Pequeno, frágil, sorridente e aparentemente inofensivo.
É difícil imaginar que fosse dessa figura discreta que o Brasil ouviria, em meio à mais profunda crise já vivida pelo Supremo Tribunal Federal, a lembrança de que nem tudo está perdido.
Do fundo de um poço escuro e enlameado, emergem a humildade, a coragem e o senso de dever de André Mendonça.
É dele que hoje depende, em boa medida, a chance de o Supremo se salvar de si mesmo — e de o Brasil se livrar do apetite de um grupo determinado a proteger, a qualquer custo, uma engrenagem que soube transformar a toga em cortina para espetáculos de voracidade patrimonial.
Os registros já não deixam dúvida de que a crise é real. Mendonça, relator do caso Banco Master e das fraudes do INSS, requisitou à Polícia Federal o mapeamento de referências a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, nas mensagens apreendidas de Daniel Vorcaro. Também retirou o sigilo dos autos que sustentam essas suspeitas.
A resposta não tardou.
A própria PF, comandada por Rodrigues, produziu um relatório paralelo de 50 páginas sobre a atuação de Mendonça e o enviou a Moraes. Rodrigues, por sua vez, avalia processar Mendonça por danos morais. Queixa-se de que seu nome foi jogado “na lama”.
O ministro da Justiça, teoricamente seu superior, mantém-se em silêncio.
O presidente do STF, Edson Fachin, viu-se obrigado a cobrar explicações formais de Moraes, Mendonça, Gonet e do próprio diretor-geral da PF.
Foi nesse tabuleiro que Mendonça, em sessão pública, admitiu temer pela própria integridade física ao assumir a relatoria de processos que atingem interesses bilionários.
“O polo mais frágil sou eu”, disse, referindo-se à possibilidade de que bastasse um atentado contra o relator para sepultar a investigação.
Não é retórica vazia.
A Polícia Federal já havia identificado, nas apurações sobre Vorcaro, uma estrutura de ameaças e coação contra desafetos, ex-funcionários e jornalistas. É um indício de que o risco anunciado não nasce da imaginação, mas de práticas documentadas.
Que se preserve, portanto, a vida de quem hoje ousa lançar luz sobre esse arranjo.
Que Deus proteja Mendonça das tragédias físicas que ele próprio apontou como o único caminho capaz de interromper sua determinação de enfrentar, tendo a lei como única arma, delinquentes togados e seus fiadores institucionais, ainda que estes se abriguem sob a farda ou sob a toga.
Da escuridão dessa crise, resta ao menos uma certeza: enquanto houver quem recuse o silêncio, o Brasil ainda terá para onde gritar e olhar.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
