A história econômica de Alagoas é a crônica de uma ancoragem persistente no fundo da cadeia de valor. Durante séculos, o ecossistema empresarial local operou sob a ilusão de que a acumulação de ativos tangíveis — terras, usinas, galpões, frotas, maquinário pesado — seria o motor definitivo da riqueza.
O século XXI expôs a fragilidade dessa premissa. A dinâmica é global e implacável, e tem nome: a Curva Sorriso (Smiling Curve).
Conceituado pelo pioneiro da tecnologia Stan Shih, o modelo demonstra algo simples e cruel: a manufatura pura, a montagem física, a extração básica de matéria-prima, ocupam o centro deprimido da cadeia produtiva. Ali, as margens são sufocantes e a concorrência é destrutiva.
A riqueza real migrou para os extremos intangíveis. De um lado, Pesquisa, Desenvolvimento, Patentes, Design. Do outro, Branding, Marketing de Desejo, Desintermediação, Controle de Canais.
Alagoas padece do que se pode chamar de Síndrome da Foxconn. A gigante asiática imobiliza bilhões de dólares em linhas de montagem para obter margens líquidas de 2% a 4% com o iPhone. As corporações alagoanas carregam peso semelhante: o risco operacional, climático e ambiental da base física — enquanto marcas globais capturam mais de 80% do valor econômico gerado.
O futuro econômico de Alagoas depende de uma ruptura filosófica e pragmática: abandonar o crescimento por volume e adotar o monopólio do valor intangível.
1. A Fragilidade da Commodity Sem Anseio Mercadológico
Operar no centro da Curva Sorriso significa submeter-se à tirania dos mercados de commodities. Quando açúcar bruto, cloro líquido, soda cáustica, tora de eucalipto ou arroba de boi são vendidos sem diferenciação, o produtor local perde qualquer poder de precificação.
Ele vira mero tomador de preços. Vulnerável às bolsas de Nova York, de Londres, à B3, a ciclos macroeconômicos que não controla.
A competição, nesse centro, é de uma facilidade brutal. Não há barreiras reais: se o diferencial é apenas especificação técnica — pureza molecular, densidade de biomassa, peso vivo —, qualquer concorrente com energia subsidiada ou terra mais barata desidrata o lucro do operador local da noite para o dia.
E não há freio na corrida para o fundo do poço. No centro deprimido, a única alavanca de lucro é a eficiência operacional obsessiva. Vence quem aceita a menor margem para sobreviver.
A raiz da fragilidade é o divórcio entre o produto e o anseio mercadológico. Commodities atendem necessidades funcionais — negociáveis, substituíveis, elásticas por definição. O lucro extraordinário mora no campo do desejo. Quando a indústria não envolve o insumo em escassez intelectual ou reputacional, ela entrega a própria margem de bandeja para quem controla a mente do consumidor final.
2. O Abismo Mental do Empreendedor: Tangível vs. Intangível
A migração para as pontas geradoras de valor esbarra num obstáculo que não é tecnológico, nem geográfico. É psicológico.
O empreendedor clássico sofre da ilusão de segurança do concreto. Autoriza aportes milionários numa destilaria, em colheitadeiras, num rebanho, num bloco de apartamentos, com tranquilidade. Se o mercado colapsar, raciocina, o patrimônio físico resta como salvaguarda — pode ser liquidado, dado em garantia.
Alocar o mesmo capital em branding, engenharia molecular, genética ou posicionamento de marca, ao contrário, gera vertigem. O ativo intangível parece volátil, invisível, indocumentável — balanços tradicionais foram calibrados para medir a depreciação de tijolos, e são analfabetos para mensurar o valor de uma marca.
O erro fatal dessa mentalidade ignora duas dinâmicas.
Primeiro, depreciação contra efeito de rede: ativos tangíveis perdem valor pelo uso e pela obsolescência. Ativos intangíveis — uma patente, uma marca icônica, uma linhagem genética proprietária — valorizam-se à medida que ganham adoção e desejo de mercado.
Segundo, linearidade contra escala não-linear: para dobrar o faturamento, uma empresa baseada no tangível precisa dobrar sua estrutura física — mais terra, mais máquina, mais cabeça de gado. O ativo intangível opera com custo marginal próximo de zero. Aplicar uma fórmula patenteada, uma marca de prestígio ou uma genética licenciada a uma unidade ou a dez mil custa exatamente o mesmo. O lucro explode de forma geométrica.
