I. O berço: Antônio Carlos Magalhães, 1980
Tudo começa com um problema de inflação e um governador que sabia fazer política com comida. Em 1980, Antônio Carlos Magalhães criou a Empresa Baiana de Alimentos — a Ebal — e sua rede de supermercados populares, a Cesta do Povo, para vender alimento subsidiado a servidores públicos enquanto a inflação corroía salários.
Funcionou como aparelho político por décadas. Como negócio, morreu lentamente: no início dos anos 2010, a Ebal já operava cerca de 400 lojas com prejuízo anual próximo de R$ 80 milhões.
Um cadáver que ninguém queria enterrar, porque enterrar custava caro e vender parecia impossível.
II. A privatização: Wagner autoriza, Costa executa, 2014–2018
Jaques Wagner, então governador, autorizou a privatização da Ebal em 2014. O mercado respondeu com desprezo: dois leilões, em janeiro de 2016 e março de 2018, fracassaram com lance mínimo de R$ 81 milhões — presença Zero. Nenhum interessado pagaria isso por uma rede deficitária.
A solução, sob o governo de Rui Costa, foi baixar a régua até alguém morder a isca. Em 11 de abril de 2018, a Ebal — junto com o Credcesta, o cartão de crédito consignado que a acompanhava — foi arrematada por R$ 15 milhões, R$ 66 milhões abaixo do valor original.
O comprador oficial foi a NGV Empreendimentos, controlada por Augusto Lima, empresário baiano com trânsito direto em Wagner e Costa.
O que parecia liquidação de sucata era, na verdade, entrega de um cofre.
O lance não revelado que robusteceu o novo comprador:
Dezesseis dias depois do leilão — 27 de abril de 2018 —, Rui Costa assinou dois decretos que transformaram o cartãozinho de supermercado numa máquina de crédito consignado com monopólio de facto: autorização para “diversificar funcionalidades, incluindo crédito e serviços financeiros”, e permissão para comprometer até 30% do salário líquido do servidor exclusivamente pelo Credcesta — sem concorrência de bancos que cobrassem menos.
A taxa chegou a 5% ao mês, o triplo do praticado por Bradesco, Caixa e Itaú em operações equivalentes, com risco de inadimplência próximo de zero porque o próprio estado descontava a dívida em folha.
Em janeiro de 2022, um terceiro decreto — o 21.041 — fechou a jaula: proibiu o servidor de portar a dívida para outra instituição com juro menor, trancafiando 280 mil pessoas num cativeiro financeiro perpétuo até 2033.
Em junho de 2018, a operação do Credcesta passou da NGV para a PKL One Participações, outra empresa da rede de Augusto Lima. Foi essa engenharia societária — não Vorcaro diretamente — que primeiro lucrou com o desenho da Bahia.
Vorcaro entra em dezembro de 2018, quando Lima bate à sua porta oferecendo sociedade. O Banco Central registrou a intenção naquele mês.
Em poucos meses, o pequeno Banco Máxima — rebatizado Master em 2021 — já operacionalizava o Credcesta: cobrava o juro extorsivo, securitizava a carteira e revendia a fundos e outras instituições.
Só entre 2022 e 2024, essa engenharia gerou R$ 2,4 bilhões em venda de carteiras. A base de clientes do banco saltou de 33.685 pessoas em 2018 para 5,8 milhões em 2024.
O Credcesta baiano não foi um detalhe da biografia de Vorcaro — foi o protótipo industrial de tudo que viria depois.
III. A escala nacional: de Máxima a Master, 2019–2025
Vorcaro replicou a fórmula baiana em escala federal. CDBs pagando até 140% do CDI — muito acima do que qualquer banco sólido precisaria oferecer para captar depósito —, lastro em precatórios de liquidez duvidosa, aquisições de bancos menores (Voiter, Will Bank).
Em 2024, o Master reportava R$ 63 bilhões em ativos e R$ 1 bilhão de lucro líquido: números de banco grande, com estrutura de banco de garagem.
Foi nessa fase que o Credcesta deixou de ser um caso baiano e virou um problema de todos os estados.
Documentos e reportagens apontam padrão semelhante em outros governos: Jerônimo Rodrigues manteve a Bahia pagando ao Master — 207 pagamentos somando R$ 49,2 milhões; o Rio de Janeiro, sob Cláudio Castro, investiu cerca de R$ 3,7 bilhões do fundo de pensão estadual Rioprevidência em produtos ligados ao Master; Goiás, sob Ronaldo Caiado, teria alterado regras de consignado após reuniões com o banqueiro; Minas Gerais, sob Romeu Zema, viu o pai do governador receber R$ 1 milhão em doação partidária enquanto o estado expandia o crédito consignado; o Distrito Federal, sob Ibaneis Rocha, registrou quatro encontros com Vorcaro e um escritório de advocacia ligado ao governo vendendo R$ 38 milhões em créditos a um fundo conectado ao Master.
