“Uma pessoa esperar 10 anos no SUS por uma cirurgia de redesignação significa 10 anos vivendo a transfobia diária. Em Alagoas, essa espera mata: seja pela violência física contra mulheres trans, seja pelo suicídio entre homens trans. Não é apenas burocracia, é sobre quem vive e quem morre.”

O desabafo do médico e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Waldemar Neves, sintetiza uma realidade sombria enfrentada pela população trans no estado. Entre a falta de estrutura, o despreparo técnico na atenção básica e a escassez de médicos especialistas, buscar atendimento público em Alagoas frequentemente significa encarar portas fechadas ou filas de espera nacionais que parecem não andar.  

Para tentar intervir nesse cenário de desassistência crônica, começou a operar no bairro Village Campestre II, na parte alta de Maceió, a Rede Saúde Trans. O projeto, vinculado ao Núcleo de Bioética, Educação e Ensino na Saúde (NBEES) da Ufal, surge como um ponto de acolhimento ambulatorial e, ao mesmo tempo, joga luz sobre as falhas estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS) na região.  

Waldemar Neves, médico e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)

De acordo com Neves, que coordena a iniciativa, o enfrentamento precisa ir além da assistência básica para combater a marginalização contínua de corpos trans no estado.

“Dá dignidade à existência dessas pessoas que são marginalizadas, que são violentadas, que são mortas dentro do nosso estado. Toda iniciativa que a gente tem para que essa população não seja discriminada, estigmatizada, violentada e morta é um marco histórico”, afirma o médico.

O gargalo das cirurgias e o vácuo na formação médica

A ausência de equipes capacitadas para realizar o Processo Transexualizador do SUS dentro de Alagoas reduz drasticamente as opções dos usuários, que dependem de encaminhamentos incertos para outros estados. A morosidade desse fluxo impede o acesso contínuo a cuidados de saúde essenciais.  

Segundo o coordenador, a intenção do projeto é avançar na capacitação de profissionais no próprio estado para enfrentar esse vácuo. Ele projeta a utilização da estrutura do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA) como polo formador.

“Não é somente o acolhimento, que a gente sabe que é ambulatorial e hospitalar, mas fomentar dentro do hospital universitário a formação de cirurgiões para os processos de redesignação das pessoas trans. Porque a gente tem um gravíssimo problema”, alerta Neves.

Outro fator crítico apontado pelo docente é a omissão de temáticas de diversidade nas diretrizes curriculares das faculdades de saúde. Conforme explica o professor, os cursos tradicionais raramente preveem conteúdos sobre as diretrizes do SUS para a população LGBTI+.

“A gente pensa na formação de qualidade desses futuros profissionais para que a gente faça um atendimento mais humanizado, já que a gente não possui dentro da universidade disciplinas formadoras nessas políticas. É uma forma de legitimar que essas políticas públicas sejam discutidas e sirvam como base para a formação prática desses estudantes”, pontua.

Acolhimento institucional contra o risco de evasão

Além das lacunas técnicas, a discriminação institucional na porta de entrada dos serviços de saúde é um obstáculo recorrente. O desrespeito ao nome social e o constrangimento em recepções afastam usuários dos cuidados preventivos. Conforme avalia o especialista, a violência institucional opera em múltiplos níveis.

Segundo Neves, a transfobia é um sistema onde as pessoas sofrem barreiras de acesso devido ao preconceito e ao estigma no seu dia a dia. “Para além disso, existem as barreiras impostas por quem acolhe nos serviços, desde a equipe de serviços gerais e segurança até os próprios profissionais que não têm letramento para respeitar a dignidade dessas pessoas”, destaca.

Para conter a rejeição, todos os colaboradores do centro no Village Campestre, dos porteiros aos médicos, passaram por capacitação. Segundo o coordenador, o suporte é essencial também para garantir que os estudantes trans consigam concluir a graduação sem abandonar os estudos por adoecimento ou falta de assistência.

“Não basta apenas dar o acesso, é preciso manter essas pessoas na universidade até o fim. A Rede Saúde Trans vem para garantir que esses estudantes tenham um acolhimento especializado que muitas vezes nunca tiveram na vida. Cuidar da saúde é dar condições dignas de permanência”, ressalta.

Conceito de rede e pressão sobre a periferia de Maceió

Ao definir a proposta metodológica do serviço, Waldemar Neves reforça que o foco central do trabalho não reside no aspecto burocrático do atendimento, mas no acolhimento humano e seguro.

“Eu sempre digo que rede é tudo aquilo que embala, que acolhe e que faz a pessoa se sentir segura, mimada. A palavra é acolher, é acolhimento”, sintetiza o professor.

Embora tenha iniciado as atividades focado no público universitário, o projeto prevê a ampliação progressiva das consultas para moradores do 6º e do 7º Distritos Sanitários de Maceió, regiões periféricas com cobertura em saúde vulnerável. De acordo com a coordenação, o atendimento à população externa será conduzido de maneira planejada para medir o tamanho da demanda na capital.

“Claro que a gente precisa primeiro saber qual será nossa demanda, para a gente não fazer um serviço que não seja baseado com cautela, com cuidado, para que essas pessoas sejam recebidas de forma muito cautelosa dentro do serviço público de saúde”, conclui Neves.