Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que o eleitorado de pessoas idosas, com 60 anos ou mais, cresceu 74% entre 2010 e março deste ano, saltando de 20 milhões para 37 milhões. Isso significa que, pela primeira vez na história recente, um em cada quatro votos sairá de uma pessoa com 60 anos ou mais. 

Enquanto isso, o número de eleitores de todas as faixas etárias aumentou 15% no mesmo período. O levantamento que mostra o “envelhecimento” do eleitorado em todo o país foi produzido pela Nexus - Pesquisa e Inteligência de Dados, com base nas informações oficiais do TSE.

Conforme o estudo, dois principais fatores contribuem para essa mudança: o envelhecimento populacional (o número de brasileiros idosos passou de 7% para 16% da população em 30 anos) e a redução do número de eleitores entre 16 e 18 anos, que caiu 14,5% desde a última eleição.

Alagoas

Em Alagoas, os eleitores dessa faixa etária representam, hoje, 19,3% do eleitorado total, ocupando a 18ª posição no ranking de estados com mais eleitores idosos. 

Por outro lado, nas eleições de 2022, Alagoas apresentou, ao lado do Acre, o índice mais baixo do país de comparecimento às urnas do grupo de 60 a 69 anos: 78,5%.

A título de comparação, no pleito de 2022, Rio Grande do Sul e Santa Catarina registraram os maiores índices de presença nas urnas, entre essa faixa etária:  89,5% e 89%, respectivamente.

Estímulo ao voto

Sobre essa diferença entre idosos aptos a votar e votantes, o CadaMinuto conversou com o vice-presidente da Comissão do Idoso da OAB Alagoas, Tutmés Toledo, e com o presidente da Comissão de Direito Eleitoral, João Marcel.

Tutmés destacou que, depois dos 70 anos, no Brasil, o voto deixa de ser uma obrigação, mas jamais deixa de ser um direito do cidadão. “Acredito que devemos estimular a pessoa idosa a continuar participando porque o voto é uma forma de exercer cidadania, autonomia e expressar a voz deste segmento da sociedade, principalmente se levarmos em consideração o aumento da expectativa de vida e da população idosa no Brasil”.

Para o vice-presidente da Comissão do Idoso, o crescente número de pessoas idosas aptas a votar demonstra a relevância desse grupo, e o voto representa autonomia, participação e exercício da cidadania: “Depois dos 70 anos, o voto passa a ser facultativo, mas continua sendo um direito que deve ser estimulado por toda a sociedade”.

“A pessoa idosa acumulou experiência ao longo de toda uma vida. Ela tem conhecimento da sua comunidade, das necessidades de políticas públicas voltadas para a sua faixa etária, conhece as transformações que o país passou. Ou seja, a pessoa idosa tem muito a contribuir para as decisões que vão definir o futuro do nosso país. Portanto, não devemos dizer a pessoa idosa: ‘você não é mais obrigado a votar’. Devemos, sempre, estimular a sua participação”, prosseguiu.

O advogado também destacou que o voto da pessoa idosa é importante primeiro para ela mesma, porque representa autonomia, dignidade e participação. 

“Precisamos acabar com a ideia de que, depois dos 70 anos, a pessoa não precisa mais participar, votar. Pelo contrário: ela tem experiência, tem história e tem muito a contribuir. Aos 70 anos, o voto deixa de ser obrigatório, mas a cidadania nunca envelhece. A experiência da pessoa idosa continua tendo voz, e essa voz continua sendo importante para a democracia”, concluiu.

 

Tutmés Toledo - Foto: Arquivo Pessoal

 

Acessibilidade e conscientização

João Marcel, presidente da Comissão de Direito Eleitoral, entende que o estímulo ao voto do idoso só pode vir de educação, acessibilidade e conscientização, nunca de coerção. 

Ele elenca uma série de recomendações que podem servir de estímulo, a exemplo das seções acessíveis e transferência temporária de seção; prioridade efetiva aos 60+ e especial aos 80+, extensiva a acompanhantes; educação digital sobre urna, biometria e e-Título, com enfrentamento da desinformação; e transporte gratuito ofertado pelo Poder Público. 

