Desde 24 de setembro, Donald Trump recebe Xi Jinping para conversas na Casa Branca.

 

A pauta passou por Taiwan, Oriente Médio e a trégua comercial entre os dois países, que foi prorrogada. Mas um tema chamou atenção: a inteligência artificial.

 

À primeira vista, parece estranho. Não se trata de vender soja, aviões ou petróleo. Então, o que dois rivais têm para negociar sobre uma tecnologia que ambos dominam e disputam?

 

A resposta é simples: ninguém domina a cadeia inteira da IA sozinho.

 

Os Estados Unidos controlam o cérebro da coisa. Empresas como a Nvidia projetam os chips que treinam os grandes sistemas.

 

Aqui cabe um esclarecimento. Quando se fala em chip, a imagem comum é a de um pequeno componente que executa uma única função, como o que controla uma máquina de lavar.

 

O chip de data center é outra coisa. Cada um reúne milhares de núcleos que fazem cálculos ao mesmo tempo. Esses chips - máquinas - são instalados aos milhares, em galpões do tamanho de fábricas.

 

Juntos, formam grandes máquinas multifunção, capazes de treinar os “cérebros” das plataformas de IA para atender às demandas comerciais de cada empresa.

 

Os modelos mais avançados do mundo são americanos. E as maiores nuvens de computação - DataCenters e SOFTWEREs -  e o capital que financia a corrida também estão lá.

 

A China controla o corpo. Refina cerca de 90% das terras raras do planeta, minerais sem os quais não existem ímãs, motores, eletrônicos nem armamento moderno.

 

Fabrica em escala que ninguém iguala. E amplia sua produção de energia elétrica mais rápido que qualquer país. Algo decisivo, porque a IA consome eletricidade em quantidade gigantesca.

 

Cada um segura uma chave de que o outro precisa.

 

Por isso, o jantar oferecido a Xi reuniu os chefes da Nvidia, OpenAI, Microsoft, Apple, Google, Amazon e Tesla. Não era cerimônia. Eram as partes interessadas sentadas à mesa.

 

O que precisa ser acertado cabe em cinco pontos.

 

O primeiro é a troca central: chips contra  pasta de terras raras.

Os Estados Unidos restringem a venda de seus chips de data center mais potentes à China. A China, por sua vez, pode restringir os minerais. Quanto cada um libera define o ritmo da corrida.

 

O segundo é a cópia. Washington acusa empresas chinesas de treinar seus sistemas usando as respostas dos modelos americanos, técnica chamada de destilação. Pequim nega. Sem regra clara, a desconfiança contamina tudo o mais.

 

O terceiro é a segurança. Os dois governos discutem um canal para avisar, um ao outro,  quando um sistema autônomo sair do controle.

 

É a mesma lógica do telefone vermelho entre Washington e Moscou na Guerra Fria: evitar que uma disputa entre operadores vire uma crise internacional.

 

O quarto é o uso militar. Em 2024, os dois países concordaram que a decisão sobre armas nucleares deve permanecer em mãos humanas. Manter e ampliar esse compromisso é talvez o ponto mais importante de todos.

 

O quinto é o mais difícil: os modelos abertos. São sistemas que qualquer pessoa pode baixar, modificar e usar. A China se destacou nessa modalidade. Como controlar o que já está livre na internet?

 

Há ainda uma divergência de fundo. Os dois líderes reconheceram que a IA precisa ficar sob controle. Mas Trump defendeu deixá-la como está, sem novas regras, enquanto Pequim prefere normas mais amplas.

 

O encontro, portanto, não foi uma negociação de compra e venda. Foi uma negociação de poder.

 

Quem controla os gargalos da tecnologia que vai definir as próximas décadas controla também o ritmo do mundo. E, por enquanto, cada lado sabe que não chega lá sem o outro.

 

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