A imprensa registra, nos últimos dias, um movimento que já não cabe no verbo “atuar”.  Melhor seria no verbo “reagir”.

 

Um ministro que, por anos, definiu sozinho os termos do debate público passa agora à defensiva. E a defensiva, quando vem de quem está acostumado a atacar, costuma ter um formato previsível: espalhar a suspeita para que a solidão da acusação pareça acompanhada.

 

Nesse movimento, André Mendonça se torna alvo. Não por qualquer fato novo, mas por continuar sendo a peça que não se encaixa no tabuleiro. Sua conduta dentro do STF tem sido, até aqui, a de resistir à lógica do acordo tácito — aquela que troca o silêncio institucional pela conveniência mútua.

 

Ao levar o caso Vorcaro–Banco Master ao plenário, Mendonça rompeu um roteiro informal de proteção entre poderes que, até então, funcionava bem para todos os que dele se beneficiavam.

 

Tentar equipará-lo a outros ministros — nivelar biografias e suspeitas — é uma tática antiga. Funciona quando o objetivo não é provar, mas diluir. Diluir a diferença entre quem investiga com base em fatos concretos e quem acusa como estratégia de sobrevivência.

 

O cálculo é simples de descrever, ainda que difícil de admitir publicamente: se todos os ministros carregam sombras equivalentes, nenhuma sombra específica compromete aquele que mais precisa vê-la apagada.

 

Essa é a lógica do encurralado. Não a lógica de quem tem certeza da própria conduta.

 

Resistir sozinho a esse cálculo tem um custo. Mendonça já o está pagando.

 

Quando a instituição administra o próprio risco

 

O ponto central, porém, não é o desconforto pessoal de um ministro. É o que esse desconforto revela sobre o estado da instituição.

 

Quando a defesa de uma posição de poder passa a depender de negociação política velada, e não de argumento jurídico público, o Tribunal deixa de ser o lugar onde se resolve o conflito. Passa a ser o lugar onde se administra o risco de quem o compõe.

 

Se essa lógica prevalecer — se o STF, como corpo, aceitar o nivelamento das suspeitas, em vez de separar o fato concreto das acusações usadas como defesa —, o precedente será grave.

 

Não porque condena um homem, mas porque absolve um método.

 

E o método é o que interessa de verdade. Uma vez aceito, ele não serve apenas para este caso. Serve para o próximo. E para o seguinte.

 

A suspeita como arma

 

A detração, nesse contexto, cumpre uma função técnica, e não apenas emocional. Ela não precisa convencer a opinião pública de que Mendonça errou. Basta instalar dúvida suficiente para embaçar o contraste entre ele e quem ele investiga.

 

Uma vez embaçado esse contraste, a Corte inteira passa a operar sob a mesma suspeita. E a suspeita compartilhada dissolve as responsabilidades individuais.

 

É assim que o desgaste avança: não pela prova, mas pela repetição.

 

Cada insinuação, isoladamente, parece pequena demais para importar. Somadas, elas formam um ambiente no qual ninguém mais precisa provar nada. Basta que o público se canse de distinguir quem fez o quê.

 

Dois caminhos possíveis

 

É nesse ambiente que a tragédia se desenha, com dois desfechos possíveis.

 

No primeiro, a Corte reconhece a tempo o que está em jogo. Com o mesmo rigor que hoje dedica à acusação, afasta quem, de fato, comprometeu sua função. Preserva, com esse gesto, a reputação que ainda lhe resta.

 

No segundo, o conluio se mantém. A conduta atual se acomoda, e a Corte definha aos poucos, sustentada apenas pela inércia de quem não deseja pagar o custo político de agir.

 

Quando a solução finalmente chegar — porque sempre chega —, não virá de forma cirúrgica. Virá como um corte largo. Arrastará consigo nomes que talvez não devessem cair e deixará a instituição diante de uma longa tarefa para recuperar o respeito perdido.

 

Entre esses dois caminhos, não existe meio-termo confortável.

 

Existe apenas demora.

 

A saída republicana

 

A saída republicana não depende de um acontecimento espetacular. É simples e exigente ao mesmo tempo: separar o fato apurável da manobra de sobrevivência. Julgar a conduta, em vez de negociar a narrativa.

 

A alternativa — a “malemolência dos bons” cedendo espaço à vantagem organizada dos maus — não é uma hipótese distante. É o resultado natural de qualquer sistema no qual a impunidade de um se transforma em garantia para todos os demais.

 

O Brasil já viveu o suficiente desse experimento para reconhecer onde ele termina.

 

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