Quando o crescimento de fachada compromete o crédito, o estoque e, adiante, os recursos finitos
O Brasil de 2026 acumula um padrão perigoso: crescimento que se sustenta menos na geração de valor real e mais na engenharia de curto prazo sobre redes de proteção que não foram desenhadas para isso. O primeiro sintoma é fiscal — o uso do Tesouro para turbinar consumo sem lastro de produtividade, empurrando para o futuro o custo de um presente artificialmente aquecido.
O segundo sintoma tem nome e valor: o colapso do Banco Master deixou ao Fundo Garantidor de Créditos um rombo de cerca de R$ 52 bilhões, o maior da história do fundo. É o exemplo mais nítido de super-criação empresarial: uma instituição que capta caro sob a garantia do FGC e cresce apoiada não no mercado, mas na soma de todos os recursos disponíveis na legislação regulatória. A conta, ao final, é paga pelos bancos associados — e, por tabela, pelo cliente do sistema financeiro.
O terceiro sintoma se desenrola em cadeia: Casas Bahia e Marabraz pediram recuperação judicial com um dia de diferença, somando R$ 17,4 bilhões em dívidas; o varejo fechou o semestre com quase mil empresas em RJ, alta de 20% sobre o ano anterior; o setor já reestruturou mais de R$ 68 bilhões em dívidas em dois anos e meio. Ao renegociar prazos com fornecedores dentro do processo, essas redes arrastam consigo o financiamento de estoque de indústrias menores, sem o mesmo acesso a crédito de longo prazo.
Os três casos confirmam a mesma hipótese: a acumulação de valor não está ligada à longevidade da instituição, mas à vantagem de levá-la a um alto valor de mercado — real ou contábil — no momento certo de negociar ou vender ativos, antes que a conta chegue a alguém. É um modelo de riqueza que se descola da solidez do negócio.
É aí que o alerta se torna mais grave para o setor energético. Diferentemente do crédito ou do estoque, os recursos que sustentam a cadeia energética são finitos por definição — não se recompõem com um aporte emergencial nem se resolvem transferindo o problema para o próximo balanço. Se o mesmo padrão de expansão apoiada em garantias, subsídios e otimismo contábil se replicar num setor que lida com reservas não renováveis, o preço do mal-assombro deixa de ser financeiro e passa a ser físico: extração acelerada além do que o planeta repõe, disfarçada de crescimento saudável, na mesma lógica de buscar riqueza infinita sobre uma base de recursos que não é.
O Brasil já viu esse filme no crédito de consumo, no sistema bancário e agora no varejo. A pergunta que fica é se o país aprenderá a tempo de não repeti-lo onde o erro não se corrige com um novo aporte — apenas com o esgotamento do próprio recurso.
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