A nota 10 alcançada por três municípios alagoanos nos anos iniciais do ensino fundamental começou a ser construída muito antes da aplicação das provas. O resultado colocou Coruripe, Santana do Mundaú e União dos Palmares entre os destaques do Ideb 2025.

Por trás da pontuação máxima, há um trabalho diário que passa por avaliações diagnósticas, acompanhamento individual dos estudantes, formação continuada de professores e participação das famílias na rotina escolar.

Os três municípios estão entre os únicos do país que chegaram à nota 10 nos anos iniciais, etapa que vai do 1º ao 5º ano. Coruripe ainda se destacou nacionalmente ao reunir 15 escolas municipais com a pontuação máxima.

Calculado a partir do desempenho dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e das taxas de aprovação, o Ideb acompanha a qualidade da educação básica no país. A escala varia de zero a 10.

Nas redes que detalharam suas estratégias ao CadaMinuto, o ponto em comum é que o índice não foi tratado como uma meta isolada. O resultado foi apresentado como consequência de um trabalho mantido durante todo o ano letivo.

“A nossa prioridade é que a criança não apenas consiga responder uma avaliação, mas que aprenda de verdade, desenvolva autonomia e construa uma trajetória escolar sólida. A nota 10 é uma consequência desse trabalho”, afirma a secretária municipal de Educação de União dos Palmares, Mariana de Magalhães Silva Lucena.

A dificuldade precisa ser percebida antes da prova

Em União dos Palmares, na Zona da Mata do Estado, o acompanhamento começa com a identificação das habilidades que ainda não foram consolidadas. Avaliações diagnósticas e formativas são utilizadas junto à observação diária dos professores para localizar as dificuldades de cada estudante.

A partir desses dados, a rede organiza reforço, recomposição da aprendizagem e intervenções específicas. Depois, o desempenho é avaliado novamente. Se a estratégia não funcionar, o planejamento é revisto.

Para Mariana Lucena, o processo exige que a escola abandone uma postura passiva diante das dificuldades. “Essa cultura de acompanhamento nos permite sair de uma lógica de ‘esperar o aluno aprender’ para uma postura de agir pedagogicamente para que ele aprenda”, explica.

A secretária afirma que o planejamento considera os diferentes ritmos de aprendizagem. Em vez de observar apenas o resultado geral de uma turma, as equipes procuram identificar o que cada criança ainda precisa aprender e qual intervenção pode ajudá-la a avançar.

Em Coruripe, o monitoramento também ocorre de forma individual. A rede realiza diagnósticos de leitura com estudantes do 1º ao 9º ano e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), além de atividades específicas na educação infantil e avaliações ao longo do ano.

As escolas recebem fichas com as habilidades previstas para cada bimestre, elaboradas a partir do currículo, da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e das matrizes das avaliações externas. Os resultados são discutidos mensalmente por técnicos da Secretaria de Educação, gestores e coordenadores pedagógicos.

“Identificamos as lacunas de aprendizagem no momento em que elas surgem, permitindo intervenções rápidas e precisas”, relata a gerente pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Coruripe, Monielly Barbosa Sousa dos Santos.

 

 

Uma política para toda a rede

A presença de 15 escolas com nota máxima em Coruripe indica que o resultado não ficou restrito a uma unidade. Segundo a Secretaria de Educação, as escolas seguem diretrizes comuns de formação, planejamento, avaliação e acompanhamento, embora as estratégias sejam adaptadas às necessidades de cada comunidade.

A rede é dividida em três eixos — Centro, Praia e Pindorama —, que reúnem escolas das áreas urbana e rural. A organização busca aproximar as equipes e permitir a troca de experiências entre professores.

Práticas que apresentam bons resultados em uma unidade são compartilhadas com as demais. A integração também ocorre entre os componentes curriculares, com professores articulando conteúdos e habilidades de diferentes disciplinas.

Na pré-escola, a rede utiliza o método fônico como uma das estratégias de alfabetização. Já nas demais etapas, avaliações frequentes orientam a formação de grupos de aprendizagem e as ações de recomposição.

