
Renata Rodrigues | Escritora, poeta e colunista
A voz que observa o cotidiano, questiona o óbvio e fala sobre aquilo que nos atravessa.
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Muito antes da internet, dos livros, dos jornais e de qualquer uma das tecnologias que hoje usamos para nos comunicar, a palavra já ocupava um lugar central na experiência humana. Foi por meio dela que a humanidade contou histórias, registrou acontecimentos, transmitiu conhecimentos, preservou culturas e deixou para as próximas gerações aquilo que não queria perder.
A palavra escrita nos permite voltar ao que alguém pensou há séculos. A palavra lida nos coloca em contato com ideias, experiências e emoções que talvez nunca tivéssemos encontrado sozinhos. A palavra falada cria vínculos, transmite sentimentos, ensina, convence, consola e também pode ferir.
A palavra, portanto, não é apenas uma ferramenta de comunicação. Ela também pode participar da maneira como organizamos pensamentos, adquirimos conhecimento e entramos em contato com experiências emocionais.
Como escritora, percebo isso de maneiras muito concretas: quando escrevemos, organizamos o que pensamos; quando lemos, entramos em contato com conhecimentos, ideias e sentimentos que podem produzir identificação; quando falamos, transformamos pensamentos e emoções em comunicação. Em todos esses movimentos, a palavra produz efeitos.
Escrever também é pensar
Nem sempre conseguimos organizar um pensamento apenas pensando. Às vezes, ele parece um emaranhado de ideias, lembranças, sentimentos, dúvidas e acontecimentos que não sabemos exatamente onde colocar.
Quando escrevemos, precisamos selecionar. Escolher palavras, estabelecer relações, dar sequência às ideias e transformar aquilo que estava disperso em algo que pode ser observado. Por isso, escrever pode ser uma forma de organizar o pensamento.
Isso não significa que escrever resolva um problema ou substitua um processo terapêutico. Significa que colocar uma experiência em palavras pode nos permitir enxergá-la de outra maneira.
Existe uma diferença entre sentir algo e conseguir dizer o que estamos sentindo. Quando escrevemos “estou com medo”, “estou frustrado”, “estou com raiva” ou “não quero mais essa relação”, aquela experiência deixa de ser apenas uma sensação difusa e passa a ter uma representação.
A palavra dá contorno ao pensamento.
Ler também é uma forma de encontro
Se escrever pode ajudar a organizar o que existe dentro de nós, ler pode nos colocar em contato com algo que ainda não existia em nosso repertório.
Um livro pode apresentar uma ideia. Um artigo pode trazer conhecimento. Um poema pode provocar uma lembrança. Uma frase pode produzir identificação. É nesse ponto que a leitura ganha uma dimensão particularmente interessante: a palavra pode provocar um disparo emocional.
Isso não significa que uma determinada palavra produzirá a mesma reação em todas as pessoas. O efeito depende da história, das experiências e das associações de cada indivíduo. Mas determinadas palavras, imagens e narrativas podem favorecer o acesso a emoções que foram reprimidas, evitadas ou que simplesmente permaneceram difíceis de nomear.
Quem lê pode pensar: “É exatamente isso que eu sinto.” E, naquele momento, uma experiência que parecia exclusivamente sua ganha nome.
Quando a palavra entra no processo terapêutico
É justamente essa possibilidade que aparece no trabalho desenvolvido pela psicóloga Camila Reis, que utiliza a palavra escrita, especialmente o poema, como recurso para provocar disparos emocionais durante o processo terapêutico.
Camila desenvolveu o PEER — Protocolo de Escrita Esquemática Reflexiva, apresentado em seu trabalho com a Terapia do Esquema. A proposta utiliza a escrita e a leitura de poemas como recursos para favorecer o acesso a experiências, emoções e conteúdos que podem permanecer difíceis de alcançar ou elaborar, inclusive em pessoas com padrões evitativos e bloqueios emocionais.
