.Aos 73 anos, depois de oito longe das urnas, a médica e ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha (PSDB) retorna ao cenário político estadual com um feito histórico: tornou-se a primeira mulher eleita vice-governadora de Alagoas. Com três mandatos à frente da Prefeitura de Arapiraca e uma passagem pela Câmara dos Deputados, ela chega ao novo cargo carregando uma trajetória marcada pelo pioneirismo e por uma forte ligação com o Agreste alagoano.
Natural de Arapiraca, Célia foi a primeira mulher eleita prefeita do município, onde comandou a administração por três mandatos, entre 1997 e 2004 e, posteriormente, de 2013 a 2016. Antes de chegar ao Executivo municipal, exerceu dois mandatos como vereadora e presidiu a Câmara Municipal, também como primeira mulher a ocupar a função. Sua trajetória inclui ainda a presidência do Conselho Municipal da Mulher e um mandato na Câmara dos Deputados, conquistado nas eleições de 2010, quando recebeu mais de 124 mil votos e obteve a segunda maior votação de Alagoas para deputada federal.
Após anos sem disputar eleições, Célia voltou às ruas durante a campanha de 2026 ao lado de JHC (PSDB), eleito governador de Alagoas. A escolha para a vice-governadoria ocorreu durante as articulações finais para a formação da chapa, depois de ela ter sido anunciada como segunda suplente de Arthur Lira (PP) na disputa pelo Senado. A composição também passou por mudanças envolvendo Ronaldo Lessa (PDT), que chegou a confirmar participação na chapa como vice durante a convenção partidária.
A chegada de Célia à chapa vencedora reuniu duas trajetórias políticas com bases eleitorais distintas: a de JHC, construída principalmente em Maceió, e a da médica, consolidada em Arapiraca, segundo maior colégio eleitoral do estado. O resultado recoloca a ex-prefeita no cenário político estadual e reacende o debate sobre a influência de seu legado eleitoral, mesmo após anos sem disputar eleições.
Em entrevista ao Cada Minuto, Célia fala sobre a emoção de se tornar a primeira vice-governadora eleita de Alagoas, avalia a própria força política e comenta a relação com o prefeito de Arapiraca, Luciano Barbosa. Ela também explica como pretende atuar na futura gestão estadual, aborda seu apoio a Flávio Bolsonaro e fala sobre a importância do respeito às diferenças políticas.
“Não acredito em cargo meramente decorativo”, afirma Célia ao defender uma atuação participativa e presente na Vice-Governadoria. A futura vice-governadora também diz que pretende levar as demandas do Agreste e do Sertão ao governo estadual e destaca que sua eleição representa uma conquista para as mulheres alagoanas.
Confira a entrevista.
Cada Minuto — Como é para a senhora ser eleita a primeira vice-governadora da história de Alagoas, depois de tanto tempo afastada da política?
Célia Rocha — É uma emoção muito grande e, acima de tudo, uma responsabilidade. Depois de oito anos afastada das urnas, voltar à política a convite de JHC, um jovem inteligente e futurista, que tem o meu jeito de fazer política, e ainda ser escolhida pelo povo alagoano, em especial pelos arapiraquenses, para ocupar um cargo tão importante é algo que me emociona profundamente.
Recebo essa vitória com humildade, gratidão e muita disposição para trabalhar e ajudar JHC na mudança de que Alagoas precisa. Ser a primeira mulher a ocupar a Vice-Governadoria de Alagoas é também uma conquista de todas as mulheres alagoanas. Quero honrar essa confiança e mostrar que experiência, coragem e disposição para servir ao povo não têm idade.
Cada Minuto — A vitória de JHC em Alagoas foi considerada surpreendente por muitos. A senhora acredita que sua força política foi subestimada em Arapiraca e no estado?
Célia Rocha — Eu não considero a vitória de JHC surpreendente. Víamos nas ruas e nos olhos das pessoas a esperança e o desejo de mudança. Nós, alagoanos, queremos que ele faça por todo o estado o que fez em Maceió.
Quanto a mim, considero que a política é feita de ciclos e, muitas vezes, as pessoas avaliam uma trajetória apenas pelo momento presente. Eu estava há oito anos fora das urnas, mas nunca estive afastada da política e das pessoas.
