O mês de setembro é marcado em todo o país pela campanha de conscientização sobre a prevenção ao suicídio e a valorização da vida, o Setembro Amarelo. A iniciativa busca reduzir o estigma e os preconceitos em torno das doenças mentais, promover a empatia e incentivar a busca por ajuda profissional para quem enfrenta desafios como a automutilação e a ideação suicida.

Para abordar o tema sob a ótica do cenário político atual, o CadaMinuto conversou com o psicólogo clínico Júlio Oliveira, que analisou os impactos da exposição contínua a debates eleitorais nas redes sociais.

“Precisamos primeiro entender que o estresse, em termos práticos, é uma pressão externa que ‘despersonaliza’ momentaneamente o indivíduo. A resiliência, ao contrário, é a capacidade de retornar ao estado normal após um período de tensão. Quanto mais rápido a pessoa se reajusta, mais resiliente ela é”, explica o especialista.

Segundo o psicólogo, o problema no contexto político reside na forma como o debate vem sendo conduzido. “Não discutimos mais propostas, mas ideologias. É por isso que famílias se dividem e o suposto ‘bem maior’ é colocado acima do convívio social. As consequências são rompimentos afetivos, discussões frequentes e quadros de ansiedade, tudo agravado pela superexposição na era da informação.”

Psicólogo Júlio Oliveira — Foto: Thiago Faustino

Estímulos ao desgaste emocional

Júlio Oliveira chama a atenção para o impacto da polarização política nas relações interpessoais, seja no ambiente familiar ou de trabalho, e aponta os gatilhos que levam ao isolamento e ao esgotamento mental.

“Enquanto operarmos sob a lógica de defender um ‘bem maior’, essa polarização não vai terminar. O estresse de tentar ‘fazer acontecer’ exige um gasto de energia enorme que nos despersonaliza, e esse é o primeiro sinal negativo. Em seguida, surgem a tristeza profunda e a indiferença em relação ao próximo. São três características marcantes do desgaste emocional”, argumenta.

Para evitar a exaustão mental em anos de eleição, o profissional sugere medidas práticas de autocuidado e de gestão do consumo de informação.

“O primeiro passo é a autopercepção. Se a pessoa percebe que está com pouca resiliência, a orientação é reduzir o tempo de tela e ajustar os algoritmos das redes sociais para diminuir conteúdos políticos. Vale trocar a tela por exercícios físicos, novos hábitos e hobbies”, orienta.

O psicólogo também faz uma provocação sobre como encarar a política de forma mais saudável: “Sugiro estudar a boa política. Entender o processo de fato nos protege de cair na polarização e de enxergar figuras públicas de forma messiânica. Não podemos demonizar a política; pelo contrário, precisamos compreendê-la para resgatar debates saudáveis.”

Quando buscar ajuda

Por fim, Júlio deixa um conselho sobre como identificar o momento em que a ansiedade e o estresse ultrapassam os limites aceitáveis.

“Despersonalização, falta de empatia e baixa energia ou humor rebaixado: se você apresentar qualquer um desses sinais, procure ajuda profissional. Isso é extremamente sério. Já vi casos extremos, como o de um amigo assassinado em uma discussão política, além de famílias divididas e pessoas que perderam o emprego”, conclui.

 

*Estagiário sob supervisão da editoria