A quantidade de calor acumulada nas profundezas dos oceanos atingiu os maiores patamares já registrados pela ciência global, em um processo de estocagem de energia que vem se acelerando nas últimas décadas e transformando a dinâmica do clima no planeta.  

Em Alagoas, esse fenômeno invisível a olho nu atua como o grande motor de uma engrenagem que reverbera do litoral ao semiárido: altera o regime de chuvas, coloca recifes de corais em risco de colapso, exige respostas institucionais inéditas da gestão urbana e reescreve a rotina diária de quem vive do trabalho na terra e no asfalto.

Na linha de frente da pesquisa científica alagoana, o professor e oceanógrafo Robson Santos, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), aponta que a energia retida nas camadas oceânicas é o fator determinante para o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos.

Professor e pesquisador da Ufal, Robson Santos. Foto: Arquivo Pessoal/CadaMinuto

 

"Em 2025, a quantidade de calor acumulada nos oceanos globais atingiu o nível mais alto desde o início dos registros. Para Alagoas, essa tendência é extremamente preocupante porque pode influenciar diretamente as condições que favorecem eventos climáticos extremos, desde secas severas até alterações no comportamento do Atlântico”, explicou o professor.

Ainda segundo ele, a ocorrência e a intensidade desses eventos no nosso estado também dependem de fatores regionais que precisamos acompanhar continuamente.

O cientista alerta para a dupla ameaça que ronda o estado quando o aquecimento dos oceanos se soma aos efeitos do fenômeno El Niño: a acentuação do estresse hídrico no interior e a pressão ecológica devastadora sobre a faixa litorânea.

"De fato, temos uma previsão de menos chuvas e maiores temperaturas que podem contribuir para o agravamento das secas na região Nordeste", destaca Robson.

No ambiente marinho, o diagnóstico do professor da UFAL é ainda mais alarmante no que tange à biodiversidade costeira e aos ecossistemas recifais de Alagoas:

"Estamos muito apreensivos com os potenciais efeitos dessa onda de calor marinha. Especialmente porque estamos vindo do evento de mortalidade de corais mais forte já registrado em nosso estado. Existe uma possibilidade real de enfrentarmos mais um evento de branqueamento e mortalidade em massa, mas desta vez atingindo um recife que já se encontra profundamente fragilizado", adverte o pesquisador.

Por que Alagoas perde chuvas?

Para compreender como essa supercarga térmica oceânica se traduz na escassez de água no solo alagoano, as análises meteorológicas da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh) detalham o funcionamento da engrenagem atmosférica.

Conforme explicou ao CadaMinuto em entrevista em maio deste ano, o meteorologista Vinicius Pinho, da Semarh, o aquecimento anormal das águas altera a circulação de ventos e desvia o transporte de umidade que normalmente viria da Bacia Amazônica. Com o fluxo umedecido direcionado prioritariamente para a Região Sul do Brasil, o Nordeste perde o "combustível" essencial para a formação de nuvens pluviométricas de grande porte.

Estudos técnicos da Semarh indicam um parâmetro severo para a realidade local: a cada elevação de 1°C na temperatura média das águas do Pacífico Equatorial, Alagoas pode registrar uma redução de aproximadamente 7% no volume total de precipitações.  

O cenário se torna crítico porque o período chuvoso concentrado é responsável por mais de 70% da recarga hídrica anual dos reservatórios, rios e lençóis freáticos do estado. Quando essa janela de recarga falha, o período seco subsequente impõe um teste drástico de sobrevivência para o abastecimento e a agricultura.

No Agreste e no Sertão, essa irregularidade de precipitações desorganiza o calendário de plantio e colheita. O professor Cícero Adriano, do campus da UFAL em Arapiraca, pondera que a distribuição desuniforme da pouca água que cai compromete a fase fenológica das plantas.  

Professor Cícero Adriano, especialista em desenvolvimento rural e sustentabilidade da UFAL em Arapiraca. Crédito: Cortesia ao CadaMinuto

 

O resultado é a queda da produtividade em culturas de sequeiro e na pecuária, gerando um efeito dominó que encarece produtos básicos da cesta básica do alagoano, como o feijão, o milho, a carne e o ovo.

Filtro biológico e a luta contra a seca em Jequiá da Praia

Enquanto os dados científicos mapeiam os índices de evaporação, no chão do campo a crise climática é sentida no suor e na pele. Aos 55 anos de idade, dos quais 45 foram dedicados integralmente à lida rural, o agricultor José Ulisses, morador do município de Jequiá da Praia, enfrenta o período mais severo de sua trajetória na agricultura familiar.

Em sua pequena propriedade, onde cultiva feijão, milho, macaxeira, inhame e batata, seu José Ulisses percebeu que a radiação solar atingiu patamares agressivos nos últimos meses.

"O sol está muito mais quente, não basta apenas cobrir com uma camisa para se proteger", conta o agricultor, que passou a notar manchas na pele devido à exposição prolongada ao mormaço. Para aliviar as queimaduras e o ressecamento do corpo, ele recorre ao extrato da babosa que ele mesmo cultiva no seu quintal.

Na lavoura, os prejuízos já são uma realidade concreta. A produção de feijão ressecou completamente no pé, mesmo com os esforços manuais de irrigação. Paralelamente, seu José Ulisses observou a diminuição drástica na vazão da nascente do riacho que corta as proximidades de sua terra, fruto da evaporação acelerada pelo calor extremo.

Sem querer abandonar a terra, o agricultor buscou orientação técnica e desenvolveu mecanismos de convivência com a seca: implantou um sistema de filtro biológico em sua propriedade para tratar e reutilizar a "água cinza", o efluente descartado nas pias de casa.  

Após passar pelo processo de filtragem natural, a água é redirecionada para irrigar as culturas, garantindo a sobrevivência do plantio e economizando os escassos recursos hídricos do local.

O asfalto fervendo e a adaptação do ambulante

A centenas de quilômetros do campo, no litoral da capital, o estresse térmico reconfigura a economia informal e a rotina de quem trabalha ao ar livre. Na orla marítima de Maceió, o pipoqueiro Rubens vivencia diariamente os efeitos da radiação que se acumula no pavimento e no ar.

O calor que emana do asfalto tornou inviável a jornada de trabalho no início da tarde.

"Antes eu chegava para trabalhar na orla por volta de 1 hora da tarde. Hoje em dia, só consigo encostar o carrinho por volta das 4 horas da tarde, quando o sol dá uma trégua e fica mais brando", relata Rubens.

O trabalhador relata que o mormaço que sobe da pista causa uma sensação de esgotamento físico muito superior à de anos anteriores. Ele exemplifica a temperatura extrema com uma cena do cotidiano: ao lavar a panela do carrinho e jogar a água na pista, o líquido evapora quase que instantaneamente ao tocar o asfalto aquecido.

Além do impacto físico, o produto principal do seu sustento sofreu queda de demanda. "A pipoca é um alimento que já causa calor no corpo, e com esse calorão excessivo o pessoal diminui muito o consumo", explica. Para não ver a renda familiar despencar, Rubens aplicou uma estratégia rápida de adaptação comercial: introduziu a venda de água mineral gelada no carrinho de pipoca. A procura por hidratação virou o grande motor do seu negócio, equilibrando as perdas do alimento quente com o lucro da venda de água para turistas e moradores que caminham pela praia.

O protocolo de altas temperaturas da Defesa Civil

Diante desse cenário onde o calor deixa de ser apenas um incômodo meteorológico e passa a oferecer risco iminente à saúde pública, a Defesa Civil de Maceió incorporou formalmente o risco térmico à sua matriz de gestão de desastres com o lançamento do Protocolo de Altas Temperaturas.

A iniciativa utiliza a estrutura do Plano Municipal de Ações Integradas para Prevenção e Alerta de Riscos e Desastres (PREVINE) e estabelece cinco níveis operacionais de atuação baseados na temperatura do ar e na sensação térmica:

• Normalidade: até 32°C;

• Observação: acima de 32°C até 35°C;

• Atenção: acima de 35°C até 37°C;

• Alerta: acima de 37°C até 41°C;

• Alerta Máximo: acima de 41°C.

De acordo com o mapeamento do órgão municipal, Maceió está dividida em nove complexos de risco, somando 146 localidades, 69.491 residências em situação de risco e 167.400 habitantes potencialmente expostos a desastres como deslizamentos de massa, desabamentos, alagamentos e inundações.

A Defesa Civil aponta que grandes adensamentos populacionais — como os complexos do Jacintinho, Benedito Bentes e Chã da Jaqueira, que reúnem sozinhos mais de 85 mil moradores vulneráveis — coincidem espacialmente com os territórios de menor cobertura de vegetação e maior propensão à formação de severas ilhas de calor urbanas.

Nos níveis mais críticos (Alerta e Alerta Máximo), o protocolo prevê medidas incisivas do poder público, que incluem:

1. Mobilização total de secretarias como Saúde, Assistência Social e Educação;

2. Instalação de pontos de apoio com distribuição de água potável e áreas de descanso climatizadas ou sombreadas;

3. Recomendação e articulação para a redução da jornada de trabalho de profissionais expostos ao sol, como garis e trabalhadores da construção civil;

4. Vistorias em abrigos de idosos e crianças, além do acompanhamento intensivo de pessoas em situação de rua;

5. Ativação dos Núcleos Comunitários de Defesa Civil (NUDECs) e reforço nas unidades de saúde para atendimento de quadros de desidratação e hipertermia.