Se perder a reeleição, Lula repetirá Jair Bolsonaro em pelo menos um aspecto: pela segunda vez seguida, numa disputa presidencial desde a redemocratização, um consenso universal seria desmentido: o de que a força da máquina garante a vitória de quem tenta renovar o mandato. Antes do Jair, Dilma Rousseff, o próprio Lula e Fernando Henrique ratificaram a escrita sobre o favoritismo de quem já está no cargo.
O que não falta é teoria sobre os motivos dessa aparente mudança no eleitorado. Seja como for, o fator “cansaço” – que explicaria o sufoco para Lula se reeleger – não vale para Bolsonaro, eleito em 2018 pela primeira vez. Além disso, estava embalado na emergência da direita, que continua em alta, como as urnas acabam de atestar.
Antes que algum especialista mais afobado decrete que a variável força da máquina já era, e que hoje isso não passaria de uma lenda urbana eleitoral, calma lá! O resultado nas disputas estaduais revela o contrário – e confirma que estamos diante, senão de um dogma, de uma tendência longe de ser superada. É preto no branco, tiro e queda.
No último dia quatro, 18 governadores no exercício do mandato foram à luta. Desses, 11 liquidaram a parada no primeiro turno e garantiram a eleição. Outros três vão brigar pela vitória no segundo turno. E apenas quatro infelizes foram derrotados. Como se nota, é difícil não atribuir alguma vantagem àqueles que já estavam no cargo.
O quarteto que desafia a história ao perder a eleição – mesmo no comando do arsenal da máquina pública – é este aqui: Hana Ghassan (Pará), Roberto Cidade (Amazonas), Clécio Luís (Amapá) e Mateus Simões (Minas Gerais). Devem estar até agora tentando decifrar como e por que não conseguiram o que parece mais lógico nas eleições brasileiras.
Clécio Luís é um caso extraordinário. Ele conseguiu a façanha de ser o único governador eleito em 2022 derrotado agora no primeiro turno. Os outros três assumiram o mandato em abril passado, após os titulares renunciarem para disputar outros cargos.
A eleição para o segundo turno em cinco estados e no Distrito Federal deve ampliar o número dos eleitos já assentados na estrutura oficial. É o que indicam os percentuais obtidos pelos candidatos na primeira rodada de votação. A tradição fica mantida.
De volta ao começo, Lula encara o desafio de cavar espaço nessa escrita. Assim como fez Bolsonaro – e governadores fazem também –, o presidente recorre à caneta e se vale da posição para obter dividendos. Para Jair, em 2022, não rendeu o esperado.
A máquina, sem dúvida, tem influência decisiva. Às vezes, não é o bastante.
