Pesquisa eleitoral não é fotografia única. É uma sequência de retratos tirados por câmeras diferentes, em ângulos diferentes, quase sempre no mesmo cenário. Confundir um retrato isolado com a cena inteira é o erro mais comum de quem acompanha a corrida presidencial de 2026.

 

Agosto trouxe pelo menos cinco desses retratos. Gerp, Indexa/Broadcast, Datafolha, BTG/Nexus e Quaest saíram a campo em semanas próximas, todos testando o mesmo confronto: o presidente Lula contra o senador Flávio Bolsonaro. Isoladamente, cada um sugere uma narrativa. Juntos, exigem outro tipo de leitura.

 

A tentação mais comum é comparar diretamente o resultado de dois institutos e declarar quem “cresceu” ou “caiu”. É um raciocínio falho. Institutos diferentes usam amostras, ponderações e metodologias de campo distintas. Uma variação de três pontos entre Gerp e Datafolha pode não significar nada além da própria diferença de metodologia.

 

Existe um caminho mais sólido: tratar o conjunto de pesquisas como uma amostra de amostras. Em vez de escolher um instituto e seguir sua série histórica isolada, calcula-se a média das intenções de primeiro turno entre os cinco levantamentos — para Lula, para Flávio e para o bloco de “demais candidatos”, que reúne nomes menores, indecisos e votos brancos ou nulos.

 

O segundo passo é observar, nos próprios institutos que testaram também o cenário de segundo turno, como aquele bloco de “demais” se comportou na migração. Não se presume a divisão: mede-se. Em cada pesquisa, subtrai-se o percentual de primeiro turno do de segundo turno para cada candidato — o ganho revela quanto cada um efetivamente absorveu do resíduo. A média desses ganhos, entre os quatro institutos que testaram os dois cenários, aponta um padrão: perto de 64% do bloco disputável migra para Flávio, 36% para Lula.

 

O terceiro passo é aplicar esse padrão de transferência à média de primeiro turno, reconhecendo que nem todo o resíduo se distribui — parcela relevante permanece indecisa, em branco ou declarando voto em “nenhum dos dois” mesmo no cenário de segundo turno. Descontada essa parcela, o resultado da simulação aproxima Lula de 44% e Flávio de 43%.

 

Esse número de 64% tem lastro histórico, ou é coincidência de um mês? Vale checar todas as eleições brasileiras que foram a segundo turno desde a redemocratização: 1989, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Em seis dessas sete, quem chegou em segundo lugar no primeiro turno — não o líder — absorveu a maior parte do resíduo nacional, numa média de 59%. É um padrão recorrente demais para ser acaso, e ainda assim frágil demais para virar certeza.

 

Um desses sete casos foge tanto do padrão dos demais que vale deixá-lo de fora da conta. Em 2006, o presidente terminava o mandato tão bem avaliado que chegou a um passo de vencer já no primeiro turno, e o adversário, longe de herdar o que sobrava dos candidatos menores, ainda perdeu parte do próprio eleitorado para o lado do presidente. É um cenário raro — de reeleição quase resolvida cedo, com pouquíssimo resíduo em disputa — que não se repete em agosto de 2026: nem Lula nem Flávio chegam perto de vencer em primeiro turno, e o resíduo já soma 26,6 pontos, um dos maiores da série.

 

Aplicando a média das seis eleições restantes (59%) ao resíduo de agosto: Flávio soma 34,3 + 15,8 = 50,1%; Lula soma 39,0 + 10,8 = 49,8%. Um empate, com uma casa decimal de vantagem para Flávio — e um número muito próximo do que os próprios institutos já encontram quando perguntam diretamente pelo segundo turno: média de 44,5% para Lula contra 43,3% para Flávio. Dois caminhos independentes, construídos com dados de natureza diferente, desembocam na mesma vizinhança: uma margem de pouco mais de um ponto, ora para um lado, ora para outro.

 

Essa margem, mais do que qualquer rótulo de “empate técnico”, é o número que agosto entrega a novembro. Ela descreve um equilíbrio entre um campo já consolidado, o de Lula, e um campo ainda em vias de se consolidar, o de Flávio, dividido hoje com Renan Santos, Caiado e Zema. Se algum desses nomes sair de cena antes de outubro, a experiência das últimas sete eleições sugere a direção provável do próximo movimento — mais concentração, mais captura do resíduo —, embora nenhum número, por si só, garanta que a história vá se repetir.

 

O que agosto sugere a novembro, portanto, não é um vencedor: é uma margem estreita e a lógica que a sustenta. Novembro dirá se ela se confirma com Flávio = 50,1% e Lula = 48,8%.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos