A terra não é patrimônio; é sobrenome
O negociante e o homem da terra
Há quem compre uma fazenda como se compra um apartamento. Olha o preço, calcula o retorno e, na primeira boa oferta, vende. Esse é um investidor que enxergou no campo uma forma transitória de fazer lucro. Não é do agro.
Quem pertence ao agro não faz essa conta. A pergunta “por quanto venderia?” soa como “por quanto venderia o próprio pai?”. Não há resposta, porque não há preço.
Mais que renda
A terra dá muitas formas de ganho. A lavoura, a pecuária, a madeira, a água, a energia, o arrendamento, a criação miúda que segura o mês difícil. Quem vive dela raramente procura emprego fora. A terra é o patrão, o escritório e a poupança.
É também o lazer. O fim de semana não é na praia ou no shopping. É na beira do rio, no remate, na exposição, na vaquejada, no curral, na cavalgada com os filhos. O descanso acontece no mesmo lugar do trabalho, e ninguém sente falta de outro.
Um pedaço de si
Cada bica, cada árvore tem uma história. Aquela foi o avô quem levantou. O pé de manga foi plantado no nascimento do primeiro filho. A casa-sede guarda as fotografias, os arreios, o cheiro da cozinha da mãe.
Com o tempo, o verdadeiro homem do campo deixa de distinguir onde termina ele e onde começa a terra. Ela é a extensão da família, o retrato do passado e a promessa feita aos netos.
Vender, nesse contexto, não é fechar um negócio. É negar a própria história. É dizer ao avô que o esforço dele valia menos que um cheque.
Se não vende, que dirá perder
Se a simples venda já soa como traição, a perda forçada tem outro peso. Ter a terra invadida, tomada ou destruída não é prejuízo financeiro. É amputação.
Quem tenta compreender o agro apenas pelos números da safra não entende por que o produtor reage com tanta firmeza quando sua propriedade é ameaçada. Não está defendendo um ativo. Está defendendo o nome da família.
A história confirma
Não se trata de sentimentalismo. Os registros mostram que, onde a terra foi tomada, a reação veio, e o preço foi alto para todos.
No Brasil, a Guerra do Contestado (1912–1916), na divisa entre Paraná e Santa Catarina, nasceu da terra subtraída. Para construir a ferrovia São Paulo-Rio Grande, o governo cedeu à Brazil Railway, do americano Percival Farquhar, até 15 quilômetros de cada lado dos trilhos.
As terras foram declaradas devolutas, mas eram ocupadas havia gerações por caboclos sem título. Expulsos, eles pegaram em armas. Foram quase quatro anos de combate e milhares de mortos, num dos conflitos mais sangrentos da história do país.
Na Irlanda do século XIX, as expulsões de arrendatários deram origem à chamada Guerra da Terra (1879–1882). Dela saiu uma palavra que o mundo usa até hoje.
Em 1880, a comunidade isolou completamente o administrador de terras Charles Boycott, que despejava famílias. Nascia o “boicote”.
Na União Soviética, a coletivização forçada de Stalin, no início dos anos 1930, tirou a terra dos camponeses. Muitos preferiram abater o próprio gado a entregá-lo ao Estado, e os rebanhos caíram drasticamente. O desfecho foi fome em massa.
No Zimbábue, a partir de 2000, o governo de Robert Mugabe expulsou, muitas vezes com violência, cerca de 4.500 agricultores comerciais de suas fazendas. A produção desabou, o país mergulhou em crise e hiperinflação.
Vinte anos depois, o próprio Estado assinou um acordo para pagar US$ 3,5 bilhões em indenizações que ainda não consegue honrar.
Pequenos ou grandes, com ou sem escritura, todos reagiram da mesma forma. A terra é defendida como se defende a família.
Um estilo de vida
O agro é negócio, e dos mais importantes do país. Mas, para quem o vive, é antes um modo de existir. Acordar com o dia, depender do céu, saber o nome de cada animal, sofrer com a seca do vizinho.
Há nisso algo de devoção. O produtor serve à terra como o fiel serve ao altar, com rotina, sacrifício e uma fé que não se explica a quem nunca a sentiu.
A lição para quem governa
Por isso, toda política que trata a terra apenas como mercadoria, ou que admite tirá-la de quem a cultiva sem o devido respeito à lei e à história, comete uma estupidez de leitura.
Para quem é do agro, retirar-lhe a terra é uma declaração definitiva de guerra. Não porque deseje o conflito, mas porque não há recuo possível para quem já não sabe viver sem ela.
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