IV. A tentativa de salvamento estatal: o BRB e o Banco Central, 2024–2025
O ponto em que a fraude privada virou risco público tem nome e data.
A partir de julho de 2024, o Banco de Brasília — estatal do Distrito Federal — começou a comprar ativos do Master, somando R$ 16,7 bilhões. Em 28 de março de 2025, o BRB anunciou a aquisição de 58% do Master.
Se o negócio tivesse passado, o rombo de um banco privado teria sido nacionalizado silenciosamente, com dinheiro público cobrindo o buraco antes que qualquer regulador tivesse tempo de reagir.
O Banco Central rejeitou a operação em 3 de setembro de 2025 — a única decisão, nessa história inteira, que funcionou como deveria.
Vorcaro tentou fugir e foi preso em 17 de novembro de 2025. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master.
O rombo total é estimado hoje em R$ 57,4 bilhões, com R$ 40,6 bilhões de exposição direta do Fundo Garantidor de Créditos — bancado por contribuições antecipadas de todo o sistema financeiro nacional.
Ou seja: bancos que jamais fizeram negócio com Vorcaro estão, neste momento, pagando a conta de quem fez.
Para reverter o veto do Banco Central à venda ao BRB, o Master contratou Michel Temer — R$ 7,5 a 10 milhões — e Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula e Dilma, que recebeu R$ 14 milhões via sua consultoria Pollaris para “articulação política” do negócio.
Henrique Meirelles, ex-presidente do próprio Banco Central, recebeu R$ 18,5 milhões por trabalho num comitê consultivo do banco — um ex-regulador remunerado pela instituição que seu antigo cargo deveria fiscalizar.
V. A Polícia Federal abre a caixa: Operação Compliance Zero
A investigação, deflagrada em 17–18 de novembro de 2025, já vai na décima fase e identificou uma estrutura em quatro núcleos: fraude na estruturação financeira, corrupção de servidores do Banco Central, ocultação de patrimônio e lavagem, e obstrução/intimidação de testemunhas — esta última rendeu a Vorcaro uma segunda prisão, em 4 de março de 2026.
A nona fase, em junho de 2026, chegou à Bahia: revelou que a PKL One — a mesma empresa que administrava o Credcesta desde 2018 — repassou R$ 3,5 milhões a uma financeira ligada à família de Jaques Wagner e R$ 2,34 milhões ao enteado do senador via empresas de fachada.
A PF apreendeu cerca de US$ 55 mil em posse de Wagner, que negou irregularidade mas admitiu ter pedido a Augusto Lima — o mesmo intermediário de 2018 — que comprasse, para revenda futura, um apartamento de R$ 2,5 milhões em Salvador.
VI. O elo com o Supremo: quando o regulado vira cliente do julgador
Em 11 de setembro de 2026, o próprio ministro André Mendonça autorizou a divulgação pública de parte dos documentos apreendidos — um ministro do STF escancarando o WhatsApp de outro é, por si, uma medida do tamanho da crise.
O que veio à tona:
Alexandre de Moraes. Em 17 de janeiro de 2024, às 10h09, Viviane Barci de Moraes — sua esposa — enviou a Vorcaro, por WhatsApp, minuta de contrato de honorários no valor de R$ 131,2 milhões (R$ 3,6 milhões mensais por três anos).
A Receita Federal confirmou R$ 80,2 milhões efetivamente pagos ao escritório Barci de Moraes Associados ao longo de 2024–2025 — enquanto o Master ainda operava, antes da liquidação.
O escritório não comenta “tratativas envolvendo clientes”; Viviane já falou publicamente em 94 reuniões dedicadas a compliance.
Reportagens apontam ainda Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro e genro de Silvio Santos, como intermediário direto entre Vorcaro e Moraes, segundo a Polícia Federal.
Gilmar Mendes. Duas camadas distintas.
Em 11 de abril de 2024, reuniu-se com Vorcaro tendo como intermediário Chiquinho Feitosa, então seu cunhado, para tratar de causa sucroalcooleira contra a União de até R$ 145 bilhões — Gilmar acabou votando contra a tese que interessava ao banqueiro.