Fábricas, plantações, pastagens e hotéis físicos são centros de custo. Patentes, marcas, linhagens genéticas e ecossistemas proprietários são os únicos centros de lucro legítimos.
3. A Reconfiguração dos Vetores Econômicos de Alagoas
Para o mercado alagoano evoluir e preservar margem, seus cinco grandes vetores privados precisam deslizar para as extremidades da curva — emulando gigantes como Apple e Nike.
Cada vetor, além do deslizamento interno, tem elos fora de si — atividades antecessoras (a montante, na origem do insumo) e subsequentes (a jusante, no destino final) — capazes de sustentar margem de extremidade sem depender só da transformação do próprio produto.
Vetor I — Turismo e Hospitalidade: do Concreto ao Desejo Direto
O turismo alagoano tem dotações naturais extraordinárias. Ainda assim, o mercado insiste em se posicionar no fundo da curva, vendendo diária de quarto como se vendesse grão ou minério.
O hoteleiro tradicional investe no ativo tangível da construção e entrega a gestão do cliente a agências e plataformas globais de reserva. Essas OTAs confiscam até 30% da receita em comissão — empurrando o setor para leilões de desconto tarifário.
O deslizamento necessário é romper com o modelo de “vender camas”. Migrar para o lado direito através do marketing de criação de valor e da desintermediação digital. O capital deve consolidar marcas de destino proprietárias, conceitos de hotelaria regenerativa e de isolamento de alto padrão.
Quando o marketing transforma a viagem em símbolo de status e transformação pessoal, o consumidor fica insensível ao preço. Aceita tarifa premium direto no canal da propriedade. A margem deixa de ser corroída pelo intermediário — e se fixa em patamar imune à volatilidade do turismo de massa.
Antecessoras e subsequentes. A montante, formação de mão de obra em hospitalidade de grife e curadoria de experiência local são o insumo intangível que falta ao setor. A jusante, marca de destino se estende para gastronomia autoral vendida fora do hotel, produtos de bem-estar assinados e programas de fidelidade que capturam o cliente para viagens futuras — extraindo receita depois que o hóspede já foi embora.
Vetor II — Agroindústria Sucroalcooleira: da Commodity à Bioeconomia de Especialidade
O complexo açucareiro alagoano permanece refém do volume físico de moagem. O lucro por hectare é achatado pela escalada do preço dos fertilizantes e pela variação cambial da commodity agrícola.
O deslizamento é duplo. No lado esquerdo, biotecnologia: sair da aquisição mecânica de terra e migrar para patentes — bioplásticos, leveduras customizadas para nutrição animal, compostos avançados extraídos do bagaço e da vinhaça. No lado direito, marca de nicho: açúcar orgânico gourmet de origem controlada, destilado ultra-premium com narrativa de grife.
A usina deixa de ser esmagadora de cana e passa a deter propriedade intelectual e marca de luxo. Muda a lógica de precificação: de Cost-Plus (custo mais margem) para Value-Based (valor do anseio saciado).
Antecessoras e subsequentes. A montante, melhoramento genético de variedades de cana e biotecnologia de fermentação são o P&D que sustenta o lado esquerdo. A jusante, a leveduta de nutrição animal derivada do bagaço e da vinhaça deixa de ser subproduto marginal e vira insumo estratégico do Vetor V — a pecuária. É o primeiro elo direto entre dois vetores historicamente tratados como isolados.
Vetor III — Cadeia Química e Árvore do Cloro: da Matéria-Prima Intermediária ao Bem Final
O polo cloroquímico alagoano cumpre papel puramente intermediário. Extrai-se o sal-gema, processa-se cloro líquido e soda cáustica em estado bruto — ativo industrial pesado, de alto custo fixo e alto risco —, para enviar a outras federações, onde vira produto de consumo.
O deslizamento é duplo também aqui. No lado esquerdo, polímeros verdes e formulação química sob medida para indústrias de alta margem — farmacêutica, cosmética. No lado direito, marca própria de bem de consumo final: saneante avançado, solução de tratamento de água doméstico.
Ao controlar a formulação proprietária e a marca que fala direto com o consumidor final, a indústria blinda o fluxo de caixa contra a oscilação cíclica do mercado de nafta e derivados.