Segundo Camila Reis, em determinados casos, a leitura de um poema pode permitir que o paciente acesse conteúdos que não haviam sido alcançados da mesma maneira ao longo de outras sessões. É justamente aí que entra o conceito de disparo emocional: a palavra escrita pode funcionar como um estímulo capaz de mobilizar uma experiência emocional, que posteriormente será trabalhada no processo terapêutico.
O poema, nesse contexto, não é o tratamento. Ele é um recurso utilizado dentro de uma intervenção conduzida pelo psicólogo. Depois que determinada emoção ou experiência é mobilizada, cabe ao profissional ajudar o paciente a compreender o que surgiu e a desenvolver instrumentos para elaborar sentimentos, conflitos e experiências traumáticas.
A técnica não se restringe ao abandono ou ao autoabandono. Pode ser utilizada diante de diferentes experiências, conflitos e conteúdos emocionais, de acordo com a história e as necessidades de cada paciente.
Um exemplo disso pode ser observado justamente no trabalho relacionado ao autoabandono. Um dos meus poemas foi utilizado como recurso nesse contexto:
“Sou eu quem tranca a porta e me deixa do lado de fora.
Esquecido no escuro da minha própria vida.”
Para algumas pessoas, esses versos podem ser apenas literatura. Para outras, podem produzir identificação, lembranças ou emoções relacionadas à própria história. É nesse momento que a palavra pode funcionar como um disparo emocional.
O leitor pode reconhecer naquele texto algo que já estava presente em sua experiência, mas que ainda não havia conseguido formular. A partir daí, o processo terapêutico pode ajudar a compreender o que foi mobilizado e a construir recursos para elaborar aquela experiência.
É uma diferença importante: o poema não faz terapia. Ele pode abrir caminho para o contato com uma emoção; a elaboração acontece no processo terapêutico, com a condução profissional adequada.
A palavra também preserva aquilo que o tempo poderia apagar
O poder da palavra, porém, não começa nem termina na clínica. Ele acompanha a própria história humana.
Histórias foram contadas e recontadas. Depois, passaram a ser escritas. Conhecimentos foram registrados. Leis, descobertas, pensamentos, poemas e relatos atravessaram gerações porque alguém decidiu colocá-los em palavras.
É por isso que ler não é apenas consumir informação. É acessar a memória acumulada de outras pessoas.
Quando lemos um livro escrito há cem ou duzentos anos, entramos em contato com pensamentos produzidos em outro contexto histórico. Podemos concordar, discordar, aprender ou questionar. A palavra permite esse diálogo entre pessoas que talvez nunca tenham se encontrado.
E isso continua acontecendo todos os dias, em escala muito menor, nas palavras que consumimos. Livros, notícias, mensagens, comentários, textos acadêmicos, poemas e conversas participam da construção do nosso repertório de ideias e referências.
A pergunta, então, é simples: o que estamos colocando para dentro?
A potência está nos dois movimentos
Talvez a força da palavra esteja justamente em sua capacidade de fazer dois movimentos: ela pode sair de nós para organizar uma experiência e pode chegar até nós para provocar uma experiência.
Escrevemos para organizar. Lemos para conhecer, reconhecer e, algumas vezes, sentir.
Como escritora, é nesse intervalo que encontro grande parte do sentido do meu trabalho. Quando escrevo, tento transformar pensamento em linguagem. Quando alguém lê, essa linguagem deixa de me pertencer e passa a encontrar a história de outra pessoa.
É nesse encontro que a palavra ganha uma nova dimensão. Ela pode ensinar, registrar, provocar reflexão, produzir identificação e despertar emoções. Em determinadas circunstâncias, pode até funcionar como um disparo emocional dentro de um processo terapêutico, quando utilizada tecnicamente por um profissional.
Talvez a potência da palavra esteja justamente aí: ela não termina quando é escrita. Também não termina quando é lida. Ela continua no que provoca em quem a recebe.
Em uma época em que somos bombardeados por milhares de estímulos diariamente, escolher o que lemos, ouvimos e dizemos também é uma forma de escolher aquilo que alimenta nosso pensamento.
Porque algumas palavras apenas passam. Outras permanecem. E algumas nos fazem parar para pensar sobre aquilo que, até então, não conseguíamos nomear.
