O cofre que ninguém fecha

 

Em gargalhadas, Lula comemora. Pela primeira vez desde a redemocratização, um candidato à Presidência terminou o primeiro turno em segundo lugar e venceu o segundo. Os números do TSE são frios: 64,26 milhões de votos contra 59,83 milhões. Diferença de 4,43 milhões.

 

Do outro lado, a direita procura a explicação no lugar errado. Flávio Bolsonaro anunciou que pedirá a anulação do pleito por causa da prorrogação do horário de votação, decidida pelo ministro Cristiano Zanin. A discussão seguirá para os tribunais. E aí?

 

A aritmética responde. Segundo levantamento com dados do TSE, apenas 34,3 mil votos foram registrados depois das 17h. Até o autor sabe disso. Menos de 1% da diferença entre os candidatos. Mesmo que todos fossem para Lula, não mudariam o vencedor.

 

O roubo deixa rastro

 

Uma acusação de fraude precisa de provas. A esperteza política pode seguir outro caminho: aproveitar o que a lei permite, sem o cuidado ético que deveria acompanhar o uso do dinheiro público.

 

Minha explicação para a virada está à vista de todos: o pacote de bondades.

 

O Poder360 reuniu medidas que já somam R$ 411,2 bilhões. A conta inclui benefícios, crédito e redução de impostos. Não significa que todo esse dinheiro tenha saído do Tesouro ou chegado ao bolso do eleitor. A Secom contestou o cálculo e lembrou que parte dos programas já existia.

 

A ressalva precisa ser feita. Mas permanece a questão política: quanto essas medidas pesaram na escolha do eleitor?

 

Isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil. Gás do Povo. Luz do Povo. Renegociação de dívidas. São benefícios que entram na vida das famílias e levam consigo a marca de quem governa.

 

Não é possível medir, apenas pelo resultado, quantos votos vieram daí. Na minha leitura, porém, é nesse terreno que a direita deveria procurar a explicação.

 

A porta que interessa a todos

 

Procurar fraude sem provas não explica a derrota. E limitar o uso eleitoral do Tesouro parece não despertar o mesmo entusiasmo de quem disputa o poder.

 

Em 2022, foi Bolsonaro quem abriu o cofre às vésperas da eleição: Auxílio Brasil de R$ 600 e corte de impostos sobre combustíveis. O PT acusou o uso da máquina pública. Em 2026, os papéis se inverteram, e as acusações também.

 

Direita e esquerda guardam um ponto em comum: deixar a porta do cofre aberta para aproveitá-lo quando chegar sua vez de estar de plantão.

 

O espantalho

 

Enquanto isso, parte da direita insiste em assustar o eleitor com o risco de um regime comunista. Lula, esperto, não precisa seguir esse caminho. Sua força eleitoral está na distribuição de benefícios dentro da economia que existe.

 

O medo do comunismo não bastou. Na minha leitura, o adversário era o caixa do Tesouro, usado na hora certa.

 

A lição para a direita não está na sala-cofre do TSE. Está no cofre do Tesouro.

 

A lei já impõe restrições em ano eleitoral. O que precisa ser discutido é se esses limites bastam, como são fiscalizados e quais brechas continuam abertas. Fechá-las exige uma disposição que os dois lados só demonstram com mais facilidade quando estão na oposição.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos

 

Fontes conferidas:

 

• TSE: resultado final — 64.256.232 votos para Lula e 59.826.041 para Flávio. (tse.jus.br⁠)

• Band: primeira virada entre turnos em uma eleição presidencial brasileira. (band.com.br⁠)

• Jornal de Brasília: levantamento dos 34,3 mil votos registrados após as 17h e anúncio da contestação de Flávio. (jornaldebrasilia.com.br⁠)

• Poder360: levantamento de R$ 411,2 bilhões e contestação da Secom. (poder360.com.br⁠)

• TSE: Lei das Eleições, artigo 73 — restrições à distribuição de benefícios em ano eleitoral. (tse.jus.br⁠)