“Votar é igualdade e autonomia. O eleitorado 60+ saltou de 20,8 milhões, em 2010, para 36,2 milhões, em 2026, já sendo 23,2% do total. Como a representação se organiza em torno de quem comparece, sua presença torna cuidado, geriatria no SUS e acessibilidade prioridades competitivas”, pontuou.

“A facultatividade não desvaloriza o voto do idoso: é opção constitucional de liberdade, efetiva apenas quando ele alcança a urna sem obstáculo, constrangimento, desinformação ou aliciamento. Enquanto a distância entre idosos aptos e votantes for explicada por barreiras, e não por decisão, não há abstenção, há exclusão”.

Sentimento de responsabilidade

A servidora pública aposentada Wilma Falcão, que já passou dos 70 anos, se enquadra na categoria dos idosos que continuam exercendo o direito ao voto, mesmo sem ser obrigados pela legislação eleitoral. Para ela, votar vai muito além de uma obrigação: “é uma forma de participar ativamente das decisões que influenciam a vida da população”.

“Eu continuo votando porque acho que, além de um dever, é uma responsabilidade minha votar em pessoas que melhorem, que enriqueçam o nosso cotidiano. Por isso que eu voto. Eu acho que um voto, apesar de alguns acharem que não, faz uma grande diferença”, afirma.

Wilma também destaca o sentimento de responsabilidade e participação ao escolher os representantes do país, do estado e do município. “Eu me sinto uma pessoa responsável, participativa e ativa. Acho que é um dever, uma obrigação de todo cidadão, independentemente da idade, fazer valer o seu voto”, diz.

Para ela, quem opta por não votar também abre mão do direito de reclamar posteriormente das decisões tomadas pelos representantes eleitos. “A pessoa que não vota, que não escolhe os seus candidatos, não pode depois reclamar de nada que esteja acontecendo, porque ela não participou dessa escolha”, conclui.

 

Wilma Falcão - Foto: Arquivo Pessoal

 

Abstenção

“Ao passo que a população brasileira envelhece, o contingente de eleitores 60+ cresce muito mais do que as demais faixas etárias. Na prática, nesta eleição poderemos ter 1 de cada 4 votos dados por pessoas com, pelo menos, 60 anos. São 36,2 milhões de eleitores nesta faixa etária, até março. Em um cenário de aguda polarização, em que a eleição de 2022 foi definida por menos de 2 milhões de votos de diferença de Lula para Jair Bolsonaro, conquistar o voto desse eleitor é mais do que estratégico”, afirmou o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, por meio da assessoria de Comunicação do instituto.

Ele destaca que o percentual de abstenção na faixa etária entre 60 e 69 anos também diminuiu nas últimas três eleições, de 37,1% em 2014 para 34,5% em 2022. No mesmo período, as abstenções do eleitorado brasileiro aumentaram de 19,4% em 2014 para 20,9% em 2022.

Mesmo sem a obrigatoriedade do voto, os maiores de 70 anos também têm comparecido mais às urnas, com o número de abstenções caindo de 63,6% de em 2014, para 58,9% em 2022. 

“Sem o dever cívico do voto, os brasileiros com mais de 70 anos que participam das eleições o fazem por convicção ou identificação política. Esse público, assim como os jovens entre 16 e 18 anos, são os brasileiros a serem ‘conquistados’ pelos candidatos. Eles não têm obrigação do voto, então só vão às urnas se tiverem um bom motivo pra isso”, prosseguiu Marcelo Tokarski.

O CEO da Nexus concluiu analisando que o Brasil está diante de uma nova geografia eleitoral: “O fato de os maiores colégios eleitorais do país estarem entre os que mais envelhecem coloca a Geração 60+ no centro gravitacional de qualquer estratégia política vitoriosa para 2026. Os eleitores com 60 anos ou mais correspondem a 23,2% do eleitorado, quase o dobro do percentual de jovens de 16 a 24 anos, que representam 11,9%. Não se ganha mais eleição negligenciando as demandas desse grupo”.

 

Foto principal: Imagem ilustrativa, criada por IA