A falta de água que interrompe aulas, o racismo enfrentado no ambiente escolar e as algas que se acumulam nas praias de Alagoas têm algo em comum: tornaram-se objetos de pesquisas científicas desenvolvidas por estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Partindo de problemas e situações do cotidiano, os alunos investigam alternativas para dificuldades que atingem suas comunidades e levam à ciência questões que vão além dos conteúdos tradicionais da sala de aula.
Em Santa Luzia do Norte, na Região Metropolitana de Maceió, as dificuldades no abastecimento de água chegaram a comprometer o funcionamento das atividades escolares. O problema, enfrentado pelos próprios estudantes, acabou se tornando o ponto de partida para uma pesquisa que pretende desenvolver uma alternativa de tratamento de água salobra.
“Por variados episódios, tivemos que interromper nossas atividades educacionais por causa da falta de água”, relataram os alunos. A experiência deu origem ao projeto “O Poder da Dessalinização para o Futuro Hídrico de Alagoas”, desenvolvido sob orientação da professora Regina Acácia.
A proposta consiste na criação de um sistema portátil capaz de reduzir a concentração de sais presentes na água, utilizando materiais filtrantes e uma membrana semipermeável.
O processo começa com a passagem da água por camadas de brita, areia, algodão e carvão ativado. Em seguida, uma bomba de diafragma conduz o líquido até a membrana responsável pela separação dos sais dissolvidos.
A tecnologia, no entanto, ainda está em desenvolvimento. Segundo a professora, mesmo após a redução da salinidade, a água precisará passar por tratamento e controle microbiológico antes de ser considerada própria para consumo humano.
Um dos principais obstáculos enfrentados pelos estudantes é justamente o desenvolvimento da membrana semipermeável. Para avançar nessa etapa, o grupo busca recursos por meio do prêmio InovaEdu.
A pesquisa também chama atenção para um problema que não se restringe ao Sertão alagoano. Embora a escassez hídrica seja historicamente associada ao semiárido, dificuldades de abastecimento também atingem municípios de outras regiões do estado, como demonstra a experiência relatada pelos estudantes de Santa Luzia do Norte.
A expectativa dos pesquisadores é que, futuramente, o sistema possa ser utilizado em comunidades com dificuldades de acesso à água e tenha possibilidade de aplicação em outros estados.
“A ideia é fortalecer os métodos de tratamento da água e sua purificação, com a tecnologia de dessalinização, podendo expandir a economia de Alagoas, mitigando essas chagas profundas que permeiam a vida dos alagoanos”, destacou Regina.
Em Branquinha, arte e memória são usadas no combate ao racismo
Em Branquinha, na Zona da Mata alagoana, a pesquisa científica ganhou outro caminho: a valorização da cultura afro-brasileira e a discussão sobre o racismo a partir das experiências dos próprios estudantes.
Na Escola Municipal Diógenes Batista, alunos da Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJA) participaram do projeto “Território: Cultura, Arte e Antirracismo”, desenvolvido pelas educadoras Solange Vital, Josicleide Gomes, Maria Daniele, Josefa Alves e Maria Cícera Vital.
O trabalho começou com a escuta da comunidade escolar. A partir dos relatos dos estudantes, as professoras identificaram questões presentes no cotidiano e desenvolveram atividades que relacionam o conteúdo trabalhado em sala de aula à história e às manifestações culturais da região.
Uma das principais referências escolhidas foi Mestra Dona Irinéia, artista popular alagoana reconhecida por suas esculturas em barro e moradora da Quilombo Muquém, em União dos Palmares.
Durante a pesquisa, os estudantes conheceram a trajetória da artesã, suas técnicas de produção e os significados de suas obras. As atividades também abriram espaço para discutir a presença negra na arte e a importância dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
“Dona Irinéia foi a principal referência e símbolo do projeto, sua história de vida e obras enriqueceram a compreensão da cultura regional, ampliando o repertório cultural dos estudantes e reforçando a importância dos saberes tradicionais como patrimônio vivo da comunidade”, contou Solange.
Além de estudar a produção artística de Dona Irinéia, os alunos confeccionaram miniaturas inspiradas em suas esculturas, incluindo a obra “O Beijo”. O trabalho permitiu abordar elementos da identidade negra presentes nas representações artísticas e discutir a valorização da cultura regional.
Para as educadoras, a participação em eventos científicos também representa uma oportunidade de inserir estudantes da EJA em espaços de produção e divulgação científica.
“Esses eventos possibilitam o intercâmbio de experiências, fortalecem a valorização da diversidade cultural e incentivam a construção de práticas pedagógicas inclusivas, antirracistas e contextualizadas”, afirmou Solange.
Algas nas praias viram tema de pesquisa ambiental
Uma dúvida surgida durante uma visita à praia também se transformou em projeto científico em Alagoas.
Ao observar o material acumulado na faixa de areia, um estudante de Ciências Biológicas questionou se aquilo que estava vendo era lixo ou sargaço, um tipo de alga marinha.
A pergunta deu origem ao projeto “Alga Não É Lixo”, desenvolvido por um grupo de universitários com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre esses organismos e combater a percepção de que toda alga encontrada na praia representa sujeira.
A pesquisa aborda as características, propriedades e funções das algas nos ecossistemas, além de sua presença em diferentes atividades do cotidiano.
O trabalho também destaca a necessidade de compreender os processos naturais do ambiente costeiro antes de classificar como lixo materiais que fazem parte da dinâmica marinha.
A iniciativa busca mostrar que a presença de algas nas praias não deve ser analisada apenas pela aparência, mas também por sua função ambiental.
Ciência a partir da realidade
Apesar de abordarem temas diferentes, os três projetos serão apresentados na 23ª Semana Institucional de Pesquisa, Tecnologia e Inovação na Educação Básica (Sinpete), que segue até esta sexta-feira (30) no Campus A.C. Simões da Ufal em Maceió.
A Sinpete têm em comum a utilização de experiências do cotidiano como ponto de partida para a investigação científica.
Em Santa Luzia do Norte, a interrupção das aulas por falta de água motivou a busca por uma alternativa de tratamento. Em Branquinha, a arte e a memória cultural se tornaram instrumentos para discutir o racismo. Já nas praias alagoanas, uma dúvida sobre a presença de algas abriu caminho para uma pesquisa sobre o meio ambiente.
Os trabalhos ainda apresentam objetivos e estágios distintos, mas demonstram como problemas vividos ou observados por estudantes podem se transformar em questões de pesquisa.
Ao reunir essas experiências, a Sinpete dá visibilidade à produção científica desenvolvida em Alagoas e ao papel de estudantes e professores na investigação de desafios que fazem parte da realidade da população.
*Estagiária sob supervisão da editoria
