O barulho das motosserras passou a fazer parte da rotina de moradores da Serraria, na parte alta de Maceió. Desde a última segunda-feira (19), árvores vêm sendo derrubadas em um terreno com cerca de 30 mil metros quadrados, nos fundos do supermercado Atacarejo, para a construção de um condomínio residencial de quatro torres.

Onde os moradores se acostumaram a ver árvores de grande porte e animais silvestres, a paisagem começa a mudar. A retirada da vegetação de Mata Atlântica provocou uma denúncia ao Ministério Público de Alagoas (MPAL), que apura se o corte atende às normas ambientais. A construtora responsável e o órgão municipal que autorizou a intervenção afirmam que o procedimento é regular.

Para quem acompanha a transformação do terreno, a preocupação vai além das árvores que tombam. Envolve a perda de abrigo para os animais, os efeitos sobre a temperatura e a chegada de mais veículos a uma região que já enfrenta dificuldades de mobilidade.

Morador da região há cerca de um ano, Márcio Alexandre conta que a presença da construtora havia despertado sua atenção, mas a velocidade da derrubada o surpreendeu.

“Confesso que estranhei a rapidez com que esse desmatamento começou. Esperava que ele fosse objeto de maiores debates, considerando a magnitude do impacto ambiental”, afirma.

Thiago, que mora nas proximidades há 12 anos, diz nunca ter presenciado uma movimentação semelhante naquele terreno. Segundo ele, as motosserras começam a funcionar depois das 8h e o barulho costuma cessar por volta das 16h. Ao longo do dia, os moradores acompanham a retirada da vegetação.

Na descrição de quem vive no entorno, a área de aproximadamente três hectares reúne jaqueiras, mangueiras, cajueiros, palmeiras e coqueiros. Também há relatos da presença de aroeiras.

 

 

O que muda quando a mata desaparece

A sombra que se perde com a derrubada é apenas uma das funções dessa vegetação. O urbanista Dilson Ferreira, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), explica que a retirada de uma cobertura vegetal extensa pode intensificar as ilhas de calor, reduzir a umidade do ar e aumentar a exposição ao ruído.

Para o especialista, as árvores ajudam a regular a temperatura, atenuam sons e oferecem abrigo e alimento a diferentes espécies. Sua retirada, portanto, produz efeitos que podem alcançar as ruas e as casas vizinhas.

Além disso, a mudança também interfere no caminho da água da chuva. Em um terreno vegetado, parte dela se infiltra no solo. Com a remoção da cobertura e a impermeabilização da área, aumenta o volume que escoa pela superfície.

“Quando é desmatada e impermeabilizada, essa água passa a escoar para as ruas, sobrecarregando a drenagem e aumentando o risco de alagamentos nas áreas mais baixas do bairro”, explica o professor.

Enquanto isso, a movimentação de máquinas e o corte das árvores podem deslocar animais para quintais, jardins e outros fragmentos de vegetação, além de destruir ninhos e abrigos e provocar mortes.

Ferreira chama atenção para o período da intervenção, na primavera, quando muitas aves estão em fase reprodutiva. Para ele, os estudos ambientais precisam considerar a presença desses animais e os efeitos da supressão sobre a biodiversidade.

É essa perda que Márcio tenta dimensionar ao observar o terreno. “Há ali certamente um ecossistema que foi se desenvolvendo ao longo de décadas e que, de repente, em alguns dias, vai sendo destruído. Sabemos que um eventual replantio não restabelecerá esse ecossistema imediatamente”, afirma.

O plantio de mudas pode contribuir para a compensação ambiental, mas a formação de uma vegetação capaz de oferecer sombra, alimento e abrigo depende de tempo. São funções que não se recompõem na mesma velocidade em que as árvores são retiradas.

 

Foto: Cortesia

 

Quatro torres e os efeitos sobre o bairro

O terreno receberá o Park Plaza Murilópolis, empreendimento da Solidez Engenharia. Segundo a construtora, o projeto prevê quatro torres residenciais e possui autorizações ambientais e urbanísticas emitidas por órgãos municipais.

Para Ferreira, a avaliação dos impactos precisa considerar também o que acontece fora dos limites da obra: o fluxo de veículos, a demanda por abastecimento de água, a capacidade da rede elétrica e as condições de drenagem.

O urbanista aponta dificuldades de mobilidade na Serraria e nas áreas próximas, além de problemas de abastecimento que, segundo ele, já atingem a Serraria e o Murilópolis.

“Quatro torres não representam apenas quatro edifícios. Representam uma pressão adicional sobre toda a infraestrutura urbana, exigindo estudos técnicos de impacto de vizinhança, mobilidade e drenagem”, afirma.

A preocupação com o trânsito também aparece no relato de Thiago. O morador teme que a chegada de novas famílias e de seus veículos agrave os gargalos nas vias disponíveis. Ele ainda receia que a retirada da vegetação e a construção dos edifícios aumentem o calor e reduzam a circulação dos ventos.

