O que os números estaduais revelam — e escondem

 

Uma média de pesquisas só é útil quando há pesquisas suficientes para fazer média. Em Alagoas, esse pressuposto básico já tropeça na largada.

 

Para presidente, existem apenas dois levantamentos recentes com recorte estadual: a Quaest, de 20 a 23 de agosto, e a Real Time Big Data, de 29 e 30 de junho.

 

Para governador, são três: as mesmas Quaest e Real Time, mais a Paraná Pesquisas, também do fim de junho.

 

É pouco. E a distância no tempo entre elas muda tudo.

 

O método aqui é o mesmo já usado nesta coluna para a disputa nacional: cada pesquisa recebe um peso que cresce com o tamanho da amostra e diminui com a distância no tempo, numa curva que reduz pela metade a força do dado a cada 14 dias.

 

Uma pesquisa com dois meses de idade, portanto, pesa muito pouco diante de outra feita na semana anterior.

 

É exatamente o que acontece aqui.

 

PRESIDENTE

 

A Quaest deu a Lula 44% contra 29% de Flávio Bolsonaro.

 

A Real Time, dois meses antes, havia marcado 51% a 30%.

 

A média ponderada resultante — Lula 44,9% x Flávio Bolsonaro 29,1% — fica praticamente colada na Quaest, porque a pesquisa de junho, enfraquecida pelo tempo, quase não pesa mais.

 

Não é uma média equilibrada entre duas fontes. É, na prática, a pesquisa mais nova acompanhada de uma pequena correção estatística produzida pela mais antiga.

 

GOVERNADOR

 

Aqui a disputa é mais apertada e mais reveladora.

 

A Quaest apontou empate técnico entre Renan Filho e JHC: 42% a 40%.

 

A Paraná Pesquisas, quase dois meses antes, havia dado a liderança a JHC: 45,9% a 41%.

 

A Real Time, no mesmo período da Paraná, marcou outro empate: 46% a 46%.

 

A média ponderada — Renan Filho 42,3% x JHC 41,2% — mantém o empate técnico.

 

Mas o dado mais interessante não está no número final. Está na divergência entre institutos que fizeram campo praticamente no mesmo período e chegaram a resultados diferentes.

 

Essa divergência pode refletir o chamado house effect: diferenças sistemáticas entre institutos provocadas pela metodologia, pela forma de abordagem, pelo desenho da amostra e por outras escolhas feitas em cada pesquisa.

 

Em nível nacional, com vários institutos publicando pesquisas com frequência, essas diferenças tendem a se compensar melhor na média.

 

Em Alagoas, com poucas pesquisas e longos intervalos entre elas, isso quase não acontece.

 

A lição não é descartar a pesquisa estadual.

 

É usá-la com a régua certa.

 

Uma média ponderada por recência e tamanho da amostra continua sendo um instrumento útil. Mas seu valor depende também da quantidade e da diversidade das pesquisas que alimentam o cálculo.

 

Com apenas duas ou três pesquisas, separadas por várias semanas, o polling average perde boa parte de sua principal virtude: fazer diferentes levantamentos se corrigirem mutuamente.

 

Na prática, a pesquisa mais recente passa a dominar o resultado.

 

Isso não invalida os números de Alagoas.

 

Na fotografia mais recente, Lula mantém vantagem folgada sobre Flávio Bolsonaro na disputa presidencial no estado.

 

Para o governo, Renan Filho e JHC continuam numa corrida muito apertada, com pequenas mudanças na liderança numérica conforme o instituto e a data da pesquisa.

 

O que muda, em relação ao cenário nacional, é o grau de confiança que podemos depositar no número final.

 

Menos pesquisas significam menos capacidade de corrigir o erro de uma pela informação das outras.

 

E essa talvez seja a informação mais importante que o Polling Average de Alagoas revela — justamente ao mostrar aquilo que seus números ainda não conseguem esconder.

 

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