”Por que você não volta para a África junto com os seus para cultuar seus demônios?” A frase, proferida por um agente de segurança pública contra um sacerdote de Candomblé no interior de Alagoas, resume a dimensão mais ostensiva de uma violência que se recusa a desaparecer no estado. Em Maceió, essa mesma hostilidade ganhou contornos institucionais dentro de um consultório médico: a busca de uma paciente por alívio para dores crônicas extremas foi interrompida pela exibição do termo “Cativeiro 01” ao lado do seu nome no painel eletrônico de atendimento.

A vítima da capital, a técnica de enfermagem Christiane da Fonseca Ferreira de Freitas, estava acompanhada do esposo, o fotojornalista Rafael Gonzaga. O episódio, ocorrido em uma clínica particular de Maceió, virou caso de polícia e gerou uma onda de repúdio mobilizada pelo Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal) e pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ).

Mais do que fatos isolados, a sobreposição desses episódios escancara dores profundas e muitas vezes irreparáveis. Da humilhação em um ambiente de saúde aos prejuízos ao culto sagrado no interior, a violência racial em Alagoas expõe o medo que silencia vítimas, as engrenagens do racismo recreativo e as falhas estruturais dos órgãos de apuração.

A dor invisível do sagrado

Se na capital a denúncia do casal ganhou voz e repercussão pública, no interior do estado o racismo opera sob a sombra do medo e da assimetria de poder. Para além do caso da clínica, o CadaMinuto teve acesso ao relato de um sacerdote de candomblé que enfrentou uma rotina contínua de perseguições e agressões por sua cor e por sua fé. 

O babalorixá solicitou anonimato rigoroso por temores reais quanto à sua integridade física, uma vez que o agressor é seu vizinho e atua como policial militar.

O relato da vítima expõe um padrão sistemático de ataques que combinam racismo recreativo e xenofobia. Por inúmeras vezes, o policial dirigia ofensas ao sacerdote mascaradas de "brincadeiras", ridicularizando a cor de sua pele e ridicularizando suas práticas religiosas. 

As agressões verbais se intensificavam especialmente durante os rituais sagrados ao orixá Exu: ao ver a oferenda (o padê) colocada na rua, o agressor repetia deboches de cunho eugenista e o chavão "chuta que é macumba", associando o Candomblé à "magia negra" e proferindo ofensas como "volte para a África".

A violência, contudo, ultrapassou as palavras e atingiu o coração da fé de matriz africana. Em uma das ocasiões, durante um toque de terreiro, a cerimônia foi interrompida arbitrariamente e o atabaque do sacerdote foi apreendido e levado pelo agente policial. Nas religiões de matriz africana, o atabaque não é um simples instrumento musical ou de percussão, mas um elemento de fundamentação sagrada, consagrado e indispensável para a comunicação com os orixás.

A vítima procurou delegacias locais diversas vezes para registrar queixa, mas esbarrou em outro problema recorrente: a falha na tipificação do crime. Em vez de registrarem as ofensas e a apreensão do objeto sagrado sob a Lei do Racismo (14.532/2023) ou ultrage a culto (Art. 208 do Código Penal), as autoridades policiais do interior seguidamente reduziam as ocorrências a meros "conflitos de vizinhança", perturbação do sossego ou intolerância religiosa simples.

O medo de sofrer "rebordosas" e retaliações de um agente armado fez com que o sacerdote optasse pelo silêncio forçado, evidenciando o abismo de proteção e assistência que separa a capital — que conta com estruturas como a Delegacia Têmis Marcelina — das cidades do interior alagoano.

A humilhação na clínica: "Minha esposa travou na hora"

O trauma causado pelo racismo institucional e pela naturalização do preconceito também marcou a vida da técnica de enfermagem Christiane de Freitas e de seu esposo, o fotojornalista Rafael Gonzaga. Em depoimento ao CadaMinuto, Rafael detalhou o impacto psicológico ao ver o nome da esposa vinculado à palavra "cativeiro" na tela de chamada do consultório.

"Foi uma situação extremamente constrangedora, humilhante e ofensiva. Nós ficamos incrédulos. Minha esposa travou na hora, ficou sem reação diante do choque. Quando vi o desconforto dela, percebi que estava sendo atingida de uma forma muito violenta. Imediatamente fui em defesa da minha esposa e fui cobrar explicações", relata Rafael.

Cobrado no local, o médico justificou o ato alegando que se tratava de uma "brincadeira para descontrair". Para o casal, a resposta apenas confirmou a intenção de esvaziar a gravidade do ato.

"Naquele momento tivemos a certeza de que se tratava de um episódio de racismo recreativo. Transformar uma ofensa em 'piada' não diminui a violência que ela causa. Minha esposa foi procurar ajuda profissional porque convive com dores crônicas intensas e acabou exposta de maneira vil. Não poderíamos simplesmente fingir que nada aconteceu. Racismo é crime e quem pratica precisa ser responsabilizado. Nossa mensagem para outras vítimas é: não se cale, denuncie", desabafa o fotojornalista.

