Quando a obra é paga por medição, ninguém tem pressa de entregá-la

 

Quem ganha com a demora?

 

A guerra entrou no quinto ano. Enviados americanos circulam entre Moscou e Kiev, fala-se em negociação a três, e os bombardeios continuam: o Kremlin não suspende ataques para conversar.

 

Se todos dizem querer a paz, por que ela não vem? Há duas respostas. Uma está na mesa de negociação. A outra, nos balanços das fábricas.

 

A mesa onde as condições não se encontram

 

Moscou exige territórios no leste que suas tropas nem sequer conquistaram. Nenhum governo em Kiev sobreviveria a entregar, por assinatura, o que o inimigo não tomou pelas armas.

 

Quando o mínimo de um lado supera o máximo do outro, não há acordo, apenas pausa. É o comprador que exige, além do lote, o quintal do vizinho.

 

Mas o impasse explica a dificuldade, não a duração. Guerras empatadas terminam quando continuar fica caro demais para quem decide.

 

A obra paga por medição

 

Todo engenheiro conhece o contrato sem prazo final, pago por medição: enquanto houver serviço a medir, há faturamento. Ninguém precisa sabotar a obra. Basta que terminá-la não interesse a quem decide.

 

A guerra virou esse tipo de obra.

 

Na Rússia, o gasto militar chegou a 16 trilhões de rublos em 2025, ou 7,5% do PIB. Para 2027, estão previstos 17,1 trilhões, perto de 35% da despesa federal, recorde pós-soviético.

 

A produção de munição saltou de 4,5 milhões para mais de 7 milhões de unidades em um ano.

 

Quase tudo passa por conglomerados estatais. O maior, a Rostec, é comandado desde 2007 por Serguei Chemezov, ex-oficial da KGB e aliado de longa data de Putin.

 

Analistas ouvidos pela imprensa independente russa apontam encomendas dirigidas a corporações de amigos do presidente, com equipamentos comprados acima do custo.

 

Não é só a elite. Operários migraram atraídos pelos salários das fábricas de armas. É o “keynesianismo de defesa”: a guerra virou grande empregador e motor do PIB.

 

Desligá-lo de uma vez traria recessão, desemprego e cobrança política.

 

Do outro lado da fronteira, a mesma lógica

 

Seria desonesto olhar só para Moscou.

 

A Europa, que passou três décadas desmontando exércitos, reabriu as encomendas. A alemã Rheinmetall projeta alta de até 45% nas vendas em 2026, e a Alemanha já é o quarto maior exportador de armas do mundo.

 

O maior fornecedor, porém, está do outro lado do Atlântico. Pelo programa PURL, os países da OTAN compram armas americanas para a Ucrânia: cerca de 15 bilhões de dólares em 2026, perto de 1 bilhão de euros por mês, pagos por europeus e canadenses.

 

Nove em cada dez mísseis antiaéreos ucranianos chegam por esse caminho.

 

É o negócio perfeito: o fabricante vende, o vizinho paga e o cliente usa.

 

Antes disso, o dinheiro americano já ficava em casa. O Pentágono distribuiu 41,7 bilhões de dólares em compras e reposições por mais de 35 estados.

 

Mandou à Ucrânia estoques antigos, como interceptores Patriot que já seriam substituídos, e os repôs com equipamento novo. É doar o telhado velho e usar a doação para justificar o novo.

 

Há ainda o ganho que não aparece em balanço: a OTAN desgasta o poder militar russo sem arriscar um único soldado.

 

E há os fornecedores periféricos. A Coreia do Norte chegou a responder por até metade da munição de artilharia russa em certos períodos, transformando velhos arsenais em moeda de troca.

 

Nada disso prova que alguém provocou a guerra ou a prolonga por conspiração. Prova algo mais incômodo: o ganho de continuar está concentrado em poucas mãos organizadas; o custo, espalhado por milhões que não decidem nada.

 

Quem paga a conta

 

Os perdedores não têm lobby. São os soldados dos dois lados. São as cidades ucranianas sob mais de 5 mil drones russos de longo alcance fabricados por mês.

 

É o contribuinte russo, cujo orçamento militar supera em seis vezes o gasto com saúde e educação somados.

 

Quem ganha sabe quanto ganha e se organiza para continuar ganhando. Quem perde, perde um pouco por dia e não tem a quem enviar a fatura.

 

A paz como mau negócio

 

Para quem tem a caneta, a paz ainda é um mau negócio. Para o Kremlin, um acordo sem os territórios exigidos seria derrota política, e parar a máquina, crise econômica.

 

Para parte da indústria ocidental, o conflito despertou mercados adormecidos havia trinta anos.

 

A paz chegará quando a medição deixar de compensar. Até lá, a obra segue, e quem mora no canteiro paga com a vida.

 

Resta a pergunta que nenhuma mesa de negociação ousa formular em voz alta. As propostas de paz que vão e voltam entre Moscou, Kiev e Washington são tentativas sinceras?

 

Ou não passam de simulações, porque, para quem fatura com ela, a guerra gera mais riqueza do que uma paz sonolenta e improdutiva?

 

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