Sem manual nem academia, as virtudes das mentiras diplomáticas

 

Imagine um mundo em que a sinceridade fosse regra entre governos. Cada telegrama seria um ultimato. Cada recepção oficial, um acerto de contas. Conflitos nasceriam de verdades ditas na hora errada. Soluções morreriam antes de ser tentadas.

 

A diplomacia sabe disso há séculos. No início do século XVII, o inglês Henry Wotton definiu o embaixador como um homem honesto enviado ao estrangeiro para mentir pelo bem de seu país.

 

A frase virou piada de salão, mas ajuda a entender o ofício. Não se trata de enganar por vício. Trata-se de evitar que a verdade, dita na hora errada, faça mais estrago que o fato que ela revela.

 

Nenhum manual ensina isso por inteiro. Aprende-se no exercício, como se aprende a calar numa reunião de família.

 

O caso Flávio Bolsonaro serve de exemplo. Derrotado no segundo turno, com o passaporte retido por ordem do STF, o senador deixou o país pela fronteira argentina e desembarcou com a família em Miami.

 

É difícil imaginar uma saída assim sem ajuda. A imprensa internacional atribui a travessia a apoios americanos e argentinos. O New York Times chegou a afirmar que integrantes do governo Trump colaboraram para viabilizar sua entrada nos Estados Unidos.

 

Agora, observe o que cada um diz.

 

O Itamaraty convocou a encarregada de negócios da Argentina para “prestar esclarecimentos”. Uma fonte diplomática brasileira tratou o gesto como procedimento de praxe.

 

O chanceler argentino, Pablo Quirno, respondeu que era falso. Segundo ele, não houve pedido algum de explicação. O chefe de gabinete de Milei limitou-se a dizer que não havia impedimentos da Interpol.

 

Trump chamou a eleição brasileira de “desgraça”, mas não endossou a pretensão de Flávio. O próprio senador declarou que decidiu tudo com a esposa, sem que ninguém soubesse. E pediu que ninguém fosse responsabilizado.

 

Todos dizem algo. Ninguém diz tudo. E é isso que ajuda a manter as embaixadas abertas.

 

Se a ajuda estrangeira fosse confirmada oficialmente, o Brasil seria pressionado a reagir. Poderia expulsar diplomatas, suspender acordos ou levar o caso a fóruns internacionais.

 

Argentina e Estados Unidos teriam de explicar, em público, sua participação num episódio que envolve uma decisão da Justiça brasileira. O Mercosul, já abalado pela relação azeda entre Lula e Milei, ganharia mais uma rachadura. O comércio poderia pagar a conta, como tantas vezes paga.

 

Com as negativas, o episódio entra na gaveta das versões. O tempo faz o resto.

 

Daqui a alguns meses, a soja continuará cruzando fronteiras. Os aviões continuarão pousando. E os chanceleres trocarão sorrisos em alguma reunião, como se nada tivesse acontecido.

 

Isso é cinismo? Em parte. Mas é um cinismo útil. A mentira diplomática não apaga o fato. Pode, porém, impedir que ele provoque um conflito maior. Ela compra o que mais falta numa crise entre países. Tempo para esfriar.

 

Há uma diferença entre a mentira do político e a do diplomata. A primeira costuma buscar votos e enganar o próprio povo. A segunda pode buscar a paz e enganar, se é que engana, quem já sabe a verdade.

 

Nesses casos, os envolvidos conhecem os fatos. O que evitam é reconhecê-los em público e assumir as consequências desse reconhecimento.

 

A sinceridade é virtude entre pessoas. Entre nações, também é preciso saber o que não dizer. Os países que entenderam isso discordam sem romper. Os que não entenderam costumam aprender da pior forma.

 

Newsletter Rui Guerra

A arquitetura dos fatos

 

Fontes indicadas no texto original

O Povo — Trump e Milei enfrentam pressão

Jornal de Brasília

Jornal GGN

Diario de Pernambuco

JN