Um banco cresce depressa. Recebe dinheiro público. Aproxima-se do poder. Quando os problemas aparecem, o dinheiro dos trabalhadores está lá dentro.
A renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña, em 5 de novembro de 2026, trouxe esse roteiro de volta. O colapso do Ueno Bank expôs um crescimento acelerado, acompanhado por relações que colocam em dúvida a independência de quem deveria fiscalizá-lo.
No Brasil, o Banco Master deixou uma história parecida. O Paraguai não precisa ter copiado ninguém para repetir a fórmula.
O banco cresce, o poder se aproxima
O Ueno nasceu de uma financeira e, em poucos anos, chegou a cerca de 2,9 milhões de clientes. Isso representa perto de 60% dos adultos do Paraguai. Em depósitos, porém, era o quinto banco privado, com 8,9% do total.
Guardava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. Desse dinheiro, entre US$ 345 milhões e US$ 380 milhões pertenciam ao Instituto de Previsión Social, o IPS.
É aí que a relação com o poder merece atenção.
Peña teve 1,58% da Ueno Holding até 2025. O banco afirma que ele nunca foi acionista da instituição bancária. Ao assumir a Presidência, em 2023, Peña nomeou Carlos Carvallo para comandar o Banco Central do Paraguai. Carvallo vinha da presidência do próprio Ueno.
Quem dirigia o banco passou a dirigir o órgão encarregado de fiscalizá-lo.
Segundo o Banco Central paraguaio e o Ministério Público, o Ueno emprestava acima dos limites legais a empresas ligadas ao grupo controlador. Também teria simulado a venda de US$ 74,4 milhões em carteiras de crédito, usando dinheiro do próprio caixa para financiar a operação.
Os 27 acusados não têm condenação. A direção do banco negou o financiamento indireto a empresas vinculadas.
Depois dos ajustes nos balanços, o índice de solvência, que mede a capacidade de suportar perdas, ficou em 5,56%. O mínimo legal era de 12%.
A renúncia de Peña veio quando o Partido Colorado, liderado por Horacio Cartes, anunciou apoio ao processo de destituição. A oposição suspeita que a saída tenha como objetivo assegurar a Peña o foro de senador vitalício.
Quem fiscalizava?
Foi o próprio Banco Central do Paraguai quem fechou o Ueno e o denunciou à Justiça. A dúvida é por que demorou.
Em junho, a Superintendência de Bancos notificou o excesso de empréstimos a empresas ligadas ao grupo. Depois, o Banco Central informou ao Senado que o problema havia sido corrigido no prazo. Por isso, não exigiu plano de regularização nem aplicou sanção.
Segundo a denúncia apresentada à Justiça, a suposta correção veio justamente da venda de créditos à Vinanzas, financiada pelo próprio Ueno.
Em julho, Fernando Rivarola, então gerente de Supervisão, recomendou desconsiderar a operação e exigir a regularização do banco. De acordo com a denúncia, suas observações não chegaram à diretoria do Banco Central.
Em agosto, ainda segundo o documento, a área técnica classificou a venda como “operação proibida”.
Enquanto isso, o banco continuava captando dinheiro. A denúncia menciona campanhas de reembolso de até 50% em outubro e novembro, sem medida conhecida do supervisor.
Carvallo atribuiu o silêncio ao dever legal de sigilo.
Pode ser. Mas o sigilo não resolve o problema da confiança. Quem saiu do comando do banco fiscalizado para presidir o órgão fiscalizador precisa explicar como garantiu a independência da fiscalização.
A fórmula conhecida no Brasil
As dimensões e as regras são diferentes. Mesmo assim, o caso paraguaio lembra o Banco Master, liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, na mesma ocasião da prisão de Daniel Vorcaro.
A primeira semelhança está no dinheiro previdenciário.
No Paraguai, recursos do IPS, que atende trabalhadores do setor privado, ficaram presos no Ueno. O instituto garante que as aposentadorias serão pagas.
No Brasil, 18 regimes próprios de previdência aplicaram R$ 1,867 bilhão no Master. Diante dos R$ 63 bilhões em ativos do banco, pode parecer pouco. Para quem entregou suas reservas, não é.
O Maceió Previdência aplicou cerca de R$ 97 milhões. Foi o terceiro maior volume do país.
A segunda semelhança está na velocidade do crescimento.
O Master, antigo Banco Máxima, expandiu-se comprando instituições como Vipal, Voiter e will bank. O Ueno passou de financeira a banco de massa e incorporou o Visión Banco.
Crescer depressa, por si só, não prova irregularidade. Mas exige fiscalização capaz de acompanhar o crescimento.
A terceira semelhança está na contabilidade sob suspeita.
No Ueno, o Ministério Público aponta uma venda simulada de créditos a uma empresa ligada ao grupo. No Master, o Banco Central identificou indícios de que R$ 12,2 bilhões em carteiras vendidas ao BRB, banco público de Brasília, simplesmente não existiam.
Também há perguntas sobre a fiscalização brasileira.
Um relatório da Polícia Federal aponta que um ex-chefe adjunto da supervisão bancária do Banco Central prestou consultoria a Vorcaro na compra do Voiter. É uma relação que precisa ser esclarecida.
A tecnologia não substitui a fiscalização
Um aplicativo moderno facilita a vida do cliente. Não garante a saúde do banco.
Sem administração responsável e fiscalização independente, a novidade pode apenas dar aparência moderna a práticas antigas. O dinheiro entra, o banco cresce e o problema só aparece quando já alcançou a poupança de muita gente.
As autoridades paraguaias descrevem o caso como isolado. O restante do sistema bancário funciona normalmente.
Ainda assim, o dólar subiu quase 9% em uma semana. Não há confirmação de que o Ueno tenha sido a única causa. Mas o abalo na confiança é evidente.
O Paraguai tenta se reorganizar em torno de Pedro Alliana, que escapou do processo de destituição por 48 votos a 30 e deve assumir um país abalado pela crise.
O problema vai além de substituir o presidente. É preciso saber por que os avisos não produziram providências a tempo e como o dinheiro público ficou tão exposto.
O Brasil conhece essas perguntas. Maceió também.
Newsletter Rui Guerra
A arquitetura dos fatos
