privatização deixará de ser apenas uma escolha ideológica.

 

Poderá surgir como a única saída capaz de interromper a sangria dos cofres públicos, modernizar os serviços e garantir a eficiência logística que o Brasil exige.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos