Os recifes de coral que emolduram a costa de Alagoas e garantem as águas calmas das piscinas naturais de Maceió vivem o seu momento mais crítico. A combinação entre o estresse térmico provocado pelo El Niño global e as agressões diárias provocadas pelo turismo desordenado, descarte de esgoto e lixo marinho colocam em xeque a sobrevivência desse ecossistema vital.  

Em entrevista ao portal CadaMinuto, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Robson Santos, coordenador do Laboratório de Ecologia e Conservação no Antropoceno (ECOA) e o Projeto Corais de Alagoas, fez um diagnóstico duro sobre a saúde do nosso litoral.  

Segundo ele, o último evento de aquecimento das águas, nos anos de 2023/2024, foi o mais severo já registrado no estado, provocando mortalidade superior a 90% em algumas espécies. Para o pesquisador, a elevação atípica da temperatura das águas marinhas não é apenas uma ameaça abstrata; é uma realidade registrada em dados pelos pesquisadores alagoanos.  

Professor e pesquisador da Ufal, Robson Santos. Foto: Arquivo Pessoal/CadaMinuto

 

De acordo com o Prof. Robson Santos, o fenômeno do branqueamento, quando o coral expulsa as microalgas vitais para sua nutrição devido ao calor, deixou marcas profundas na Costa dos Corais.

"Tivemos branqueamento muito intenso e, em alguns locais, mortalidade superior a 90% de determinadas espécies. Hoje não estamos falando apenas de um episódio de branqueamento, mas das consequências de uma mortalidade que já ocorreu", alertou o pesquisador.

Com previsões de novos picos térmicos no oceano e o encurtamento do tempo de recuperação das colônias entre um El Niño e outro, o especialista pontua que a cautela deve ser a tônica do momento. "A recuperação de um recife é um processo que leva muitos anos, enquanto uma nova onda de calor pode provocar perdas em questão de semanas", ressaltou.  

Turismo sustentável x turismo desordenado e o papel da fiscalização

Se o aquecimento das águas depende de uma geopolítica global do clima, as agressões na superfície acontecem aqui e agora, e podem ser controladas. Santos reforça que o turismo é fundamental para a economia e para aproximação da população com a natureza, mas faz uma separação clara entre a atividade contemplativa e o turismo desordenado.  

Práticas de pisoteio, ancoragem de embarcações sobre os recifes e circulação de veículos em áreas expostas agravam o quadro de um ecossistema enfraquecido. Contudo, o professor lembrou que o problema urbano vai além das piscinas naturais.

"Temos pressões muito fortes que são pouco comentadas, como o aporte de esgoto e lixo no mar, que depende de ações em terra, como saneamento básico, redução do uso do plástico e melhor gestão dos resíduos sólidos", pontuou.

O especialista revelou que o Ministério Público Federal (MPF) recomendou à Prefeitura de Maceió a publicação de um decreto para regulamentar os passeios nas piscinas naturais da capital.  

A UFAL participou ativamente das discussões. "Acredito que estamos perto da publicação do regramento para fiscalização e ordenamento do uso turístico dos recifes em Maceió. Espero que a versão final leve em consideração o conhecimento científico e o diálogo com os operadores", destacou Santos.  

Maceió desprotegida

Muito além do cartão-postal, os recifes de coral cumprem uma função estrutural decisiva para a capital: funcionam como uma barreira de contenção natural que dissipa a energia das ondas antes de atingirem a praia.  

Com a degradação dos recifes, perde-se parte dessa proteção. Embora a erosão costeira na orla de Maceió envolva múltiplos fatores, como obras na costa e ocupação urbana, o enfraquecimento dos corais expõe ainda mais a infraestrutura da cidade aos avanços do mar.

"Conservar os recifes também é uma forma de adaptação às mudanças climáticas e de proteção do patrimônio natural e econômico. A própria identidade turística de Maceió está profundamente relacionada às águas calmas e às piscinas naturais", explicou o pesquisador.

A ilusão do replantio

Frente à perda acelerada de corais, o trabalho do Projeto Corais de Alagoas surge como esperança tecnológica. Com cerca de 500 colônias em cultivo em berçários submersos, a equipe se prepara para avançar para as etapas de replantio em áreas degradadas.  

Porém, o professor faz um alerta contundente para evitar o "ilusionismo ambiental": o plantio de corais não é uma solução mágica e isolada.

"A restauração sozinha não consegue acompanhar a velocidade das mudanças ambientais se continuarmos aumentando as pressões sobre os recifes. Imagine que nós plantemos uma árvore e, ao mesmo tempo, continuemos destruindo a floresta. A restauração deve ser vista como uma ferramenta adicional de conservação, e não como algo que vai salvar nossos recifes por si só", advertiu.

O cenário para os próximos 10 anos

Caso o poder público e a sociedade não avancem urgentemente no regramento do turismo e na infraestrutura urbana, o cenário desenhado pelo pesquisador para os próximos anos é crítico: recifes desestruturados, perda da biodiversidade, queda de estoques pesqueiros e uma orla urbana cada vez mais vulnerável.

"Se não fizermos o dever de casa localmente, podemos chegar a um ponto em que os recifes continuem existindo no mapa, mas tenham perdido boa parte da estrutura, da biodiversidade e dos serviços que prestam à sociedade. Conservar os recifes não é apenas uma questão ambiental, é também social e econômica", concluiu o prof. Robson Santos.