As Olimpíadas do Conhecimento também foram incorporadas à rotina das escolas como forma de estimular a curiosidade, o pensamento crítico e o protagonismo dos estudantes. “O resultado no Ideb e nas avaliações externas é a consequência natural de um trabalho pedagógico consistente e sistemático, e não o objetivo final”, diz Santos.

Formação não fica restrita aos professores

A formação continuada aparece como um dos pilares das duas redes. Em União dos Palmares, professores, gestores e equipes pedagógicas participam de momentos de estudo, planejamento, troca de experiências e análise dos resultados.

“Não existe educação de qualidade sem professor valorizado, preparado e acompanhado”, afirma Mariana Lucena.

Em Coruripe, o Capacita Coruripe atende diferentes profissionais da educação. As unidades também mantêm a Hora Atividade Pedagógica e Coletiva (HAPC) e a Hora Atividade Pedagógica Individual (HAPI), destinadas ao planejamento e à discussão de problemas específicos de cada escola.

A formação inclui conteúdos, metodologias de ensino, competências socioemocionais e gestão da sala de aula. A proposta é preparar os profissionais não apenas para ensinar, mas também para reconhecer sinais de desinteresse e agir antes que as faltas se transformem em abandono escolar.

O suporte se estende aos estudantes e aos próprios educadores. Psicólogos, assistentes sociais e profissionais da educação inclusiva participam do acompanhamento quando a dificuldade de aprendizagem está relacionada a fatores familiares, emocionais ou sociais.

 

 

Família também entra na rede de proteção

O monitoramento da frequência é outro ponto comum entre os municípios. Em União dos Palmares, faltas recorrentes são analisadas pelas escolas para que as causas sejam identificadas e o vínculo do estudante com a sala de aula seja restabelecido.

Para a Secretaria de Educação, garantir a aprendizagem depende de uma rede formada pela escola, pela família e pelo poder público.

Em Coruripe, a frequência é acompanhada diariamente. Quando uma ausência injustificada é percebida, a escola procura os responsáveis e, se necessário, aciona as equipes pedagógica e psicossocial ou outros integrantes da rede de proteção.

O Plantão Pedagógico aproxima professores e familiares e permite que os responsáveis acompanhem os avanços e as dificuldades de cada estudante.

“Ao trazer a família para dentro da escola e demonstrar que o sucesso do aluno é um objetivo compartilhado, transformamos a comunidade escolar em uma verdadeira rede de proteção, apoio e incentivo à permanência”, afirma Santos.

O que existe além da nota 10

Embora o resultado coloque os municípios em posição de destaque, as redes reconhecem que a pontuação não elimina as desigualdades internas nem garante, por si só, que o desempenho será mantido nos próximos anos.

Em Coruripe, os próximos passos incluem fortalecer a alfabetização, ampliar o acompanhamento individualizado, avançar na educação inclusiva e nos anos finais do ensino fundamental, incorporar novas tecnologias e melhorar a infraestrutura das escolas.

União dos Palmares aponta como desafios a redução das diferenças entre as unidades, o atendimento aos estudantes que ainda apresentam dificuldades e a manutenção dos resultados ao longo do tempo.

“Uma conquista como essa aumenta, e não diminui, a nossa responsabilidade”, avalia Mariana Lucena.

Para a secretária, a pontuação representa o reconhecimento de um esforço que envolve professores, gestores, coordenadores, equipes técnicas, famílias e estudantes, mas não deve ser tratada como o encerramento do trabalho.

“Não queremos apenas alcançar uma nota 10. Queremos construir uma rede capaz de manter a qualidade, avançar nos indicadores e, principalmente, garantir que cada criança de União dos Palmares tenha acesso a uma educação pública de qualidade.”

Em Coruripe, Monielly resume o objetivo da rede para além dos índices: “O aluno não aprende apenas para passar em um teste, mas para a vida”.

É nessa distância entre a prova e a aprendizagem cotidiana que as duas redes situam o resultado. Como define Mariana Lucena, “o Ideb 10 não é uma linha de chegada. É uma confirmação de que estamos no caminho certo e um convite para continuarmos avançando”, finaliza.

Fotos: Secretaria Municipal de Educação de Coruripe