A quem serve medir governos pelo PIB. Quem escolhe a régua?

 

Uma família vai ao banco pedir empréstimo. O gerente quer saber quanto entra por mês. Saber se os filhos estão bem alimentados ou na escola não é o centro daquela conversa.

 

É com uma régua semelhante que o sistema financeiro mede os governos. O PIB, valor dos bens e serviços finais produzidos pelo país, ajuda a indicar a base de onde o Estado tira os impostos para pagar o que deve.

 

O IDH reúne saúde, educação e renda. Ajuda a mostrar se a vida das pessoas melhorou. O  IDH não paga dívida mas agrada a quem vota.

 

A escolha da régua não é neutra. Quem empresta mede a capacidade de pagar. Quem vive mede a qualidade de vida e agradece.

 

Quando a preocupação do credor passa a comandar as escolhas da nação, a política econômica corre o risco de servir primeiro a quem tem dinheiro para emprestar.

 

E a pergunta que interessa a todos permanece: até onde o governo deve financiar o consumo? O PIB, sozinho, não responde.

 

O pêndulo da história

 

Durante décadas, ganhou força a tese de aliviar os impostos de quem tem capital, para que investisse, produzisse e, mais adiante, a riqueza chegasse aos demais. Essa orientação marcou os anos 1980, com Reagan nos Estados Unidos e Thatcher no Reino Unido.

 

A ideia de sustentar a demanda é mais antiga. Keynes, em 1936, já defendia a ação do Estado nas crises.

 

O debate não é novo. O pêndulo continua oscilando.

 

O teste da oferta

 

Pesquisadores da London School of Economics e do King’s College examinaram 18 países ricos entre 1965 e 2015. Estudaram os efeitos de grandes cortes de impostos para os mais ricos.

 

Nos cinco anos seguintes aos cortes, não encontraram efeitos significativos sobre o PIB por habitante ou o desemprego. A diferença apareceu na distribuição: a fatia do 1% mais rico na renda nacional aumentou.

 

Naqueles casos, a promessa de fazer a riqueza chegar aos demais não se confirmou. Isso não significa que toda política de incentivo à produção fracasse. Significa que aliviar impostos dos mais ricos não garante investimento, emprego e crescimento. (kclpure.kcl.ac.uk⁠)

 

A concentração mundial dá a dimensão do problema. Segundo o World Inequality Report 2026, os 10% mais ricos detêm três quartos da riqueza do planeta. A metade mais pobre fica com 2%. Esse retrato mostra a desigualdade, embora não prove, sozinho, suas causas. (wir2026.wid.world⁠)

 

Mas há outro caminho para ampliar a oferta: a infraestrutura.

 

Em estudo sobre economias avançadas, o FMI estimou que um aumento do investimento público equivalente a um ponto do PIB eleva a produção em cerca de 0,4% no mesmo ano e 1,5% quatro anos depois.

 

A obra bem escolhida pode gerar um retorno que justifique seu custo. O resultado depende do projeto, da execução e das condições da economia. Não basta gastar: é preciso construir o que faz falta. (imf.org⁠)

 

O teste da demanda

 

Do outro lado, um estudo do Ipea estimou quanto cada real adicional em transferências movimenta a economia.

 

No modelo, cada R$ 1 destinado ao Bolsa Família gera R$ 1,78 no PIB. Para os saques do FGTS, o valor é R$ 0,39. Nos regimes próprios de previdência dos servidores, R$ 0,53.

 

São estimativas daquele estudo, não retornos garantidos em qualquer momento. E aumento do PIB não significa que todo esse dinheiro volte ao caixa do governo. (ipea.gov.br⁠)

 

A explicação é simples. Quem tem pouco precisa gastar com o básico. O dinheiro vai para a feira, a farmácia e o mercadinho do bairro. Movimenta vendas, emprego e arrecadação.

 

Até entre os economistas do FMI essa discussão ganhou espaço. Um estudo publicado em 2014 encontrou pouca evidência de que a redistribuição, fora de casos extremos, prejudique o crescimento. Encontrou também uma relação entre menor desigualdade e crescimento mais duradouro. (elibrary.imf.org⁠)

 

O preço da demanda

 

Financiar consumo, porém, não é atalho garantido.

 

Quando o gasto cresce sem que a produção consiga acompanhar, parte do estímulo pode virar aumento de preços ou de importações. Se a dívida cresce sem capacidade de pagamento, a conta também chega.

 

É preciso cuidado ao atribuir crises inteiras a uma só causa. Inflação e recessão podem reunir erros de governo, juros, problemas de abastecimento, choques externos e perda de confiança.

 

O que decide não é apenas para quem vai o dinheiro. É também como o gasto é financiado e quanto consegue gerar de produção e de melhora na vida das pessoas.

 

Consumo que estimula produção pode alimentar a riqueza. Consumo sustentado por dívida crescente, sem retorno suficiente, compromete o futuro.

 

As duas curvas

 

Imagine dois adubos aplicados na mesma lavoura. O primeiro age rápido: a planta verdeja em semanas. O segundo age devagar, mas fortalece a raiz por anos.

