Qualquer movimento eleitoral de Lula, neste momento, parece conduzi-lo ao encontro de uma parede impossível de ser transposta. É a mesma parede que, em 2022, foi atravessada por margem estreita de votos e interpretada, erradamente, como vitória do socialismo.

Não adianta atribuir a manobra de apuração.  Foi um veredito contra quem ocupava a cadeira. Foi a confirmação de maturidade eleitoral da sociedade. Foi um aviso de que ideologia é coisa de político. Para o povo quem decide é o caminho da independência econômica.

O eleitorado brasileiro parece disposto a reafirmar o recado das duas últimas eleições. Em 2018, puniu o sistema que se julgava dono do voto. Em 2022, fez de Jair Bolsonaro o primeiro presidente a perder uma reeleição desde que ela passou a existir,  pouco importando se houve uma pandemia que pudesse justificar.

A lógica é simples e dura: não se reelege quem prometeu no pleito e não cumpriu no exercício do mandato mesmo que hajam fatos que, presumivelmente, justifiquem para o ocupante do cargo.

O segundo recado é igualmente áspero. Não adianta dividir o poder com caciques para garantir governabilidade e, ao mesmo tempo, tentar mascarar essa prática, com mimos de sobrevivência  que não emancipam uma população sofrida. O eleitor percebe quando a mão que oferece é a mesma que negocia cargos pelas costas. A resultante coletiva é verdade da resposta.

 

O terceiro recado talvez seja o mais definitivo. O povo não se comporta apenas pelo que denuncia a oposição e parece dizer, sem rodeios: “Quem manda aqui sou eu.” E estamos conversados!

 

É isso que se pode chamar do amadurecimento que conduz ao  estouro da manada. Não é um movimento ideológico, organizado ou guiado por líderes. É uma reação coletiva, quase instintiva, de quem se cansou de ser conduzido e decide mudar de direção de uma só vez, atropelando o que estiver na frente.

 

A manada não pede licença. E não tem memória afetiva.

 

Por isso, o momento serve de explicação a Lula e alerta antecipada para Flávio Bolsonaro. Convém não confundir o voto que recebe com adesão incondicional. O povo pode estar usando seu nome como instrumento para desempregar Lula e dizendo, alto e bom som:

 

“Você será eleito. Mas não vá mijar no caco, que nós lhe daremos um chute na bunda, como estamos fazendo agora.”

 

A frase, rude como o sertão que a inventou, carrega uma sabedoria que Brasília costuma ignorar. O mandato é um empréstimo, não uma escritura. Quem o recebe como propriedade descobre, quatro anos depois, que o credor voltou para cobrar.

 

Se o eleitor brasileiro consolidar esse padrão, o país terá entrado numa fase nova. Nela, nenhuma popularidade é garantia, nenhuma aliança é blindagem e nenhum programa social substitui o cumprimento da palavra empenhada.

 

Para quem governa, isso é uma ameaça. Para a democracia, talvez seja a melhor notícia em muitos anos.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos