Há certos assuntos e debates que atravessam gerações. Ou quase isso. O fenômeno das redes sociais na disputa eleitoral é um desses temas. De modo mais amplo, a influência do ambiente virtual no jogo da política abriu um latifúndio, avançou divisas e parece ter colonizado boa parte da imprensa. Todo santo dia, um especialista aborda a “novidade” do monstro. Toda semana, um novo estudo “lança luzes” sobre a revolução em curso.
Lá se vai mais de uma década desde que o mundo associou uma revolta popular à mobilização de jovens pelo celular. As redes foram essenciais à Primavera Árabe. Na velocidade insana do Metaverso, parece que faz um século que aquelas manifestações se espalharam por diferentes países. Houve comparações com o Maio de 68.
Um parêntese. A ligeireza com que tudo aquilo foi tratado dava como certos a derrota de regimes autoritários e o triunfo da mais ampla liberdade. Finalmente, nações que viviam sob o jugo de autocracias e ditaduras entravam numa nova estação – afinal chegava a primavera. Na real, em pouco tempo tudo voltou ao que era. Sem contestação.
A fúria daquela juventude no outro lado do mundo tem relação direta com o nosso Junho de 2013. Era o que diziam vozes da academia e do jornalismo no Brasil. A comparação parece forçada, mas foi levada a sério por pensadores da “identidade nacional”. Onde está tudo aquilo agora? Difícil apontar os avanços decorrentes daqueles megaprotestos.
Fim do parêntese. A conexão pelas redes que teria abalado governos e regimes passou a ser determinante em outra frente: na eleição de novos políticos. Ser ativo na rede, entender a lógica do novo meio, se dar bem com o algoritmo etc. formam o conjunto de requisitos para pescar adesão. Celular e redes sociais são os melhores cabos eleitorais.
Estão aí os já veteranos Kim Kataguiri, Nikolas Ferreira e Tabata Amaral. Para se juntar a eles no Congresso, estão chegando Lucas Pavanato, Ana Elisa Santos e Jones Manoel. São apenas alguns dos deputados federais eleitos (ou reeleitos), vitoriosos nas urnas de agora. Eles triunfaram porque “dominam” as manhas da interação na esfera digital.
E então brotam novos textos, em todas as plataformas, para analisar o fenômeno. Exatamente como se dá desde 2018, quando a direita saiu do armário na garupa de Jair Bolsonaro. Oito anos depois, nomes de todas as correntes políticas tentam encontrar a pegada certeira – do Instagram ao TikTok – capaz de seduzir o eleitor.
A primavera de uma revolução acabou em dancinha e trejeitos por um voto.