 

Os dois têm dose certa. Abaixo dela, perde-se oportunidade. Acima dela, pode-se queimar a plantação.

 

Essa imagem ajuda a pensar o gasto público. Há estudos sobre a chamada curva de Armey, segundo a qual o gasto do governo favorece o crescimento até determinado ponto e, depois, pode passar a prejudicá-lo. Mas esse ponto depende do país, do período e do que se considera gasto. Não é uma medida única para qualquer orçamento.

 

Separando o apoio ao consumo e o investimento em obras, podemos imaginar duas curvas. O consumo costuma produzir efeitos mais rápidos. A infraestrutura leva tempo para ficar pronta, embora já movimente a economia durante a construção.

 

Depois de concluída, uma boa obra pode ampliar a capacidade de produzir por muitos anos.

 

No modelo ilustrativo proposto neste ensaio, o pico do consumo fica perto de 2% do PIB, e o da obra, perto de 4,4%. Esses valores são hipóteses de trabalho do autor. Os multiplicadores do Ipea e do FMI, sozinhos, não permitem calcular esses picos nem comprovar o formato das curvas.

 

O mesmo cuidado vale para a divisão de um orçamento de estímulo de 6% do PIB: dois terços para a infraestrutura  e um terço para a base seriam uma proposta a testar, não uma proporção já demonstrada.

 

A regra que merece ser examinada é simples: o próximo real deve ir para onde ainda oferece maior retorno econômico e social.

 

Se o apoio ao consumo encontra produção parada e necessidades urgentes, pode render muito. Se encontra fábricas no limite e falta de infraestrutura, ampliar a produção ganha importância.

 

Está aí um critério para responder à pergunta do título. O estímulo ao consumo deve ser revisto quando o real seguinte puder produzir mais benefício em outra aplicação. Isso não elimina a obrigação de proteger quem precisa.

 

A obra e as sobras

 

No Brasil, a taxa total de investimento ficou em 16,8% do PIB em 2025. Já os pagamentos federais destinados à infraestrutura de transporte corresponderam a 0,13% do PIB. (agenciadenoticias.ibge.gov.br⁠, cnnbrasil.com.br⁠)

 

São medidas diferentes. A primeira reúne investimento público e privado em toda a economia. A segunda trata apenas de uma parcela do investimento federal.

 

Não permitem calcular a dose ideal de consumo. Mas ajudam a mostrar o tamanho do desafio de ampliar o investimento.

 

A infraestrutura precisa de continuidade. Não pode viver apenas das sobras do orçamento.

 

Uma sugestão racional

 

A saída é dosar consumo e investimento com regras claras, à vista de todos. Quatro medidas ajudariam a organizar essa escolha.

 

Primeira, o cofre da base. Transferências concentradas nos mais pobres, acompanhadas de oportunidades de trabalho, qualificação e crédito produtivo. Para quem puder empreender, a formalização como MEI pode ser um caminho.

 

Segunda, o cofre da obra. Um piso permanente de investimento público, com aumento gradual. A meta proposta de chegar a 4% do PIB precisaria considerar União, estados e municípios, capacidade de execução e financiamento. Cada projeto deveria demonstrar que seus benefícios justificam seus custos.

 

Terceira, o cofre da crise. Estímulo amplo ao consumo quando houver sinais claros de necessidade, como desemprego alto e fábricas ociosas. Sempre com prazo e revisão dos resultados.

 

Quarta, a regra do credor honesto. Ao assumir novas dívidas, o governo deve mostrar o custo, a capacidade de pagamento e o retorno esperado. Deve publicar, ao lado do orçamento, os efeitos previstos sobre a produção e sobre a vida das pessoas.

 

A régua do PIB não é uma conspiração. Mede a atividade econômica e ajuda a avaliar a capacidade de pagar. O erro está em governar como se ela medisse tudo.

 

Uma nação precisa das duas. O PIB, para acompanhar a produção e a capacidade de pagamento. O IDH, para ajudar a saber se o esforço melhorou a vida.

 

Juntas, formam uma régua mais completa do desenvolvimento.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos

 

Fontes

 

1. FMI — Investimento público em infraestrutura, World Economic Outlook, outubro de 2014⁠.

2. Ipea — Neri, Vaz e Souza, Efeitos macroeconômicos do Programa Bolsa Família, 2013⁠.

3. Hope e Limberg — The Economic Consequences of Major Tax Cuts for the Rich⁠.

4. FMI — Ostry, Berg e Tsangarides, Redistribution, Inequality, and Growth, 2014⁠.

5. World Inequality Lab — World Inequality Report 2026⁠.

6. Coayla — The Optimal Size of Government and the Armey Curve: A Review of Empirical Evidence, 2021⁠.

7. CNN Brasil, com dados da CNT — Investimento federal em infraestrutura de transporte em 2025⁠.

8. IBGE — Contas nacionais de 2025 e taxa de investimento⁠.

9. Duas curvas e divisão do orçamento de estímulo: proposta ilustrativa do autor, ainda dependente de demonstração e teste.