Antecessoras e subsequentes. A montante, licenciamento de processo e P&D em formulação molecular — muitas vezes em parceria com universidades — substituem a simples compra de tecnologia estrangeira. A jusante, a cadeia se estende para cosmético e farmacêutico de marca própria, setores que pagam múltiplos de margem sobre o mesmo insumo químico de base.
Vetor IV — Silvicultura do Eucalipto: da Madeira Passiva ao Design Assinado
O eucalipto alagoano opera de forma passiva: corte e queima como biomassa de baixo valor calórico para a Braskem e padarias, ou cavaco cru para celulose fora do estado.
O deslizamento é radical, para as duas pontas. No lado esquerdo, cálculo estrutural para Madeira Engenheirada (CLT — Cross-Laminated Timber), posicionando o insumo no coração da construção civil modular sustentável. No lado direito, parceria com estúdio de arquitetura e design autoral, transformando madeira local em coleção de mobiliário de luxo assinado.
A árvore deixa de ser liquidada por metro cúbico bruto. Passa a ser faturada por valor estético, conceitual, de design exclusivo. O faturamento por hectare se multiplica sem expansão física de terra — crescimento sustentável e altamente lucrativo.
Antecessoras e subsequentes.
A montante, melhoramento genético florestal e engenharia estrutural definem se a madeira alagoana chega ou não à especificação técnica do CLT. A jusante, o mobiliário assinado se conecta a redes nacionais de arquitetura e a projetos de construção modular certificada — mercados que remuneram o design, não o metro cúbico.
Vetor V — Pecuária: do Peso Vivo à Genética e à Grife
A pecuária alagoana é atividade centenária tão deprimida quanto as demais, mas raramente tratada com o mesmo rigor estratégico. Boi gordo e leite cru são vendidos por arroba e por litro, precificados pela B3 e pelo CEPEA, num ciclo longo de maturação, dependente de pastagem extensa e sujeito ao câmbio da exportação de carne.
A raiz do problema é a mesma dos outros vetores: pasto e cabeça de gado são ativo tangível, e ativo tangível deprecia e exige escala física para crescer. O boi de Alagoas compete, sem diferenciação, com o boi de qualquer outra pastagem do país.
O deslizamento, aqui também, é duplo. No lado esquerdo, genética: melhoramento genético bovino, sêmen e embrião de elite, pecuária de precisão com rastreabilidade individual do animal. No lado direito, marca: carne de origem certificada, selo de pecuária regenerativa e baixo carbono, laticínio artesanal maturado de grife regional, venda direta ao consumidor final.
O mecanismo de lucro inverte a lógica do peso vivo. Genética licenciada gera royalty recorrente por reprodutor, não uma venda única de boi gordo. Carne rastreada e certificada vende por múltiplo do preço da arroba comum, porque carrega narrativa — origem, manejo, sustentabilidade — que o consumidor premium paga para consumir.
Antecessoras e subsequentes. A montante, a nutrição animal de precisão — usando levedura e composto derivado do bagaço e da vinhaça do Vetor II — reduz custo e agrega rastreabilidade ao mesmo tempo. A jusante, açougue e laticínio de marca própria, e franquia de churrascaria assinada, capturam a margem que hoje fica com o frigorífico e o distribuidor. A pecuária alagoana, mais que qualquer outro vetor, mostra como a curva de um setor pode se apoiar no lado direito de outro.
A Elasticidade Invertida como Escudo do Futuro
O futuro econômico de Alagoas não será pavimentado por incentivo ou concessão. Será pavimentado pela maturidade estratégica de seus empreendedores em entender a psicologia do consumidor premium e a matemática do ativo intangível.
O livre mercado pune com insolvência e estagnação quem insiste em competir na base da Curva Sorriso.
Quando marca, patente ou genética convencem o mercado de que sua solução é única, escassa, portadora de significado que transcende a matéria física, ocorre a elasticidade-preço invertida. O consumidor abdica da racionalidade do menor preço. Paga o ágio que a corporação exige, porque deseja o intangível.
Para Alagoas enriquecer, suas lideranças de mercado precisam parar de extrair e passar a criar. Parar de construir e passar a desenhar. Parar de estocar e passar a impressionar.
Ao transferir capital dos tijolos, do pasto e da tora para as mentes, o mercado alagoano abandona o fundo melancólico do sorriso. E sobe para colher as margens generosas, estáveis e infinitas que habitam o topo do mundo econômico moderno.
