Quem tirou a régua da mesa?

Toda sociedade precisa de uma régua. Não uma régua de madeira, mas um padrão comum que diga o que é aceitável, o que é tolerável e o que não se admite.

 

Quando a régua é clara, a convivência flui. Quando ela some, cada um passa a medir o mundo com a própria trena, e o conflito vira rotina.

 

O Brasil das últimas décadas assistiu a uma troca de réguas sem que ninguém anunciasse à obra.

 

No passado, a autoridade se impunha pela firmeza, muitas vezes pela intolerância. O professor, o pai, o delegado e o chefe eram obedecidos sem muita discussão.

 

A ordem era visível, mas tinha custo. Abusos, silêncio imposto, medo. Por isso, essa forma de autoridade foi combatida durante gerações.

 

O combate venceu. E, como costuma acontecer, passou do ponto.

 

No presente, a tolerância excessiva tomou o lugar do padrão. O que nasceu como respeito ao indivíduo passou a ser visto, por muitos, como omissão diante do erro e proteção a quem descumpre as regras.

 

A autoridade que antes pesava demais agora parece não pesar nada.

 

É o movimento do pêndulo. A sociedade sai de um extremo e corre para o outro, sem parar no meio. As normas perdem força, e ninguém sabe ao certo o que ainda vale. Falta a régua.

 

Quem estranha

 

Os primeiros a sentir a mudança são os idosos. Formados sob o padrão antigo, medem o presente com a régua do passado e concluem que tudo afrouxou.

 

A sensação tem fundamento, embora a memória costume guardar a ordem e esquecer o preço que se pagava por ela.

 

O mesmo estranhamento aparece no interior. Na cidade pequena, todos se conhecem, a reputação vale muito e a vida depende de cooperação. Ali, uma régua firme e comum ajuda a convivência a funcionar.

 

Na cidade grande, a lógica é outra. O anonimato e o convívio diário com pessoas de costumes diferentes exigem maior tolerância. A régua fica mais flexível porque precisa.

 

Cada régua, portanto, é uma adaptação ao seu ambiente. Essa diferença, por si só, não é um desvio moral.

 

O conflito

 

O problema surge quando as réguas se encontram. Uma parte da sociedade dá mais peso à ordem, à autoridade e à tradição. Outra dá mais peso à proteção dos vulneráveis e à liberdade individual.

 

Diante do mesmo fato, uma enxerga desordem; a outra, justiça.

 

É nessa fronteira que se instala boa parte do embate entre conservadores e progressistas. Não se trata de tolerantes contra intolerantes. Cada lado tem seus limites, só que em lugares diferentes.

 

Um cobra mais firmeza contra a desordem e o crime. O outro, contra a discriminação. Isso não significa que essas preocupações sejam exclusivas de um lado.

 

Sem uma medida aceita por ambos, cada um acusa o outro de excesso. Um vê autoritarismo. O outro, tolerância demais. E o debate vira disputa sobre quem fica com a régua, não sobre qual ela deve ser.

 

A lição da engenharia

 

A engenharia oferece uma saída simples. Em qualquer peça, tolerância não é ausência de limite. É a variação permitida em torno de uma medida.

 

Um eixo de 50 milímetros, com tolerância de dois décimos para mais ou para menos, pode ter 49,8 ou 50,2, mas nunca 55. Sem a medida de referência, a palavra tolerância perde o sentido.

 

Numa obra, as regras gerais e as especificações próprias se completam. Os ajustes ao terreno não dispensam os cuidados comuns.

 

Na sociedade, o princípio é claro. Deve existir um núcleo comum, mínimo e inegociável. A lei, a segurança, o respeito à pessoa, o cumprimento da palavra.

 

Esse núcleo vale no interior e na capital, para o jovem e para o idoso, e deve ser aplicado com firmeza.

 

Firmeza, aliás, não é dureza. Não basta ameaçar com punição severa. É preciso que o erro tenha consequência. O vício do passado foi a mão pesada. O do presente é a mão que não chega.

 

Fora do núcleo, liberdade. Costumes, modos de vida e valores pessoais ficam para cada pessoa, família e comunidade, respeitados os direitos dos demais.

 

O equilíbrio não está no meio do pêndulo. Está na régua.

 

O padrão antigo tinha régua e mão pesada. O moderno tem mão mais leve, mas parece perder a medida. A evolução social que vale a pena é a que preserva a medida e ajusta a tolerância.

 

Firmeza no núcleo, tolerância nas bordas.

 

Newsletter Rui Guerra

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