“Eu percebi a partir do momento em que me enxergava como ‘diferente’”, diz o estudante de Biologia Melquisedec de Oliveira, de 19 anos, ao recordar quando compreendeu que era bissexual e percebeu que a psicoterapia passaria a fazer parte de sua vida.
O jovem não é o único a vivenciar os impactos da saúde mental relacionados à orientação sexual e à identidade de gênero. Em Maceió, a Central do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) registrou um aumento de 28,7% nos atendimentos psiquiátricos e psicológicos. Em Arapiraca, o crescimento foi de 3,27%.
Entre a população LGBTQIAPN+, os dados também chamam atenção. Em 2025, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontou que 55% dos entrevistados relataram uma piora significativa no bem-estar psicológico. A pesquisa também identificou índices de ansiedade de 47,5% e de depressão de 30% acima da média da população geral.
Segundo o psicólogo do Centro de Referência LGBT de Alagoas, mestrando na área e especialista em Psicologia da Infância, Eduardo Weslley, o sofrimento psíquico desse grupo está diretamente ligado às violências enfrentadas em diferentes espaços sociais.
“As pessoas são violentadas em várias instâncias diferentes, mas quase que de uma forma sequenciada. Existe um esquema no qual essas pessoas são expostas a violências e negligências socioemocionais, o que desencadeia em muita afetação psíquica”, explica.
De acordo com o especialista, essas violações não se restringem aos serviços públicos. Família, comunidade, escola e Estado são parte de um diálogo entre instâncias produzindo essa violação de direitos e, consequentemente, o adoecimento mental.
“O padrão para o sofrimento psíquico de pessoas LGBT seriam as violências institucionais, porque essa pessoa é violentada em casa e, às vezes, busca segurança na escola, por exemplo, e a escola violenta de novo”, argumenta.

“Tudo vai ficar bem”
Lançada por Pabllo Vittar, “Indestrutível” se tornou uma música de resiliência para a comunidade. A canção fala sobre encontrar forças para continuar resistindo e vivendo, uma experiência que atravessa a vida de quem precisa lidar com barreiras, julgamentos e violências homofóbicas e transfóbicas.
Foi ao perceber algumas dessas dores em sua própria trajetória que Peter Brasil, homem trans e estudante de Jornalismo, agora com 25 anos, iniciou o tratamento aos 20, após apresentar os primeiros sintomas de depressão.
A necessidade de acompanhamento, no entanto, já havia sido percebida dois anos antes, quando questões relacionadas à sua vivência enquanto pessoa LGBTQIAPN+ começaram a afetar sua saúde mental.
“Se eu passo por alguma situação de preconceito, seja de opressão e repressão, meu psicológico é afetado, interferindo diretamente no tratamento”, relata.
Para Melquisedec, crescer em Porto de Pedras, no Litoral Norte de Alagoas, também deixou marcas. Cercado por falas homofóbicas durante a infância e a adolescência, ele conta que internalizou preconceitos sobre pessoas LGBT e, com o tempo, percebeu que precisaria de ajuda para desconstruí-los.
Para o universitário, o profissional responsável pelo acompanhamento precisa compreender as particularidades de cada pessoa e reconhecer sentimentos como medo e insegurança, além do caminho até a construção do orgulho de ser quem é.
“Enquanto tomava noção disso, via cada vez mais a psicologia sendo tomada por profissionais que levavam sua religião às sessões com os pacientes, e isso me desmotivou por um bom tempo”, conta.
Ao sair da casa dos pais e morar com amigas em um ambiente considerado seguro para se descobrir, as feridas de um passado não tão distante vieram à tona.
“As dores estavam em carne viva no meu psicológico, mas eu não enxergava. A partir disso, eu passei a procurar melhor um atendimento psicológico mais especializado”, diz.