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Newsletter Rui Guerra — A arquitetura dos fatos Curva Sorriso e o Futuro Econômico de Alagoas
A Síndrome da Foxconn e o Esgotamento do Volume
A história econômica de Alagoas é a crônica de uma ancoragem persistente no fundo da cadeia de valor. Durante séculos, o ecossistema empresarial local operou sob a ilusão de que a acumulação de ativos tangíveis — terras, usinas, galpões, frotas, maquinário pesado — seria o motor definitivo da riqueza.
O século XXI expôs a fragilidade dessa premissa. A dinâmica é global e implacável, e tem nome: a Curva Sorriso (Smiling Curve).
Conceituado pelo pioneiro da tecnologia Stan Shih, o modelo demonstra algo simples e cruel: a manufatura pura, a montagem física, a extração básica de matéria-prima, ocupam o centro deprimido da cadeia produtiva. Ali, as margens são sufocantes e a concorrência é destrutiva.
A riqueza real migrou para os extremos intangíveis. De um lado, Pesquisa, Desenvolvimento, Patentes, Design. Do outro, Branding, Marketing de Desejo, Desintermediação, Controle de Canais.
Alagoas padece do que se pode chamar de Síndrome da Foxconn. A gigante asiática imobiliza bilhões de dólares em linhas de montagem para obter margens líquidas de 2% a 4% com o iPhone. As corporações alagoanas carregam peso semelhante: o risco operacional, climático e ambiental da base física — enquanto marcas globais capturam mais de 80% do valor econômico gerado.
O futuro econômico de Alagoas depende de uma ruptura filosófica e pragmática: abandonar o crescimento por volume e adotar o monopólio do valor intangível.
1. A Fragilidade da Commodity Sem Anseio Mercadológico
Operar no centro da Curva Sorriso significa submeter-se à tirania dos mercados de commodities. Quando açúcar bruto, cloro líquido, soda cáustica, tora de eucalipto ou arroba de boi são vendidos sem diferenciação, o produtor local perde qualquer poder de precificação.
Ele vira mero tomador de preços. Vulnerável às bolsas de Nova York, de Londres, à B3, a ciclos macroeconômicos que não controla.
A competição, nesse centro, é de uma facilidade brutal. Não há barreiras reais: se o diferencial é apenas especificação técnica — pureza molecular, densidade de biomassa, peso vivo —, qualquer concorrente com energia subsidiada ou terra mais barata desidrata o lucro do operador local da noite para o dia.
E não há freio na corrida para o fundo do poço. No centro deprimido, a única alavanca de lucro é a eficiência operacional obsessiva. Vence quem aceita a menor margem para sobreviver.
A raiz da fragilidade é o divórcio entre o produto e o anseio mercadológico. Commodities atendem necessidades funcionais — negociáveis, substituíveis, elásticas por definição. O lucro extraordinário mora no campo do desejo. Quando a indústria não envolve o insumo em escassez intelectual ou reputacional, ela entrega a própria margem de bandeja para quem controla a mente do consumidor final.
2. O Abismo Mental do Empreendedor: Tangível vs. Intangível
A migração para as pontas geradoras de valor esbarra num obstáculo que não é tecnológico, nem geográfico. É psicológico.
O empreendedor clássico sofre da ilusão de segurança do concreto. Autoriza aportes milionários numa destilaria, em colheitadeiras, num rebanho, num bloco de apartamentos, com tranquilidade. Se o mercado colapsar, raciocina, o patrimônio físico resta como salvaguarda — pode ser liquidado, dado em garantia.
Alocar o mesmo capital em branding, engenharia molecular, genética ou posicionamento de marca, ao contrário, gera vertigem. O ativo intangível parece volátil, invisível, indocumentável — balanços tradicionais foram calibrados para medir a depreciação de tijolos, e são analfabetos para mensurar o valor de uma marca.
O erro fatal dessa mentalidade ignora duas dinâmicas.
Primeiro, depreciação contra efeito de rede: ativos tangíveis perdem valor pelo uso e pela obsolescência. Ativos intangíveis — uma patente, uma marca icônica, uma linhagem genética proprietária — valorizam-se à medida que ganham adoção e desejo de mercado.
Segundo, linearidade contra escala não-linear: para dobrar o faturamento, uma empresa baseada no tangível precisa dobrar sua estrutura física — mais terra, mais máquina, mais cabeça de gado. O ativo intangível opera com custo marginal próximo de zero. Aplicar uma fórmula patenteada, uma marca de prestígio ou uma genética licenciada a uma unidade ou a dez mil custa exatamente o mesmo. O lucro explode de forma geométrica.
