Certa vez, puro suco de Brasil apareceu como um tsunami em artigos de colunistas da imprensa brasileira. Mesmo com um sucesso arrebatador, porém, com a mesma velocidade fulminante da chegada, partiu para sempre, da noite para o dia – sem foguete, sem retrato e sem bilhete. Assim é a história de vida e morte de um lugar-comum, de um poderoso clichê na fala, na escrita e no pensamento de todos nós.

Escrevi “partiu para sempre”, mas não é bem assim. Não se pode garantir uma coisa dessas quando o assunto é o manejo do idioma, os modos da fala. As gírias, os trocadilhos, as frases feitas vão e voltam, num movimento sobre o qual as gramáticas e os dicionários não têm controle. Os códigos é que acabam atropelados pela língua viva.

Foi no começo da década de 1990 que explodiu e virou onipresente o arrebentou a boca do balão. Significava que algo ou alguém haviam conquistado um ibope nas alturas. Ou eram protagonistas de um grande feito. O problema é que qualquer besteira passou a receber o selo do “arrebentou...”. E foi bater até em textos do careta Jornal Nacional.

Aconteceu o mesmo processo visto no suco de Brasil – e que acontece com qualquer expressão que cai na boca do povo. O uso e o abuso intensos provocam o desgaste, e levam à corrosão em níveis letais. A saturação fulmina a originalidade, mina a força inicial do termo e o arrasta à vala comum do previsível e do apelo fácil. Inapelável.

Ninguém escapa do clichê, como aliás prova o texto que você lê agora. A questão é estar atento às arapucas que aparecem o tempo inteiro, para não sucumbir ao inaceitável. Não dá para aceitar, por exemplo, que medalhões na velha imprensa recorram, de maneira séria, a pelo andar da carruagem. Chega a ser um acinte ao pobre do leitor.

A encrenca é mais grave quando o recurso ao clichê se dá como uma sacada, um golpe de mestre para resumir a ideia sobre a qual se escreve. Suco de Brasil é isso. Pois de uns tempos para cá, a expressão que bombou e ainda está na crista da onda é fadiga de material. Todo colunista na imprensa está nessa para analisar Lula da Silva.

Nunca se sabe como o novo lugar-comum vai bater nos textos de meio mundo de gente, ao mesmo tempo, como uma febre infernal. Quem foi o primeiro a cometer o delito, isso também é impossível descobrir. O problema de Lula na eleição não é o cansaço, o ramerrame, a repetição, a falta de novidade, o mais do mesmo – é a fadiga de material. 

É vasta a literatura sobre o fascinante universo do clichê e do lugar-comum. Na dimensão mais medonha estão as platitudes. Um exemplo diabólico é este: Sonho que se sonha só é... Não preciso terminar porque você sabe como o desfecho piora tudo.   

Décadas atrás, a Globo proibiu que os jornalistas continuassem a sacar arrebentou a boca do balão. As afiliadas receberam a ordem por escrito. Era proibido também usar expressões como deixou um rastro de destruição e homens fortemente armados.

Mas, se você reparar, essas armações verbais seguem nos atormentando, nos dias de hoje, no jornalismo da Globo – e na imprensa em geral. Porque ninguém controla o vendaval das palavras e da linguagem. E porque afinal um mundo melhor nunca chega. 

Fadiga de material tem uso literal na engenharia civil. Escapou das argamassas para explicar um caso da política. Não haveria perigo de dar certo. Fiasco na mosca. Ou, como diria Nelson Rodrigues, gênio absoluto da raça, sobre esse fatalismo: “Batata!”.