É quase impossível acontecer, reconheça-se. A República também já pareceu impossível.

 

A ideia reduz um espaço ambicionado pela classe profissional que mais influência exerceu sobre a República desde a sua criação: os bacharéis em Direito e suas grandes bancas. Dos primeiros presidentes civis aos gabinetes de hoje, o diploma jurídico foi um dos passaportes mais seguros para o poder.

 

Ainda assim, o sonho merece ser descrito. Onze cadeiras, onze plataformas de inteligência artificial.

 

O que a máquina oferece

 

A primeira vantagem é a memória. Nenhum ministro consegue ler toda a jurisprudência do país. Uma plataforma pode consultar, em segundos, um acervo que ninguém conseguiria guardar na cabeça.

 

A segunda é a ausência de emoção e de vaidade. A máquina não se ofende com a crítica, não disputa holofotes, não guarda mágoa do colega que a contrariou na sessão anterior.

 

A terceira é a mais importante: não há o que trocar com ela. Não janta com a parte, não tem parente advogando, não deve a indicação a ninguém. Nesse sonho, só muda de posição diante de argumento e de prova.

 

É a lógica da balança da feira. Ela não conhece o freguês, não simpatiza com o feirante. Pesa.

 

Por que onze, e não uma?

 

Onze plataformas de fabricantes diferentes, treinadas por caminhos diferentes, poderiam chegar a conclusões diferentes. Essa divergência seria o novo plenário.

 

Cada voto viria por escrito, fundamentado e publicado na íntegra, com as fontes e os argumentos à vista. Qualquer cidadão poderia conferir em que a decisão se apoiou. Portas fechadas deixariam de fazer sentido.

 

O temor que resta

 

Nesse sonho digital de justiça e neutralidade, sobra um medo. E ele é humano.

 

Toda plataforma depende de chips, de programas e de treinamento. Em cada etapa há pessoas e interesses. Se a ganância alcançar quem constrói ou alimenta esses sistemas, a inteligência pode nascer comprometida.

 

Quem escolhe o que a máquina lê escolhe, em boa parte, o que ela conclui.

 

Uma plataforma assim poderia distorcer a verdade com a mesma serenidade com que a afirma. Apresentaria erros como acertos, sem rubor e sem contradição aparente.

 

Volte-se à balança. Adulterada, ela rouba todos os fregueses por igual, sem que percebam. O erro de um juiz pode atingir um processo. O erro de uma máquina pode se repetir em milhares.

 

O limite honesto do sonho

 

Há ainda duas ressalvas. As plataformas atuais também erram e, às vezes, citam o que não existe. E julgar não é só conferir fatos. É escolher entre valores, tarefa que nenhuma base de dados resolve sozinha.

 

Por isso, o caminho provável talvez seja intermediário. A plataforma emitiria um parecer público e obrigatório em cada processo. O ministro teria de explicar, por escrito, por que divergiu dele.

 

Substituir ministros por plataformas não elimina a necessidade de vigiar quem julga. Apenas muda o endereço da vigilância: do gabinete para quem desenvolve, treina e controla a máquina.

 

A neutralidade não se garante pela confiança em quem decide. Depende também de quem fiscaliza.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos