Vivemos muito tempo como crianças apaixonadas. Nos divertimos muito em nossas baladas, você, eu e nossa turminha.
Ingênua farrista e trabalhadora incansável , acordava na madrugada, muitas horas antes de eu me recolher- talvez por isso nunca tenhamos nos casado - para seu merecido e rápido cochilo. Enquanto eu dormia, você já estava de pé, atendendo as mães que saíam para comprar o leite de Domingos Motta e Chiquinho Lúcio, no escuro já frio - os motores do Valdomiro Barbosa tinham silenciado há horas - da noite que insistia em não terminar.
E, ainda assim, você sempre estava pronta para receber minha turma ao anoitecer. Nos acompanhava pelas praças e pelas baladas - com o Neno puxando um samba na caixa de fósforo - de olho atento no plantador de fumo, que precisava transferir as folhas enroladas — nas bolas de fumo — para se beneficiar da secagem e da cura permitida desde o primeiro sinal do sol. Era esse o seu relógio: o leite antes do amanhecer, o fumeiro ao primeiro Sol. a farra ao anoitecer. Um dia inteiro, cumprido com a mesma dedicação de sempre.
Você cumpria todas as farras comigo, com o Neno, Francisco, Zé Carlos, Amauri e outros que a memória, generosa mas cansada, já apaga. Fazíamos, sem saber, a nossa feliz vida de adolescentes do interior como se estivéssemos em Nova York ou em Paris — cidades que sequer sabíamos se existiam de verdade, mas que já vivíamos, à nossa maneira, todas as noites.
Hoje, Arapiraca, você recebe o VLT — equipamento digno de cidade grande. A nossa velha Estação Ferroviária, que une as Cacimbas ao nosso planalto central, a Praça Marques da Silva — Times Square do pedaço — vira ponto central para unir todos os seus novos pontos de embarques em sua população crescida. Você receberá um novo equipamento que lhe consagrará, enfim, a patente da modernidade e da cidade grande que você sempre foi para nós, muito antes de qualquer trilho.
Parabéns à generosidade de quem fez isso por você ainda que debaixo de pedras e críticas, como é de praxe na vida pública. Quem constrói para os outros raramente é aplaudido no meio do caminho — só depois, quando o trem já passa e a praça já muda de cara, é que se reconhece o tamanho do gesto.
Te amo, pequena e velha senhora crescida. Te agradeço pelo que me destes. Te festejo pelo que mereces.
Rui Guerra, seu senil e ausente namorado.