Barreira no atendimento especializado
A experiência de Peter também revela uma dificuldade que vai além da decisão de buscar ajuda, encontrar profissionais preparados para compreender as particularidades da população LGBTQIAPN+.
De acordo com o psicólogo, a falta de serviços especializados e o despreparo de parte dos profissionais ainda são obstáculos para que essa população tenha acesso ao acompanhamento em saúde mental.
“A maior barreira que a gente encontra é a falta de serviços especializados, porque a gente tem esse déficit em todo o cenário brasileiro. Mas eu acredito também que falta muita preparação desses profissionais para saberem tratar essas demandas”, afirma.
Na avaliação do especialista, o acolhimento também passa pela identificação, no serviço onde ele atua, toda a equipe é formada por profissionais LGBTQIAPN+, o que, segundo ele, contribui para uma escuta mais próxima. “O diferencial é esse: ter uma equipe também de pessoas que, de certa forma, sabem o que é passar por uma violência LGBTfóbica”, destaca.
População trans e travesti
Dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+, as pessoas trans e travestis enfrentam uma exposição ainda maior a situações de violência e exclusão. Eduardo explica que esse cenário também está relacionado às cobranças que atravessam o processo de afirmação de gênero.
“As pessoas trans e travestis são as pessoas que, dentro da comunidade LGBT, estão mais suscetíveis às violências. Consequentemente, em relação à saúde mental, necessitam de mais suporte”, explica o profissional.
Segundo Eduardo Weslley, um dos exemplos dessa pressão é a chamada “passabilidade”, quando a pessoa é cobrada para apresentar características físicas e sociais que correspondam às expectativas de gênero impostas pela sociedade.
“Uma vez que o processo de transição exige muitos pedágios emocionais, as pessoas trans são cobradas de cirurgias de afirmação de gênero, que não são uma regra, mas também são cobradas de uma passabilidade compulsória", afirma.
Espaços que acolhem
Peter é um dos pacientes do Ambulatório Trans, inserido no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), no bairro do Tabuleiro dos Martins. O serviço é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e oferece cuidado integrado à comunidade transexual e travesti da capital alagoana.
A equipe conta com psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, enfermeiros e assistentes sociais. O objetivo é oferecer um local acolhedor, respeitoso e com escuta qualificada que contribua para a saúde, o acesso a direitos e às políticas públicas.
Interessados podem levar documentação à Unidade Docente Assistencial Professor Gilberto de Macedo (UDA), na Cidade Universitária. É necessário ser maior de 18 anos e querer fazer a hormonização. Para atendimentos psicológicos, psiquiátricos e atendimentos médicos, as demandas são atendidas pela ONG INAÊ.

Por sua vez, Melquisedec chegou ao Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), situado no bloco de Psicologia, no campus A.C. Simões. O espaço é voltado para a formação técnica e teórica de estudantes do curso e oferece atendimentos gratuitos à comunidade discente, docente, técnica e circunvizinha da instituição.
“Nas sessões consigo abordar questões da minha vida como um homem negro bissexual livremente e de forma completamente plena, me sinto escutado e, melhor do que isso, entendido”, enfatiza.
Apesar das experiências positivas, os dois destacam a importância da divulgação, da permanência dos serviços e da redução de barreiras burocráticas para ampliar o acesso de quem precisa de atendimento.
“Acho necessário que o acesso seja facilitado e melhor difundido, principalmente para pessoas que não possuem boas condições socioeconômicas, pois é mais difícil para que elas consigam ir atrás desses direitos”, destaca Peter.
Nesse sentido, a ampliação do acesso à informação também é parte do enfrentamento das barreiras que dificultam a chegada da população aos serviços psiquiátricos, psicológicos, atendimento médico, endocrinologia e ginecologia disponíveis no HUPAA.
A assistente social da unidade, Flávia Katharina, explica que a divulgação pode ser feita pela própria rede de saúde ou por meio de articulações com instituições. “Podemos estabelecer articulações com a universidade e outros serviços para facilitar o acesso às informações e aos fluxos de atendimento, de modo que calouros e veteranos saibam que existe esse serviço disponível”, conta.
Outras unidades de saúde de Maceió também oferecem atendimento psicológico gratuito. O atendimento é realizado pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), com unidades para adultos nos bairros da Jatiúca, Jacintinho e Bebedouro; e infanto-juvenil na Serraria e o acesso pode ocorrer por encaminhamento ou procura espontânea.
A modalidade de teleterapia também é oferecida pela Prefeitura. O serviço é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas. O acesso pode ser feito pelo site teleterapia.org.br ou pelo WhatsApp (82) 3312-5492. Após o cadastro, o usuário passa por uma triagem para definição do acompanhamento.
Para a população trans e travesti, a Clínica da Família Dr. João Fireman, na Rua Feição, no Jacintinho, possui um Ambulatório Trans que oferece serviços como hormonioterapia e atendimento clínico especializado. O acesso ocorre por encaminhamento da atenção básica pelo Sistema de Regulação Estadual (SisReg).
Já no Hospital da Mulher, no bairro do Poço, o Ambulatório LGBT realiza o acolhimento inicial por profissionais de Enfermagem, Serviço Social e Psicologia. Caso necessário, o serviço encaminha o paciente para outras especialidades. O atendimento deve ser solicitado por meio da rede municipal e agendado pelo SisReg.
*Estagiárias sob supervisão da editoria
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