A minha história política está construída em Arapiraca, no trabalho, nas realizações e na relação que construí com a população ao longo de décadas. Carrego na minha jornada pública dois mandatos de vereadora, a condição de primeira mulher presidente da Câmara Municipal de Vereadores, a primeira presidência do Conselho Municipal da Mulher, três mandatos como prefeita de Arapiraca — sendo a primeira mulher a ocupar o cargo e a única eleita até o momento —, além de um mandato de deputada federal. A minha relação com Alagoas vai além de Arapiraca: tenho história no Agreste e no Sertão.
A eleição mostrou que essa história continua viva. Talvez alguns tenham subestimado a minha força, mas eu nunca subestimei a força do povo nem a minha capacidade de trabalhar. Quero que, a partir da minha história, as mulheres e a população com 60 anos ou mais enxerguem suas potencialidades e sua força, sem permitir que outros as limitem.

Cada Minuto — Há quem afirme que sua “rusga” com Luciano Barbosa foi combinada e que, na verdade, vocês nunca deixaram de se apoiar mutuamente. O que a senhora pensa sobre isso e como está sua relação atual com o prefeito de Arapiraca?
Célia Rocha — Eu respeito o prefeito Luciano Barbosa e a história que construímos juntos em diferentes momentos da vida pública. A política é feita de escolhas, de posições e também de momentos em que as pessoas podem pensar de maneira diferente.
Não considero produtivo alimentar especulações sobre o passado. Não faz parte do meu caráter enganar as pessoas, e também não tenho talento para atriz. O que posso dizer é que tenho respeito por Luciano e desejo que Arapiraca continue avançando. As diferenças políticas fazem parte da democracia, mas não precisam transformar pessoas que têm uma história em comum em inimigas.
Como ele mesmo disse, em uma mensagem enviada para mim depois de me desbloquear no telefone, após minha entrevista à TV na última terça-feira (6), quando falei que estava bloqueada por ele: “A guerra acabou”.
Hoje, como vice-governadora eleita, meu compromisso é com Alagoas e, naturalmente, com Arapiraca. Posso afirmar que essa também é a posição do governador eleito JHC, pois temos uma forma diferente de fazer política, sem perseguição. Vamos contribuir para que Arapiraca e toda a região do Agreste tenham cada vez mais oportunidades.
Vamos, sim, apoiar os próximos dois anos de Luciano Barbosa à frente da Prefeitura para fazer mais por Arapiraca. Vamos trabalhar juntos.
Cada Minuto — A senhora tem uma trajetória política importante, marcante e muito respeitada em Arapiraca. Como foi voltar às ruas em uma campanha eleitoral? O resultado correspondeu às suas expectativas?
Célia Rocha — Foi uma experiência muito emocionante. Quando voltei às ruas, reencontrei pessoas que fizeram parte da minha história e também conheci uma nova geração que conhecia o meu trabalho pelas histórias que seus pais e avós contavam.
Senti que havia uma memória afetiva muito forte. As pessoas lembravam das obras, dos projetos e das políticas públicas, mas, principalmente, de como eram tratadas.
O resultado foi muito bonito e, claro, superou algumas expectativas. Mas o mais importante para mim foi perceber que, depois de tantos anos, a confiança continuava existindo. Isso não tem preço.
Cada Minuto — Como a senhora pretende ajudar JHC a fazer uma boa gestão no governo? Pretende ser uma vice-governadora mais ativa ou seguir os exemplos dos antecessores?
Célia Rocha — Igual aos anteriores, não. E isso já ficou evidente durante a campanha, quando realizei uma agenda paralela. Em alguns momentos, JHC ia para uma região e eu para outra; em outros, estávamos juntos. Isso foi inédito em Alagoas: o candidato a vice geralmente acompanha a agenda do cabeça de chapa. Isso demonstra a confiança de JHC no meu trabalho, na minha história e no meu legado. Estamos afinadíssimos, agora somos como um casal (risos).