A dimensão desses efeitos depende das características do projeto, das condições da região e das medidas previstas para reduzir os impactos. Por isso, Ferreira defende que a população tenha acesso aos estudos que fundamentaram as autorizações.

Entre os documentos que considera necessários estão um inventário arbóreo georreferenciado, com identificação das espécies e das condições das árvores, um levantamento da fauna e a apresentação das medidas de mitigação e compensação.

O professor também questiona se foram avaliadas alternativas para preservar a vegetação, inclusive a possibilidade de destinar o terreno à criação de um parque público.

 

Foto: Cortesia

 

Construtora e Alurb dizem que corte foi autorizado

Em resposta ao CadaMinuto, a Solidez Engenharia informou que a retirada da vegetação foi autorizada pela Autarquia Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Limpeza Urbana (Alurb). A Autorização Ambiental Municipal de Supressão nº 207/2026 foi emitida em 2 de outubro, com validade até 2 de abril de 2027.

A empresa também declarou possuir a Autorização Ambiental Prévia nº 49/2026, emitida em 6 de agosto pelo Instituto de Pesquisa, Planejamento e Licenciamento Urbano e Ambiental de Maceió (Iplam). Já o Alvará Municipal de Aprovação de Projeto e Execução de Obras nº 546/2026 foi expedido pelo instituto em 13 de outubro.

Segundo a construtora, dois engenheiros florestais acompanham a intervenção para assegurar o cumprimento da legislação e das condicionantes ambientais.

“A intervenção foi submetida ao procedimento administrativo próprio e contou com autorização do órgão municipal competente, não se tratando de uma ação realizada à margem do processo de controle ambiental”, informou a empresa. (Veja a nota na íntegra no final do texto)

Procurada para esclarecer os critérios técnicos da autorização, a vegetação que poderia ser retirada e a compensação prevista, a Alurb afirmou que o procedimento seguiu a legislação ambiental de Maceió.

O órgão municipal informou ainda que a responsável pelo terreno cumpriu o Termo de Compensação Vegetal (TCV), que previa a entrega de mudas de quaresmeira, resedá, ipê, craibeira, pau-brasil e pata-de-vaca, além de insumos para plantios em praças, canteiros e outros espaços públicos da capital.

MP vai verificar cumprimento das normas

A denúncia sobre a derrubada chegou à Ouvidoria do MPAL e foi distribuída às 4ª e 66ª Promotorias de Justiça da Capital, dando origem a um procedimento administrativo.

Segundo o Ministério Público, já foi constatada a existência de licenciamento ambiental. A apuração deverá verificar se a autorização e a retirada da vegetação estão de acordo com as normas aplicáveis.

O órgão esclareceu que a supressão de vegetação nativa da Mata Atlântica em área urbana pode ser autorizada em determinadas circunstâncias. A existência da denúncia, portanto, não significa que tenha sido identificada irregularidade no corte.

Enquanto essa análise segue, os moradores acompanham uma mudança que já está em curso. Entre a compensação prevista nos documentos e a vegetação que desaparece do terreno, Márcio volta à preocupação que motivou os relatos de quem vive no entorno. “É difícil entender como permitem isso. Há todo um ecossistema aí, fauna e flora”, lamenta.

Confira nota da empresa na íntegra:

“A Solidez Engenharia esclarece que a intervenção na vegetação do terreno foi objeto de autorização ambiental específica, concedida pela Autarquia Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Limpeza Urbana (ALURB), conforme a Autorização Ambiental Municipal de Supressão nº 207/2026, emitida em 2 de outubro de 2026.

O empreendimento também possui Autorização Ambiental Prévia emitida pelo Instituto de Pesquisa, Planejamento e Licenciamento Urbano e Ambiental de Maceió (IPLAM) de nº 49/2026 em 06/08/2026, além do Alvará Municipal de Aprovação de Projeto e Execução de Obras, emitido também pelo IPLAM, sob nº 546/2026 emitido em 13/10/2026.

Dessa forma, é importante esclarecer que a intervenção foi submetida ao procedimento administrativo próprio e contou com autorização do órgão municipal competente, e que  também, dois engenheiros florestais fazem o acompanhamento da intervenção, garantindo que todo o processo seja realizado conforme preconiza a legislação, não se tratando de uma ação realizada à margem do processo de controle ambiental.

A Solidez reafirma seu compromisso com o cumprimento da legislação vigente, das condicionantes estabelecidas pelos órgãos públicos e das medidas de compensação ambiental aplicáveis, bem como com a responsabilidade na implantação do empreendimento e o respeito à comunidade e ao meio ambiente.

Permanecemos à disposição para prestar os esclarecimentos necessários. Abaixo encaminho os documentos de legalização citados no texto para checagem. 

Atenciosamente,

Assessoria de Comunicação — Solidez Engenharia”

*Estagiária sob supervisão da editoria

Fotos: Cortesia