Fábricas, plantações, pastagens e hotéis físicos são centros de custo. Patentes, marcas, linhagens genéticas e ecossistemas proprietários são os únicos centros de lucro legítimos.
3. A Reconfiguração dos Vetores Econômicos de Alagoas
Para o mercado alagoano evoluir e preservar margem, seus cinco grandes vetores privados precisam deslizar para as extremidades da curva — emulando gigantes como Apple e Nike.
Cada vetor, além do deslizamento interno, tem elos fora de si — atividades antecessoras (a montante, na origem do insumo) e subsequentes (a jusante, no destino final) — capazes de sustentar margem de extremidade sem depender só da transformação do próprio produto.
Vetor I — Turismo e Hospitalidade: do Concreto ao Desejo Direto
O turismo alagoano tem dotações naturais extraordinárias. Ainda assim, o mercado insiste em se posicionar no fundo da curva, vendendo diária de quarto como se vendesse grão ou minério.
O hoteleiro tradicional investe no ativo tangível da construção e entrega a gestão do cliente a agências e plataformas globais de reserva. Essas OTAs confiscam até 30% da receita em comissão — empurrando o setor para leilões de desconto tarifário.
O deslizamento necessário é romper com o modelo de “vender camas”. Migrar para o lado direito através do marketing de criação de valor e da desintermediação digital. O capital deve consolidar marcas de destino proprietárias, conceitos de hotelaria regenerativa e de isolamento de alto padrão.
Quando o marketing transforma a viagem em símbolo de status e transformação pessoal, o consumidor fica insensível ao preço. Aceita tarifa premium direto no canal da propriedade. A margem deixa de ser corroída pelo intermediário — e se fixa em patamar imune à volatilidade do turismo de massa.
Antecessoras e subsequentes. A montante, formação de mão de obra em hospitalidade de grife e curadoria de experiência local são o insumo intangível que falta ao setor. A jusante, marca de destino se estende para gastronomia autoral vendida fora do hotel, produtos de bem-estar assinados e programas de fidelidade que capturam o cliente para viagens futuras — extraindo receita depois que o hóspede já foi embora.
Vetor II — Agroindústria Sucroalcooleira: da Commodity à Bioeconomia de Especialidade
O complexo açucareiro alagoano permanece refém do volume físico de moagem. O lucro por hectare é achatado pela escalada do preço dos fertilizantes e pela variação cambial da commodity agrícola.
O deslizamento é duplo. No lado esquerdo, biotecnologia: sair da aquisição mecânica de terra e migrar para patentes — bioplásticos, leveduras customizadas para nutrição animal, compostos avançados extraídos do bagaço e da vinhaça. No lado direito, marca de nicho: açúcar orgânico gourmet de origem controlada, destilado ultra-premium com narrativa de grife.
A usina deixa de ser esmagadora de cana e passa a deter propriedade intelectual e marca de luxo. Muda a lógica de precificação: de Cost-Plus (custo mais margem) para Value-Based (valor do anseio saciado).
Antecessoras e subsequentes. A montante, melhoramento genético de variedades de cana e biotecnologia de fermentação são o P&D que sustenta o lado esquerdo. A jusante, a leveduta de nutrição animal derivada do bagaço e da vinhaça deixa de ser subproduto marginal e vira insumo estratégico do Vetor V — a pecuária. É o primeiro elo direto entre dois vetores historicamente tratados como isolados.
Vetor III — Cadeia Química e Árvore do Cloro: da Matéria-Prima Intermediária ao Bem Final
O polo cloroquímico alagoano cumpre papel puramente intermediário. Extrai-se o sal-gema, processa-se cloro líquido e soda cáustica em estado bruto — ativo industrial pesado, de alto custo fixo e alto risco —, para enviar a outras federações, onde vira produto de consumo.
O deslizamento é duplo também aqui. No lado esquerdo, polímeros verdes e formulação química sob medida para indústrias de alta margem — farmacêutica, cosmética. No lado direito, marca própria de bem de consumo final: saneante avançado, solução de tratamento de água doméstico.
Ao controlar a formulação proprietária e a marca que fala direto com o consumidor final, a indústria blinda o fluxo de caixa contra a oscilação cíclica do mercado de nafta e derivados.
