O desvio tem tamanho. O erro de rumo, não.

 

Não é a decantada fama de desonesto que elimina Lula das hipóteses de escolha para conduzir o Brasil ao seu destino de potência econômica. Há defeito maior, mais caro e menos visível.

 

Aplicar recursos públicos no consumo ou na oferta, como alavancas de desenvolvimento, são alternativas consagradas nas teorias econômicas. Keynes ensinou a socorrer a demanda nas crises. Os asiáticos ensinaram a financiar a produção para crescer. Nenhuma das duas é pecado. Ambas são ferramentas.

 

O pecado está em não saber quando usar cada uma.

 

O desvio e o rumo

 

O dinheiro gasto na proteção de um grupo político, por maior que pareça nas manchetes, é muito inferior ao desperdício provocado pelo uso errado da máquina pública como indutora do desenvolvimento.

 

O desvio leva uma parte. O erro de direção compromete o todo, e por muitos anos.

 

O Estado sempre se endividará para financiar e pacificar setores. Faz parte do jogo. A questão é saber como e quando alternar as duas alavancas com racionalidade: estimular o consumo quando há fábricas paradas; financiar a oferta quando a produção não acompanha a demanda.

 

Inverter a ordem é como acelerar o carro em ponto morto: gasta-se combustível, faz-se barulho, e o veículo não sai do lugar.

 

A dívida que alimenta a dívida

 

Os números mostram o motor roncando. A dívida bruta do governo, que fechou 2022 em 71,7% do PIB, chegou a 82,86% em agosto de 2026, mais de R$ 11 trilhões. O mercado já projeta que ultrapasse 90% em 2028.

 

E o peso maior do aumento recente não veio de obras nem de fábricas, mas dos próprios juros. No primeiro semestre, eles responderam pela maior parte da alta.

 

A dívida passou a se alimentar de si mesma.

 

As três faltas

 

Isso Lula não é capaz de corrigir. Faltam-lhe três coisas.

 

Falta-lhe nível intelectual próprio para alcançar a lógica da alternância. Seu repertório é o da distribuição imediata, que rende aplauso no curto prazo e conta a pagar no longo.

 

Falta-lhe equipe para corrigir o rumo. Ministros escolhidos pela fidelidade política, e não pela competência técnica, não corrigem o rumo do chefe. Reforçam-no.

 

Falta-lhe disciplina para seguir um programa. Governo que muda de meta conforme a pesquisa não tem programa. Tem reação.

 

Como complicador, possui uma extensa e intensa base de sustentação política com a cabeça num passado de enfrentamento ideológico: o empresário como adversário, o lucro como suspeita, o mercado como inimigo.

 

Essa base cobra gasto, não resultado. E nada produzirá de útil sem sustentação econômica, porque discurso não paga juros nem abre vaga de emprego.

 

A conta de todos

 

A desonestidade, quando existe, é caso de polícia. A incapacidade de escolher a alavanca certa é caso de nação.

 

A primeira se pune. A segunda se paga, por todos, inclusive pelos que nunca votaram nele.

 

Por isso, a fama de desonesto é o menor dos defeitos de Lula. O maior é governar um país que precisa produzir como se bastasse distribuir.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos

 

Fontes:

 

• Revista Oeste — dívida sob Lula.

• A Crítica — dívida em agosto de 2026.

• Times Brasil — projeção para 2028.

• SBT News — juros na alta da dívida.