A transferência de votos pode mudar o resultado do segundo turno

 

Ao leitor: esta análise apresenta cenários, não certezas. Os números mostram como pequenas mudanças na transferência de votos podem inverter uma disputa apertada.

 

Ontem divulguei uma projeção que aponta disputa acirrada, com vitória de Lula no segundo turno: 50,5% a 49,5%.

 

Convém lembrar o que ela é: uma formulação estatística sustentada em fatos passados. E o passado, olhado de perto, também mostra mudanças.

 

O fato novo que tenho trazido é a importância do campo político. Quando um candidato forte enfrenta concorrência dentro do próprio campo, os votos dessas candidaturas menores não se perdem. No segundo turno, voltam majoritariamente para casa. É o que chamo de resíduo.

 

Hoje, esse resíduo soma 14,4% dos votos válidos. É ele que pode decidir.

 

A novidade está na fidelidade ao campo. Nas campanhas presidenciais desde a redemocratização, a parcela do resíduo que acompanha seu próprio campo subiu de 51% para 63,5% em 2022.

 

O eleitor ficou mais fiel. A polarização ajuda a explicar: quem vota num candidato menor da direita já não cogita, como antes, atravessar a rua.

 

A projeção de ontem adotou a taxa de 2022: 63,5% do resíduo para Flávio Bolsonaro e 36,5% para Lula. É a escolha prudente, porque se apoia no último fato conhecido.

 

Mas a taxa não ficou parada nas eleições anteriores. Por que ficaria agora?

 

Se ela acompanhar o avanço histórico considerado no modelo, chega a algo entre 65,7% e 67%. O ponto de virada está em cerca de 66,8%. Abaixo dele, a projeção favorece Lula. Acima, favorece Flávio.

 

A tendência histórica, portanto, coloca a eleição exatamente sobre a linha.

 

Com 65,7%, Lula vence por 50,1% a 49,9%. Com 67%, Flávio vence por 50,05% a 49,95%. Uma diferença mínima.

 

Se a aceleração for mais forte e a fidelidade alcançar 71,9%, a inversão fica nítida: Flávio 50,8%, Lula 49,2%.

 

Para isso, porém, seria preciso um salto de mais de oito pontos numa única eleição, bem acima do ritmo observado até aqui. Possível, num país tão dividido. Ainda não demonstrado.

 

Há um contrapeso a registrar. As pesquisas que perguntam diretamente sobre o segundo turno deram, na mesma rodada, Lula 50,6% a 49,4%. Esse resultado é próximo ao da projeção que adota a taxa de transferência de 2022.

 

A leitura honesta é esta: a projeção de 01/10 do Polling Average Rui Guerra continua de pé. Mas, mantidas as demais condições do modelo, a vantagem de Lula pode desaparecer se a fidelidade ao campo continuar crescendo.

 

Bastam pouco mais de três pontos de avanço nessa taxa para o resultado mudar de lado.

 

Eis a natureza das eleições. Numa disputa tão apertada, o voto de quem perde no primeiro turno pode decidir quem ganha no segundo. E a força do resíduo não está apenas no seu tamanho, mas na sua disciplina.

 

O domingo dirá quanto resíduo haverá. O segundo turno dirá a quem ele obedece.

 

Newsletter Rui Guerra

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