A escada que não tem último degrau
O que começou nas escolas da região de Paris, no fim de setembro, já atravessou fronteiras.
Estudantes do ensino médio bloquearam escolas francesas em protesto contra salas superlotadas, falta de professores e jornadas longas. No dia 6 de outubro, o movimento chegou ao auge. Entre 250 mil pessoas, segundo o governo, e 450 mil, segundo os organizadores, ocuparam as ruas de dezenas de cidades. Milhares de detidos. Centenas de feridos.
Em seguida, a onda chegou à Bélgica, à Itália, à Grécia, à Espanha, a Portugal e à Alemanha. Cada país com sua pauta, todos com o mesmo tom.
O que chama a atenção não é a revolta. É onde ela acontece.
A França não é um país de fome. Tem escola pública gratuita, saúde universal, transporte, previdência generosa e uma das maiores redes de proteção social do mundo. Os jovens que bloqueiam escolas não reclamam da falta de escola. Reclamam da escola que não é boa o bastante.
Aqui está a chave.
Quando uma sociedade resolve seus problemas básicos — alimentação, emprego, renda, transporte, educação, segurança e saúde —, ela não para de reclamar. Muda de reclamação. Inicia um processo de refinamento.
É o comportamento do rico que já mora num apartamento de luxo e o troca por outro melhor. Não há necessidade. Há expectativa.
A sociedade passa a cobrar habitações melhores, universidades mais bem equipadas, hospitais mais modernos. Melhores, cada vez melhores.
A régua sobe a cada conquista. A parte da sociedade que não paga pelos serviços básicos exige o mesmo padrão de quem paga por eles.
O que foi vitória para os pais vira ponto de partida para os filhos. E todo ponto de partida, comparado ao sonho, parece pouco. Não por acaso, analistas europeus descrevem o sentimento comum aos protestos como o de uma geração que se compara aos pais e se sente sem vitórias semelhantes.
Esse movimento não tem fim. E não tem fim justamente onde há liberdade e democracia plena.
Numa ditadura, a reclamação custa caro e é silenciada. Na democracia, ela é livre e, mais do que isso, é protegida e estimulada. Essa dinâmica já parece assimilada pelos oponentes, que a entendem sem ansiedade nem medo.
Os partidos fora do poder têm interesse direto em renovar a insatisfação contra o governo de plantão. Cada carência resolvida dá lugar a uma nova bandeira. A oposição de hoje será governo amanhã e enfrentará a mesma cobrança que ajudou a criar.
É o custo da democracia. E ele tem preço.
Para atender à cobrança permanente, os governos gastam. Gastam mais do que arrecadam. A dívida pública francesa já se aproxima de 3,6 trilhões de euros, cerca de 119% do PIB. A produção e o consumo precisam continuar crescendo para suportar a ampliação da despesa.
Na França, a ira das ruas costuma ser acalmada com mais gasto do Estado. Desta vez, porém, o peso das aposentadorias e a necessidade de cortar despesas deixam pouco espaço para isso.
O resultado é um ciclo: a rua cobra, o governo gasta, a dívida cresce, o governo corta e cai, a rua volta a cobrar.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu prometeu respostas “concretas, rápidas e integralmente financiadas” até o fim de outubro. A promessa revela o dilema: financiadas com que dinheiro?
Pelo visto, chegará o dia em que haverá movimentos para exigir leis que nivelem o consumo entre as classes sociais.
Nada disso é argumento contra a democracia. É argumento para entendê-la.
O regime da liberdade é o único que permite à sociedade cobrar sempre mais. Mas também é o único que exige dos governantes coragem para dizer que nem tudo cabe no orçamento de uma só vez. Talvez essa seja a causa das sucessões políticas permanentes e necessárias.
Para o Brasil, que ainda não resolveu o básico, o espelho francês é um aviso: quem promete o refinamento antes de pagar o alicerce herda a conta sem ter construído a casa.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
Fontes:
• Eunews – France takes to the streets
• The World Now – Protests spread to Belgium, Italy and Greece
• WSWS – 6 de outubro na França
• El Economista – La ola de protestas se expande por Europa
• ABC News 4 – France unrest