Bastidores jurídicos: Falha no flagrante e o agravante do "humor"

A defesa do casal, conduzida pelo advogado Dr. Betinho, trouxe a público detalhes sobre a tramitação do caso na esfera policial e os desdobramentos cíveis e criminais. Segundo o jurista, o médico envolvido no caso da clínica poderia ter sido preso em flagrante no dia do acontecimento, tendo em vista que o crime de racismo é inafiançável e imprescritível perante a Constituição Federal.

"O médico hoje poderia estar devidamente preso caso o delegado de plantão entendesse que o flagrante deveria ser formalizado na forma do racismo recreativo. Mas a autoridade policial de plantão na Central de Polícia entendeu de outra forma e ele não ficou preso. O processo seguiu para a Delegacia Tia Marcelina, onde as vítimas prestaram depoimento à delegada Rebeca e ratificaram integralmente todo o acontecimento", revela o Dr. Betinho.

O advogado reforça que a alegação de "brincadeira" ou "descontração" não livra o infrator, mas majora a pena com base na Lei nº 14.532/2023, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo (Lei 7.716/89).

"A pena base para o crime é de 2 a 5 anos de reclusão. Se o crime for praticado sob o pretexto de descontração, diversão ou recreação, essa pena é aumentada de um terço até a metade. Associar uma mulher negra que aguarda atendimento médico a uma sala intitulada 'cativeiro' é de um mau gosto criminoso. Além do processo criminal contra o médico, a clínica responde civilmente e de forma objetiva por permitir tais práticas em suas dependências e sistemas", assinala o advogado.

Mapeamento em Alagoas: Subnotificação e Subrepresentação

Os dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/AL) revelam que Alagoas registrou 190 ocorrências de injúria racial e 248 casos de racismo no último ano de 2025. No entanto, comissões de direitos humanos e entidades como a OAB/AL e o INEG alertam que os números representam apenas a ponta de um iceberg.

Estimativas apontam que mais de 80% dos casos ocorridos no estado não chegam a virar inquéritos policiais formais, barrados pelo receio de retaliação, como no caso do sacerdote do interior, ou pelo descaso no atendimento inicial em delegacias não especializadas.

Embora cerca de 70% a 79% da população alagoana seja preta ou parda (IBGE), essa maioria demográfica ainda enfrenta abismos sociais: correspondem a mais de 80% das vítimas de homicídios no estado e ocupam menos de 30% dos cargos de alta gestão, além de estarem expostos a episódios recorrentes de discriminação nos serviços privados de saúde, educação e lazer.

O peso da história: "A Abolição ainda está acontecendo"

Para o Dr. Jerônimo Dias Barbosa, integrante do Instituto do Negro de Alagoas (INEG/AL), episódios como a agressão à técnica de enfermagem na capital e o vilipêndio ao terreiro no interior compartilham a mesma raiz histórica: a incapacidade do país de concluir o processo de libertação e integração da população negra.

"Para entender o racismo no Brasil precisamos ir ao início do problema. O tráfico de pessoas escravizadas da África durou mais de 300 anos, período em que seres humanos negros foram tratados como inferiores. Em 1888 houve a abolição formal, mas saliento: a abolição ainda está acontecendo", analisa o dirigente do INEG.

Jerônimo destaca que a promulgação da Lei Áurea deixou a população negra liberta desprovida de moradia, emprego, terra e educação, abrindo um abismo social que se perpetua até os dias atuais.

"A partir dali, a população negra passou a sofrer privações provenientes do racismo que estrutura a sociedade brasileira. Não existe 'brincadeira' em detrimento do outro. Associar uma paciente ao termo 'cativeiro' ou mandar um sacerdote 'voltar para a África' mostra como o negro ainda é visto no inconsciente coletivo como alguém sem valor, como 'terra de ninguém'. A luta antirracista não é responsabilidade exclusiva dos negros; exige o engajamento dos brancos que criaram esse sistema, além de mudanças drásticas na legislação e políticas públicas de inclusão", conclui o Dr. Jerônimo.

Letramento Legal Antirracista

Como resposta ao cenário de violações e à falta de preparo nas abordagens policiais no interior, iniciativas da sociedade civil têm buscado instrumentalizar terreiros e comunidades tradicionais em Alagoas. Um exemplo é a atuação da ONG Patacuri, sediada em Maceió, que idealizou o projeto "Circuito Axé de Terreiros: Saiba Seus Direitos".

Em parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/AL), o Tribunal de Justiça (TJ/AL), o Instituto do Negro de Alagoas (INEG/AL) e outras entidades, o circuito promove formações sobre letramento legal antirracista diretamente nos terreiros de matriz africana do estado. O projeto capacita sacerdotes e sacerdotisas para que reconheçam violações, saibam como agir em abordagens indevidas e conheçam os canais formais de denúncia.

Além das formações, o circuito afixa em cada terreiro visitado uma placa informativa contendo os principais dispositivos legais que protegem a liberdade de culto e criminalizam o racismo, acompanhada de QR Codes que dão acesso direto aos textos das leis e aos órgãos de fiscalização.