Quem abre primeiro?
No debate da Band, em 18 de outubro, Lula lançou o desafio. Abriria seus sigilos bancário e telefônico, e os da família, se Flávio Bolsonaro fizesse o mesmo.
Dois dias depois, protocolou a autorização no TSE: oito anos de dados dele, de Janja e dos cinco filhos. A validade ficou condicionada ao gesto do adversário.
Flávio respondeu na quarta-feira, 21. Aceitou e dobrou a aposta. Ofereceu vinte anos de dados e exigiu, em troca, a abertura dos dados de assessores de Lula, entre eles o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
Exigiu também os das empresas dos filhos, do Instituto Lula, do cartão corporativo e dos registros de visitas ao Alvorada. Horas depois, a campanha petista declarou aceitar todas as condições e marcou o protocolo para as 11h desta quinta-feira, no TSE.
Parece um duelo. É, na verdade, uma prova de carga marcada para depois da inauguração.
A ponte e a prova de carga
Antes de ser liberada ao tráfego, toda ponte passa por uma prova de carga. Caminhões pesados são postos sobre o tabuleiro, e instrumentos medem a deformação. Ninguém inaugura primeiro para testar depois.
A contenda dos sigilos inverte essa ordem. O segundo turno é no domingo, 25. Os extratos de oito ou vinte anos, de dezenas de pessoas físicas e jurídicas, exigem requisição aos bancos, cruzamento e análise.
É trabalho de semanas, não de dias. Até o voto, o eleitor não verá um único número. Verá apenas quem assinou e quem hesitou.
Daí a natureza real da disputa: não é prova, é narrativa. Quem recuar na última hora entrega ao outro o bordão mais antigo da política: quem não deve não teme.
O peso desigual da carga
As exposições não se distribuem da mesma forma. Sobre Flávio pesa uma investigação formal.
Em julho, o ministro André Mendonça autorizou a Polícia Federal a investigá-lo pelo pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, revelado em áudios. O risco dele está concentrado nele mesmo e na família.
Do lado de Lula, a exposição é difusa. Lulinha teve os sigilos quebrados em janeiro, por decisão de Mendonça e a pedido da PF, no rastro do caso INSS. Até o momento, não se apontou publicamente ligação dele com os desvios.
As condições de Flávio, porém, espalharam a carga por assessores, instituto e gastos de governo. É uma superfície maior, onde qualquer achado vira manchete.
Um concentra o risco, o outro o pulveriza. Nenhum dos dois controla o que aparecerá.
O cálculo de médio prazo
Há uma leitura possível para a rapidez com que Lula aceitou todas as condições. O desafio não se esgota no domingo. Seu desfecho dependerá de quem vai requisitar, analisar e julgar os dados.
A Polícia Federal alem de comandada por um aliado de Lula, integra o Ministério da Justiça, e seu diretor-geral é nomeado pelo presidente da República.
No Supremo há ministros indicados por Lula e Dilma, entre eles Fachin e Flávio Dino, seu ex-ministro da Justiça. Foi Fachin que anulou a Lava Jato e Dino quem, em março, suspendeu a quebra de sigilo de Lulinha aprovada pela CPMI do INSS, por ter sido votada em bloco, sem análise individual.
Nessa leitura, Lula aposta no controle dos apuradores e julgadores, que bem conhece. Aceitar sem hesitar custa pouco a quem confia no ambiente onde a prova será produzida e julgada.
Não há registro de acordo nesse sentido. Há, sim, uma vantagem de posição que o adversário não tem.
A consequência que fica
As pesquisas apontam empate técnico: a Palver registrou Flávio com 50% e Lula com 49%. Nesse quadro, o efeito eleitoral imediato tende a ser pequeno. Os campos já estão formados, e o resíduo decide por outros critérios.
A consequência relevante vem depois do domingo. Os documentos protocolados não caducam com a apuração. O vencedor governará com a autorização assinada nos autos, e o derrotado terá em mãos o direito de cobrá-la.
A ponte será testada com o tráfego já passando. A deformação, se houver, aparecerá no mandato.
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