Pretendo ser uma vice-governadora presente, participativa e atuante. Não acredito em cargo meramente decorativo. Vice-governador também tem responsabilidade com o povo. JHC terá em mim uma parceira leal, respeitosa e comprometida.
Quero colocar minha experiência à disposição do governo, especialmente nas áreas em que sempre atuei e naquelas em que ele considerar necessário. Já disse a ele que quero atuar no Gabinete do Povo, que será implantado no Agreste e no Sertão.
Ao mesmo tempo, sei respeitar o papel constitucional do governador. Vou trabalhar em sintonia com JHC, ajudando onde puder e levando ao governo as demandas que ouvir nas ruas.

Cada Minuto — Seu apoio declarado a Flávio Bolsonaro tem algo de pessoal ou é uma decisão estrategicamente política? Por que optou por apoiá-lo e como avalia as propostas dele?
Célia Rocha — Meu apoio a Flávio Bolsonaro é uma escolha política, baseada nas minhas convicções e na visão que tenho para o futuro do Brasil. Não tenho dificuldade em assumir aquilo em que acredito. Não apoio Lula por várias razões, entre elas o fato de suas posições políticas divergirem daquilo que defendo e considero importante para o país.
Respeito quem pensa diferente de mim. Tenho amigos de décadas que não compartilham das minhas escolhas políticas, e isso nunca foi motivo para romper laços. A democracia não pode ser construída apenas por quem pensa igual. Precisamos saber conviver, dialogar e respeitar as diferenças. Também considero importante que as pessoas analisem as propostas, a trajetória e a capacidade dos candidatos, sem se deixar levar pela desinformação e pela manipulação que circulam atualmente na internet.
Um fator decisivo nessa escolha é, sem dúvida, a presença de Alfredo Gaspar na chapa. Ele é um dos representantes de Alagoas com maior visibilidade nacional e tem uma trajetória marcada pela atuação na segurança pública e no sistema de Justiça, além do combate à criminalidade e à corrupção. Vejo em Alfredo um homem preparado, sério e comprometido com o interesse público, que reúne experiência, credibilidade e a identidade alagoana e nordestina. Sua presença é muito importante porque representa a oportunidade de levar a voz do nosso estado para o debate nacional.
Assim como os arapiraquenses reconheceram a importância da minha presença na chapa de JHC, acredito que os alagoanos também saberão reconhecer em Alfredo Gaspar um representante qualificado, com experiência e capacidade para defender os interesses do nosso estado. Tenho certeza de que ele poderá contribuir muito nessa missão.
Faço essa escolha com convicção, considerando minhas crenças e aquilo que julgo melhor para o futuro do Brasil. Isso não significa desrespeitar quem pensa diferente de mim. Pelo contrário, acredito que podemos ter posições políticas distintas e, ainda assim, conviver, dialogar e respeitar uns aos outros.
Cada Minuto — O que a senhora espera do mandato como vice-governadora? E o que gostaria de dizer à população de Arapiraca, que sempre a teve como uma figura política importante?
Célia Rocha — Espero que seja um mandato de muito trabalho, diálogo e resultados. Quero olhar para trás daqui a quatro anos e ter a certeza de que ajudei a transformar a vida das pessoas.
Arapiraca sempre será uma parte muito importante da minha história. Foi onde construí minha vida pública, onde fui vereadora, presidente da Câmara, prefeita e onde aprendi que a política só faz sentido quando melhora a vida das pessoas.
Para os arapiraquenses, quero dizer: muito obrigada. Obrigada por cada abraço, cada palavra de carinho, cada voto de confiança e também por todas as críticas que me ajudaram a crescer.
Eu saí de Arapiraca para representar Alagoas, mas não me afastei de Arapiraca. Pelo contrário. Vou levar comigo a voz do Agreste, o olhar de quem conhece a realidade do nosso povo e a disposição de continuar trabalhando.
Minha maior expectativa é fazer da Vice-Governadoria uma ponte entre o governo e as pessoas. E quero que as mulheres alagoanas saibam que, a partir de agora, existe uma mulher naquele espaço representando também os sonhos, a força e a capacidade de todas nós.
*Fotos: Arquivo Pessoal / Cortesia ao Cada Minuto
