Era quase meia-noite quando Givaldo Luis de Souza sentiu que alguma coisa não estava bem. Deitado, tentou se levantar, mas não conseguiu seguir. O corpo perdeu as forças, e ele desmaiou.
Naquele momento, o episódio parecia isolado. Depois vieram outros sinais que ele não conseguia explicar. Uma agonia o fazia sair de casa para andar. “A sensação de que meu coração estava com medo”, relata.
Givaldo conhece o peso do trabalho na roça. Agricultor autônomo de Campestre, na Zona da Mata de Alagoas, a 121 quilômetros de Maceió, passa os dias entre plantações de banana-prata, macaxeira, cana, abacaxi e outros alimentos que cultiva.
Aos sábados, leva o que colhe para a feira livre da cidade. É ali que se transforma o trabalho da semana em sustento para a família.
A rotina exigia esforço físico constante e produção para garantir as vendas. Até que as crises começaram a interrompê-la. Depois do primeiro desmaio, a inquietação continuou. Havia dias em que Givaldo não conseguia permanecer parado nem trabalhar como antes.
A mudança também foi percebida por Givaneide, sua esposa. Acostumado ao esforço da roça, ele passou a precisar de ajuda até para se manter de pé.
“Ele não conseguia pisar no chão, ficava parado e precisava de ajuda. Depois ele começou com uma sensação muito ruim, uma agonia no coração”, lembra.
Em uma das crises mais intensas, Givaldo acordou passando mal. Tomou um pouco de café e, em seguida, desmaiou. Givaneide se assustou com a aparência do marido. “Quando deu essa crise nele, veio muito forte, ele ficou muito pálido, sem querer comer”, recorda.
Ao perceber que os episódios não passariam sozinhos, Givaldo procurou a Unidade Básica de Saúde (UBS) do município. Segundo ele, recebeu a avaliação de que os sintomas estavam relacionados à ansiedade e começou a tomar medicação.
Depois, passou por uma consulta com um psiquiatra. De acordo com Givaneide, o profissional mencionou um quadro relacionado a ataques de pânico.

O sofrimento de quem trabalha no campo
A experiência de Givaldo se insere em um problema que atinge outros trabalhadores rurais.
O levantamento Saúde Mental no Agronegócio: uma crise silenciosa, da Great People Mental Health, estima que 36% dos trabalhadores rurais brasileiros apresentam depressão e que cerca de 9 milhões enfrentam algum problema de saúde mental.
Os números são estimativas produzidas a partir da revisão de estudos e estatísticas, e não de uma pesquisa feita diretamente com trabalhadores de Alagoas.
O levantamento associa o sofrimento no campo a fatores como isolamento, jornadas extensas, insegurança financeira, perdas na produção, eventos climáticos e exposição a agrotóxicos.
Sem dados específicos sobre a realidade alagoana, profissionais que atuam no interior ajudam a mostrar como a busca por cuidado acontece nesses municípios.
A psicóloga Nathalia Bethânia, que trabalha na região há uma década, percebe maior compreensão sobre a importância da psicoterapia e do tratamento psiquiátrico. Ainda assim, diz que o acesso continua difícil.
Um dos obstáculos, segundo ela, é a oferta limitada de profissionais. Quando um caso exige atendimento em outro município, a distância pode atrasar a busca por ajuda. “Quando é necessário se deslocar para outra cidade, o acesso acaba ficando ainda mais difícil”, afirma.
Ansiedade e transtornos depressivos estão entre as principais demandas que Nathalia encontra nos atendimentos. Ela também recebe famílias em busca de avaliação e orientação relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para o trabalhador, as crises afetaram diretamente o trabalho. Ele acredita que o volume de serviço pode ter contribuído para o que viveu e passou a rever o ritmo na roça. Givaneide já se preocupava com as horas dedicadas pelo marido à lavoura. “A gente se preocupava demais com a quantidade de serviço”, diz.
Givaldo continuou cuidando da plantação e levando a produção à feira, mas reorganizou os dias. “Eu tava trabalhando muito, de manhã até a tarde. Agora, às vezes eu vou só de tarde ou de manhã”, conta.
Os obstáculos da psicoterapia
Embora tenha procurado atendimento médico e recebido medicação, Givaldo não fez acompanhamento psicológico. Quando começou a se sentir melhor, interrompeu o uso do remédio e não buscou outros cuidados.
Ele procurou ajuda quando os sintomas passaram a interferir na rotina. Depois da melhora, porém, não tinha clareza sobre o papel da psicoterapia nem sobre como dar continuidade ao tratamento. “Nos momentos foi horrível. Aí eu, graças a Deus, tô melhor agora”, afirma.
Nathalia diz que o custo também pesa para quem vive do trabalho rural e não tem renda fixa. “Quando não conseguem acesso pelo SUS, o custo do acompanhamento psicológico acaba se tornando inviável”, destaca.
O receio do julgamento é outra barreira. Segundo a psicóloga, há moradores que preferem o atendimento on-line mesmo quando vivem perto de um profissional, para preservar a privacidade. Ela observa que, entre pessoas mais velhas, ainda persiste a ideia de que o sofrimento emocional deve ser enfrentado sem ajuda.
Para Givaneide, faltava informação. Antes das crises, conversar com um psicólogo era uma possibilidade distante da realidade do casal.
“Eu acho que foi falta de informação. Acho que foi falta de entender mesmo. Nós nunca tínhamos conversado sobre isso de psicólogo”, conta.
Onde buscar ajuda
Em casa, Givaldo e Givaneide tentaram mudar a rotina para lidar com os momentos em que a agonia e a inquietação voltavam. Passaram a sair mais e a evitar que ele ficasse sozinho por longos períodos.
“Depois desse episódio, a gente procurou sair mais pra não ficar muito em casa”, diz Givaneide.
Essas mudanças não substituem uma avaliação profissional, mas mostram como a família passou a conviver com sinais que antes não sabia reconhecer. Para quem mora na zona rural, buscar acompanhamento pode exigir deslocamento para outra cidade.
No SUS, a UBS mais próxima é um lugar para procurar acolhimento e avaliação. Dependendo da necessidade, o cuidado pode envolver outros serviços da rede, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que também recebem pessoas diretamente.
Em Maceió, a rede municipal oferece a Teleterapia, serviço gratuito de atendimento psicológico on-line que funciona 24 horas por dia. Para acessar, é necessário fazer um cadastro e passar por uma triagem.
Para o casal, reconhecer que aquela agonia precisava de atenção foi o começo. Entender onde buscar apoio, caso os sintomas voltem, ainda faz parte desse caminho.
*Estagiárias sob supervisão da editoria