Antecessoras e subsequentes. A montante, licenciamento de processo e P&D em formulação molecular — muitas vezes em parceria com universidades — substituem a simples compra de tecnologia estrangeira. A jusante, a cadeia se estende para cosmético e farmacêutico de marca própria, setores que pagam múltiplos de margem sobre o mesmo insumo químico de base.
Vetor IV — Silvicultura do Eucalipto: da Madeira Passiva ao Design Assinado
O eucalipto alagoano opera de forma passiva: corte e queima como biomassa de baixo valor calórico para a Braskem e padarias, ou cavaco cru para celulose fora do estado.
O deslizamento é radical, para as duas pontas. No lado esquerdo, cálculo estrutural para Madeira Engenheirada (CLT — Cross-Laminated Timber), posicionando o insumo no coração da construção civil modular sustentável. No lado direito, parceria com estúdio de arquitetura e design autoral, transformando madeira local em coleção de mobiliário de luxo assinado.
A árvore deixa de ser liquidada por metro cúbico bruto. Passa a ser faturada por valor estético, conceitual, de design exclusivo. O faturamento por hectare se multiplica sem expansão física de terra — crescimento sustentável e altamente lucrativo.
Antecessoras e subsequentes.
A montante, melhoramento genético florestal e engenharia estrutural definem se a madeira alagoana chega ou não à especificação técnica do CLT. A jusante, o mobiliário assinado se conecta a redes nacionais de arquitetura e a projetos de construção modular certificada — mercados que remuneram o design, não o metro cúbico.
Vetor V — Pecuária: do Peso Vivo à Genética e à Grife
A pecuária alagoana é atividade centenária tão deprimida quanto as demais, mas raramente tratada com o mesmo rigor estratégico. Boi gordo e leite cru são vendidos por arroba e por litro, precificados pela B3 e pelo CEPEA, num ciclo longo de maturação, dependente de pastagem extensa e sujeito ao câmbio da exportação de carne.
A raiz do problema é a mesma dos outros vetores: pasto e cabeça de gado são ativo tangível, e ativo tangível deprecia e exige escala física para crescer. O boi de Alagoas compete, sem diferenciação, com o boi de qualquer outra pastagem do país.
O deslizamento, aqui também, é duplo. No lado esquerdo, genética: melhoramento genético bovino, sêmen e embrião de elite, pecuária de precisão com rastreabilidade individual do animal. No lado direito, marca: carne de origem certificada, selo de pecuária regenerativa e baixo carbono, laticínio artesanal maturado de grife regional, venda direta ao consumidor final.
O mecanismo de lucro inverte a lógica do peso vivo. Genética licenciada gera royalty recorrente por reprodutor, não uma venda única de boi gordo. Carne rastreada e certificada vende por múltiplo do preço da arroba comum, porque carrega narrativa — origem, manejo, sustentabilidade — que o consumidor premium paga para consumir.
Antecessoras e subsequentes. A montante, a nutrição animal de precisão — usando levedura e composto derivado do bagaço e da vinhaça do Vetor II — reduz custo e agrega rastreabilidade ao mesmo tempo. A jusante, açougue e laticínio de marca própria, e franquia de churrascaria assinada, capturam a margem que hoje fica com o frigorífico e o distribuidor. A pecuária alagoana, mais que qualquer outro vetor, mostra como a curva de um setor pode se apoiar no lado direito de outro.
A Elasticidade Invertida como Escudo do Futuro
O futuro econômico de Alagoas não será pavimentado por incentivo ou concessão. Será pavimentado pela maturidade estratégica de seus empreendedores em entender a psicologia do consumidor premium e a matemática do ativo intangível.
O livre mercado pune com insolvência e estagnação quem insiste em competir na base da Curva Sorriso.
Quando marca, patente ou genética convencem o mercado de que sua solução é única, escassa, portadora de significado que transcende a matéria física, ocorre a elasticidade-preço invertida. O consumidor abdica da racionalidade do menor preço. Paga o ágio que a corporação exige, porque deseja o intangível.
Para Alagoas enriquecer, suas lideranças de mercado precisam parar de extrair e passar a criar. Parar de construir e passar a desenhar. Parar de estocar e passar a impressionar.
Ao transferir capital dos tijolos, do pasto e da tora para as mentes, o mercado alagoano abandona o fundo melancólico do sorriso. E sobe para colher as margens generosas, estáveis e infinitas que habitam o topo do mundo econômico moderno.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
