O mês de setembro é marcado por um tema muito importante no calendário da saúde: o ‘Setembro Verde’, conhecido pela conscientização da doação de órgãos. No Brasil, a doação depende da autorização da família. Por isso, manifestar esse desejo e compartilhá-lo com as pessoas próximas pode facilitar a decisão quando a possibilidade for apresentada.

Em Alagoas, de acordo com os dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), no ano de 2025 houve um aumento de 33,3% no número de doações de órgãos autorizadas. Segundo a secretaria, até o dia 28 de dezembro, a Central de Transplantes de Alagoas contabilizou 52 autorizações para doação de órgãos, diante de 39 registradas em 2024, superando a meta estadual de crescimento, que era de 20%.

O CadaMinuto conversou sobre o tema com o médico Oscar Ferro, cirurgião especialista em aparelho digestivo e transplante de fígado, que foi o primeiro a realizar um transplante hepático no estado de Alagoas, em maio de 2021.

Oscar Ferro comentou sobre o sistema de transplantes em Alagoas e quais foram as principais mudanças técnicas e estruturais dos últimos anos para mudar esse cenário.

“Alagoas avançou muito nos últimos anos. Transplante não depende apenas do cirurgião; é uma estrutura extremamente complexa. Precisamos de uma Central de Transplantes funcionando, equipes de captação, UTIs preparadas para manutenção do potencial doador, diagnóstico adequado de morte encefálica, laboratório, banco de sangue, anestesia, enfermagem, equipes cirúrgicas e toda uma logística funcionando de maneira integrada.

O grande avanço foi justamente estruturar essa rede e capacitar profissionais para que procedimentos de alta complexidade pudessem ser realizados dentro do próprio estado. Hoje já temos transplantes de rim, fígado, coração e córnea sendo realizados em Alagoas. Isso representa uma mudança muito importante para a nossa população”, disse.

Ele também pontua sobre a demanda de órgão mais carente no estado e explica as diferenças entre os tipos de órgãos.

“Se considerarmos o número de pessoas aguardando, a maior demanda em Alagoas é por córneas. Mas é importante diferenciar tecido de órgão sólido. Entre os órgãos sólidos, rim e fígado têm demandas importantes.

Quando falamos em fígado, existe uma particularidade: diferentemente do rim, em que determinados pacientes podem permanecer em diálise enquanto aguardam, na doença hepática avançada muitas vezes não existe uma terapia capaz de substituir a função do fígado por longo período. Para determinados pacientes, o transplante é a única possibilidade de tratamento definitivo”, argumentou.

Dr. Oscar Ferro durante procedimento cirúrgico — Foto: arquivo pessoal

O cirurgião também afirmou que Alagoas, hoje, possui uma estrutura que permite a realização do transplante hepático no estado, e conta com uma equipe especializada, além do suporte multidisciplinar para o procedimento e acompanhamento pós-operatório. Segundo ele, isso representa uma conquista enorme.

“Durante muito tempo, o paciente precisava sair de Alagoas e buscar centros de referência em outros estados. Além do desgaste físico, havia impacto financeiro e emocional para toda a família”, destacou.

O especialista ainda comentou sobre a importância do banco de sangue em cirurgias de grande porte, além da vez que precisou interromper um transplante por falta de banco de sangue.

“Já tivemos que suspender um transplante de fígado por falta de sangue. O sangue é um componente fundamental em uma cirurgia de grande porte. Por isso, antes de iniciar um transplante, precisamos ter segurança de que haverá suporte hemoterápico adequado caso seja necessário. Um estoque crítico de sangue não afeta apenas os transplantes; afeta cirurgias, urgências, pacientes oncológicos e toda a rede hospitalar”, pontuou.

Oscar descreveu o momento em que realizou o primeiro transplante de fígado em Alagoas.

“Foi um momento de enorme responsabilidade e, ao mesmo tempo, de realização profissional. Não era simplesmente realizar uma cirurgia. Era perceber que estávamos ajudando a construir uma nova possibilidade para os pacientes de Alagoas.

Um primeiro transplante representa anos de formação, planejamento, estruturação e trabalho de muitas pessoas. Quando terminou, o sentimento não foi apenas de uma conquista individual. Foi uma conquista coletiva - da equipe, do sistema de saúde e, principalmente, dos pacientes alagoanos que passaram a ter essa possibilidade mais perto de casa”, relatou.

Por fim, o médico especialista denominou o primeiro transplante hepático em Alagoas como ‘especial’, realizado com seu paciente Jorge Ricardo, hoje também amigo, além de explicar o que as famílias precisam saber para realizar a doação de órgãos.

“A primeira coisa é conversar sobre doação dentro de casa. No Brasil, após a confirmação da morte encefálica, a família é consultada e sua autorização é fundamental para que a doação aconteça.

Também é importante entender que morte encefálica significa morte. O diagnóstico segue critérios médicos rigorosos e protocolos específicos. Somente depois dessa confirmação é que se inicia o processo relacionado à possibilidade de doação.

A família recebe as informações da equipe responsável, e os órgãos são destinados de acordo com os critérios do Sistema Nacional de Transplantes, considerando fatores como compatibilidade, gravidade e critérios técnicos. Transplante não começa na sala de cirurgia. Ele começa na decisão de uma família de transformar a dor da perda em possibilidade de vida”, concluiu.

Jorge Ricardo em atendimento médico — Foto: Arquivo pessoal

Jorge Ricardo Queiroz de Andrade, 62 anos, professor de Educação Física, foi o primeiro paciente a receber um transplante de fígado, em Alagoas. Ele contou como foi receber a doação após 4 anos de espera nas filas de Recife e João Pessoa.

“Eu comecei a tratar o vírus (Hepatite B) que eu contraí em 2008. Ele se prolongou até o dia do transplante. No dia 13 de maio de 2021, quando eu fui transplantado. Hoje me encontro bem, estou dando aula na Escolinha de Futebol, graças a Deus e a toda equipe do Dr. Oscar Ferro. Agradeço também a toda equipe da central de transplante e a minha hepatologista Dra. Leila Tojal”, destacou.

Jorge Ricardo 1 ano após ter recebido o transplante de fígado — Foto: Arquivo pessoal

 

*Estagiário sob supervisão da editoria