Já em 2025, Vorcaro procurou Guiomar Feitosa — então ainda esposa de Gilmar, o casal anunciaria separação em novembro daquele ano — para contratá-la como sua defesa pessoal.
Nenhum contrato foi fechado: Guiomar pediu números de processos específicos, Vorcaro não os apresentou e sumiu.
Em suas próprias palavras ao SBT News: “Na minha visão, ele queria uma aproximação.”
Outros ministros citados em levantamentos da imprensa (Cássio Nunes Marques, Luiz Fux, Dias Toffoli), com conexões que vão de filhos empregados por consultorias do banco a viagens em jatos custeados por advogados ligados ao Master — o suficiente para um analista consultado pela imprensa observar que a proximidade “levanta dúvida sobre a capacidade do próprio Supremo de julgar a si mesmo”.
Ricardo Lewandowski, que deixou o STF em abril de 2023 para o Ministério da Justiça de Lula, aparece com ao menos R$ 6,1 milhões pagos pelo Master desde novembro de 2023 — já fora da Corte — por “consultoria jurídica” com contrapartida de atuação processual, segundo reportagens, pouco visível.
VII. O Congresso e o Planalto: o mesmo dinheiro, outros gabinetes
O padrão se repete fora do Judiciário.
Ciro Nogueira teria recebido de R$ 300 a 500 mil mensais via empresa da família por favores no Senado.
Hugo Motta, presidente da Câmara, pediu pessoalmente a Vorcaro que o Master liberasse R$ 22 milhões em empréstimo a uma empresa de sua cunhada — segundo a Polícia Federal — enquanto a Câmara segurava a instalação de uma CPI do caso.
Flávio Bolsonaro buscou financiamento do banco para um filme; depois admitiu o encontro.
Lula recebeu Vorcaro em reunião fora da agenda oficial em dezembro de 2024 e, segundo relatos, chegou a aconselhar Moraes a se declarar suspeito no caso.
ACM Neto — neto do próprio criador da Cesta do Povo, fechando o círculo — recebeu R$ 5,45 milhões via consultoria.
VIII. O diagnóstico
Nenhum desses pagamentos, isoladamente, prova compra de decisão — a maioria não tem esse nexo demonstrado judicialmente, e todos os citados mantêm o direito à presunção de inocência até o trânsito em julgado.
Mas a soma não é ruído: é sinal.
O que uniu a Cesta do Povo de 1980 ao gabinete de um ministro do Supremo em 2024 foi um único talento, aplicado em escalas crescentes — a capacidade de identificar o ponto exato onde o poder público tem um ativo mal precificado (um supermercado falido, um regulador lento, um julgador solitário entre onze) e ali instalar uma relação que troca proximidade por proteção.
O Credcesta ensinou o método em escala municipal: comprar um decreto vale mais que competir no mercado.
O Master aplicou o mesmo método em escala nacional: comprar um regulador, um ministro, uma cunhada, uma esposa vale mais que operar dentro da lei.
E quando a bolha estourou, a mesma arquitetura institucional descrita nos textos anteriores desta newsletter — legislação que blinda o denunciado até o trânsito em julgado, julgamentos concentrados em onze pessoas, um Senado que prefere a inércia ao confronto — não serviu para conter o dano.
Serviu para adiá-lo, redistribuí-lo e, por fim, entregar a conta a quem nunca assinou contrato nenhum: o correntista comum, coberto pelo FGC com dinheiro de todo o sistema bancário, e o servidor baiano que ainda hoje paga 5% ao mês por um cartão de supermercado que devia render.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
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Fontes
• Entenda como o PT na Bahia vendeu o Credcesta e negócio favoreceu o Master
• Jaques Wagner e Rui Costa favoreceram negócio que enriqueceu Vorcaro
• Credcesta foi balão de ensaio que alavancou negócios de Vorcaro
• Banco Master scandal (Wikipedia)
• Mulher de Moraes enviou contrato de R$ 131,2 mi a Vorcaro
• Crise no STF: Gilmar Mendes recebeu Daniel Vorcaro para tratar de causa bilionária
• Vorcaro procurou esposa de Gilmar Mendes para defendê-lo
• Além da esposa de Moraes, Vorcaro também pagou Temer, Mantega, Lewandowski, Jaques Wagner, ACM Neto e Ratinho Jr
• Levantamento aponta que seis ministros do STF têm ligação com o caso Banco Master e Vorcaro
• Veja a lista (atualizada) de quem se envolveu com Vorcaro
• Fábio Faria aponta como ponte entre Vorcaro e Moraes, diz PF
• Hugo Motta pediu a Vorcaro empréstimo para empresa de cunhada, diz PF
